Espuma dos dias… a invasão do Iraque em 2003 — “Após a invasão britânica a British Petroleum sacou 15 mil milhões de libras esterlinas de petróleo do Iraque”. Por Matt Kennard

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 min de leitura

Após a invasão britânica a British Petroleum sacou 15 mil milhões de libras esterlinas de petróleo do Iraque

A Shell, a outra “super-grande” companhia petrolífera do Reino Unido, também voltou a entrar no Iraque em 2009 após a invasão em 2003 que foi amplamente denunciada na altura como uma guerra pelo petróleo por parte dos EUA e do Reino Unido, relata Matt Kennard.

 Por Matt Kennard

Publicado por  em 23 de Março de 2023 (ver aqui)

Publicação original por  em 22 de Março de 2023 (ver aqui)

 

3 de Abril de 2003: Um soldado britânico cobre sapadores que tapam um poço de petróleo em chamas em Basra. (WO2 Giles Penfound/MOD, Wikimedia Commons)

 

  • A BP regressou ao Iraque em 2009 após uma ausência de 35 anos e foi-lhe atribuída uma participação significativa no maior campo petrolífero do país, perto de Basra, ocupado pela Grã-Bretanha
  • A BP bombeou 262 milhões de barris de petróleo iraquiano desde 2011
  • Sir John Sawers, o primeiro representante especial do Reino Unido no Iraque após a invasão, embolsou 1,1 milhões de libras desde que se juntou ao conselho da BP em 2015
  • Outro “supergigante” petrolífero do Reino Unido, a Shell, também ganhou um contrato com o Iraque em 2009 como operador líder no desenvolvimento do “super-gigante” campo petrolífero Majnoon

 

A BP bombeou petróleo no valor de 15,4 mil milhões de libras esterlinas no Iraque desde 2011, quando iniciou a sua produção no país pela primeira vez em quase quatro décadas, segundo novas análises.

A nova informação veio no 20º aniversário do início da invasão do Iraque, que foi considerada ilegal pela ONU. No entanto, nem o Presidente dos EUA George W. Bush nem o Primeiro-Ministro britânico Tony Blair, os dirigentes que lideraram a guerra, foram objecto de uma investigação criminal.

A invasão começou em Março de 2003 e desencadeou uma catástrofe humanitária com cerca de 655.000 iraquianos mortos nos primeiros três anos de conflito, ou 2,5% da população.

15 de Março de 2003: “O petróleo do Iraque não vale o sangue dos meus filhos”, em Washington, D.C., quatro dias antes da invasão”. (Larry Syverson/Flickr, CC BY-SA 2.0)

Foi amplamente denunciada como uma guerra pelo petróleo por parte dos EUA e do Reino Unido. O Iraque detém a quinta maior reserva petrolífera comprovada do mundo. O Iraque não tinha qualquer ligação com os ataques terroristas de 11 de Setembro, que tinham ocorrido 18 meses antes e iniciado a chamada Guerra contra o Terror.

Os dados sobre a produção pós-invasão da BP no Iraque provêm dos relatórios anuais da empresa e foram calculados utilizando o preço médio anual de um barril de petróleo para cada ano de produção.

De 2011-22, a BP bombeou 262 milhões de barris de petróleo iraquiano.

A empresa começou a produzir 31.000 barris de petróleo iraquiano por dia em 2011, mas esse número tinha aumentado rapidamente para 123.000 barris por dia em 2015.

Em 2020, a BP produzia mais petróleo do Iraque do que toda a sua operação europeia, incluindo o Mar do Norte da Grã-Bretanha.

Nos meses anteriores à invasão de 2003, a BP tinha sido apelidada de “Blair Petroleum” devido à intensa actividade de lobby do primeiro-ministro britânico em nome da empresa.

Tanto a BP como a Shell têm histórias no Iraque desde há um século, e a indústria petrolífera do país foi em grande medida dominada pelas duas empresas britânicas ao longo de grande parte do século XX.

A Iraq Petroleum Company, que teve um monopólio virtual da produção petrolífera do país nas quatro décadas até à década de 1960, tinha a sua sede em Oxford Street, em Londres. A BP e a Shell detinham juntas 48 por cento, antes de ser nacionalizada em 1972 e de as suas concessões serem expropriadas.

 

‘Acesso aos Recursos’.

Mas a BP regressou ao Iraque pela primeira vez desde os anos 70, seis anos após a invasão britânica. “Procuramos continuamente aceder a recursos e em 2009 isto incluiu o Iraque”, declarou a empresa na altura.

A nova oportunidade foi um contrato ganho de uma empresa estatal para expandir a produção do campo de Rumaila perto de Basra, um dos maiores campos petrolíferos do mundo. O exército britânico estava na altura a ocupar Basra e áreas circundantes no sul do Iraque.

O jazigo de Rumaila, que se estende por 50 milhas de uma ponta à outra, tinha sido originalmente “descoberto” pela BP em 1953 e é o maior do Iraque.

31 de Janeiro de 2003: O Presidente dos EUA George W. Bush e o Primeiro-Ministro do Reino Unido Tony Blair dirigem-se aos meios de comunicação social depois de discutirem em privado os planos de invasão do Iraque. (Casa Branca/Paul Morse, domínio público, Wikimedia Commons)

 

O plano inicial da administração Bush era que o governo iraquiano assinasse uma nova lei do petróleo que teria indirectamente privatizado o petróleo iraquiano através de um tipo de contrato não convencional chamado “acordos de partilha de produção” (PSA-production sharing agreements).

Estes teriam permitido às empresas petrolíferas estrangeiras assinar contratos com o governo para desenvolver áreas específicas do sector petrolífero iraquiano em troca de uma parte dos lucros petrolíferos.

Mas a constituição iraquiana exige que o Parlamento ratifique leis, e devido à dinâmica interna do país na altura o Parlamento acabou por ser controlado por partidos nacionalistas com políticas anti-ocupação.

O governo iraquiano teve de regressar a uma lei mais antiga que apenas permite “contratos de serviços técnicos” (TSC) que mantinham o petróleo sob propriedade iraquiana, ao mesmo tempo que davam às companhias petrolíferas estrangeiras uma taxa fixa em troca de serviços.

O investimento da BP em Rumaila tomou a forma de um TSC, que se tornou efectivo em Dezembro de 2009. No acordo, a BP recuperaria os custos, independentemente do preço do petróleo, e receberia uma taxa por barril de produção acima de um limiar definido.

No entanto, a empresa informou que “o contrato de serviços técnicos (TSC) ao abrigo do qual operamos no Iraque funciona como um PSA [acordo de partilha de produção]”.

 

“Contratante principal”

A BP foi o principal contratante no desenvolvimento de Rumaila, com uma participação de 38%. A China National Petroleum Company (CNPC) detinha 37%, sendo os restantes 25% detidos pelo governo iraquiano.

A BP disse, juntamente com a CNPC, que tencionava investir 15 mil milhões de dólares nos próximos 20 anos para aumentar a produção em Rumaila para quase 3 milhões de barris por dia, ou 3 por cento da produção petrolífera mundial.

Na altura, Rumaila já produzia metade das exportações de petróleo do Iraque e compreendia cinco reservatórios produtores. A BP, juntamente com os seus parceiros, renovaria os poços e as instalações.

No seu primeiro ano de funcionamento, a BP aumentou a produção do campo de Rumaila em 10 por cento acima da taxa inicialmente acordada com o ministério iraquiano do petróleo, o que significa que a empresa passou a ter direito a uma parte do petróleo produzido. Na década seguinte, a BP extrairia uma média de 65.000 barris de petróleo por dia de Rumaila.

11 de Março de 1917: Tropas britânicas entrando em Bagdad. (Domínio público, Wikimedia Commons)

 

Em 2014, a BP aumentou a sua participação no TSC de Rumaila para 48% e o contrato foi prorrogado por cinco anos, até 2034.

“Apesar da instabilidade e violência sectária no norte e oeste do país, as operações da BP continuam no sul”, informou a empresa.

Em 2015, relatou que “continuamos a construir relações nas regiões históricas do coração da BP no Médio Oriente, com oportunidades crescentes”, incluindo no Iraque, onde a produção da BP atingiu um máximo de 123.000 barris por dia. O Iraque foi agora designado como uma das “principais áreas de produção da BP”.

 

Representante Especial no Iraque

Sir John Sawers, o primeiro representante especial do Reino Unido no Iraque em 2003, que se juntou à administração da empresa em 2015, é uma das personalidades que se saiu bem com a BP.

Durante os sete anos seguintes, Sawers ganhou 1,1 milhões de libras esterlinas em honorários da empresa. A sua participação na BP também valia 135.000 de libras esterlinas no ano passado, mais 181 por cento do que quando entrou para a empresa.

Sawers entrou para a BP como director não executivo em Maio de 2015, tendo aparentemente sido “identificado” no ano anterior, quando se demitiu do cargo de chefe do MI6, a agência britânica de inteligência externa.

“John traz uma longa experiência em política internacional e segurança que são tão importantes para o nosso negócio”, informou a empresa. Sawers passou a maior parte da sua carreira na diplomacia “representando o governo britânico em todo o mundo”, acrescentou a BP. Devido a esta experiência, a BP nomeou Sawers presidente do seu Comité Geopolítico.

A sede da BP em Londres. (WhisperToMe, domínio público, Wikimedia Commons)

 

Sawers esteve perto do Primeiro Ministro Tony Blair no período em torno da invasão do Iraque, servindo como seu conselheiro de política externa de 1999 a 2001. Em Maio de 2003, Blair nomeou a Sawers o primeiro representante especial da Grã-Bretanha para o Iraque pós-invasão.

O papel do representante especial era “trabalhar com iraquianos, com parceiros da Coligação e com outros representantes da comunidade internacional para ajudar e orientar os processos políticos conducentes ao estabelecimento de uma administração provisória”.

Sawers tornou-se então director político e membro principal da direcção do Ministério dos Negócios Estrangeiros de 2003 a 2007. A sua influência no Iraque continuou quando regressou ao país, representando o governo britânico, em Outubro de 2005, no rescaldo do bem sucedido referendo constitucional.

 

Próximo do MI6

Parece que Sawers tinha sido um oficial do MI6 no início da sua carreira. Em 2009, quando ele foi nomeado chefe do MI6, a BBC comentou: “Como observou timidamente Downing Street, Sir John está a ‘reingressar’ no SIS [Serviço Secreto de Inteligência] – não foram dados pormenores sobre a sua carreira anterior no MI6”.

Há muito que a BP tem estado próxima do MI6. Num artigo de domingo de 2007 no Mail on Sunday, que foi subsequentemente retirado, um denunciante da empresa afirmou “a BP estava a trabalhar de perto com o MI6 aos mais altos níveis para a ajudar a ganhar negócios … e a influenciar a compleição política dos governos”.

O ex-oficial renegado do MI6 Richard Tomlinson escreveu nas suas memórias de 2001 que a BP tem “oficiais de ligação do MI6 que recebem a informação de inteligência [CX-customer experience] relevante”.

O antecessor de Sawers como chefe do MI6, Sir John Scarlett, foi o oficial superior dos serviços secretos responsável pelo famoso dossier de Tony Blair sobre as armas de destruição maciça do Iraque, produzido no período que antecedeu a invasão. Scarlett “propôs a utilização do documento para enganar o público sobre a importância das armas proibidas no Iraque”.

Na sua secção de competências relevantes, a BP relatou que a “gestão de Sawers da reforma do MI6 também complementa o enfoque da BP no valor e simplificação”.

 

 

Campo de petróleo super gigante da Shell

A outra companhia petrolífera “super gigante” do Reino Unido, a Shell, também voltou a entrar no Iraque em 2009 quando “assegurou uma posição importante” no país com um contrato governamental para o desenvolvimento do campo de Majnoon, novamente perto de Basra, no sul do Iraque ocupado pela Grã-Bretanha.

A empresa descreveu-o como “um dos campos de petróleo super-gigantes do mundo” com um volume estimado em 38 mil milhões de barris de petróleo.

À Shell foi atribuído um contrato de serviços técnicos por 20 anos como operador principal com uma participação de 45% no desenvolvimento de Majnoon. A companhia petrolífera malaia Petronas deteria 30 por cento com o Estado iraquiano a deter os restantes 25 por cento.

Previa-se que a produção atingisse 1,8 milhões de barris de petróleo por dia, disse a Shell, acima dos 45.000 que estava a produzir na altura. A Shell também disse que o campo tinha “potencial de exploração adicional”.

Também em 2009, foi atribuída à Shell uma participação de 15% num contrato para o desenvolvimento do campo do Qurna 1 Ocidental – novamente perto de Basra – como parte de um consórcio liderado pela ExxonMobil.

Este contrato foi renegociado em 2014 e a quota do governo foi reduzida de 25% para 5% e dispersa por outros accionistas, nomeadamente a Shell.

Contudo, em 2018, a Shell vendeu ao governo iraquiano a sua actual participação de 20% no campo do Qurna 1 Ocidental, e a sua participação de 45% no campo de Majnoon.

A BP e Sir John Sawers não responderam aos pedidos de comentários.

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O autor: Matt Kennard [1983- ] é investigador principal na Declassified UK, que co-fundou com o historiador Mark Curtis. Foi membro e depois director no Centre for Investigative Journalism em Londres. Kennard escreveu anteriormente para o New Statesman, The Guardian, the Financial Times, openDemocracy e The Intercept. É o autor de “Irregular Army”: How the US Military Recruited Neo-Nazis, Gang Members, and Criminals to Fight the War on Terror”, publicado por Verso Books, e de The Racket: A Rogue Reporter vs. the Masters of the Universe, publicado por Zed Books.

 

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