Para que conste em todo o lado, instituições públicas e privadas, –educação, saúde e segurança– tenho por hábito dizer o que penso, com modos afáveis, às vezes iracundo e acompanhado por um bom vernáculo português, embora me considere e até me têm como uma pessoa alegre, de apanhar uma piada como se fosse a vencedora de um concurso de anedotas, mas nunca agarrar nem ler o manha de todas as manhãs, sequer ver ou ouvir os apêndices que tem associados.
Mais declaro que gosto do tempo com sol, de me levantar bem cedo todos os dias, até ao domingo, de olhar encantado a maravilhosa festa de formas e cores com que a natureza nos cumprimenta, de gostar de ouvir o canto dos pássaros, das cigarras e dos grilos, cada vez mais raros e distantes, –amaldiçoados insecticidas e similares com que nos vão envenenando também– de sair para a rua e ala para um café ou dois, conversar com outros habituais e poder ‘dizer mal’ do mundo, deste, onde vamos mal gastando o tempo que nos resta, à conta das ‘contas’ que outros fazem para eles mas nós pagamos, quer queiramos ou não.
Também declaro que gosto de ler prosa ou poesia, escrever só na primeira, de olhar o mar sempre que posso, –tenho muitíssima pena, mas se os portugueses tivessem sido todos como eu, ainda não tínhamos descoberto o ilhéu dos Pássaros em Faro nem as Berlengas– bem como olhar as estrelas à noite, à espera de ver luzir uma cadente.
É só por isso que ainda acredito que este mundo pode mudar a forma de vida, por termos ainda muito caminho para andar, sem ser a fugir de guerras, de alterações financeiras e climáticas, de secas, de fomes e das autocracias que por aí andam.
E também assumo que declaro e penso culpados todos os que se escondem ou disfarçam com fardas, togas e os projectores de luz para as imagens dos ecrãs, que têm pavor em dar a cara andando nas ruas sem guarda-costas, por alguma coisa os incomodar ética ou socialmente, por saberem que lá, nas ruas, também andam, sempre que podem, homens e mulheres, novos e velhos e as crianças.
Também por isso, assumo e declaro que penso culpados do que está a acontecer, os que só pensam nas audiências, –redes sociais incluídas– bom como os que pensam só nos lucros para logo, para amanhã ou para sempre, sem ter em conta de onde saem os pagamentos, quando os há e se os houver, por a vida dos outros não lhes interessar, especialmente se nada tiverem onde possam ganhar alguma coisa.
E foram muito úteis estes últimos anos, a pandemia, as crises económica e climática, as operações especiais com milhares de mortos e dezenas de povoações reduzidas a escombros, mas só ‘operações especiais’ a imporem silêncios e censuras, a banir gente sem espírito de sicário, com capacidade de venderam a alma a troco de poder baixar a cabeça à vontade, como um mero lacaio de qualquer sistema.
E é também por isto que este mundo tem de mudar de viver, apesar do caminho longo para andar, mas para podermos ouvir o cantar do vento entre os ramos das árvores, voltar a ouvir a cotovia de manhã e o rouxinol ao final do dia.
Isto tudo só para que conste, num dia de Abril, antes da Páscoa, a vigésima terceira deste século.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor