Seleção e tradução de Francisco Tavares
2 min de leitura
Emmanuel Macron esquiva-se à divisão europeia na sua visita à China
Uma série de visitas de membros da UE a Pequim mostra um desejo de manter relações amigáveis
Publicado por
em 6 de Abril de 2023 (original aqui)

Primeiro um gotejamento, depois uma torrente. A visita de Olaf Scholz à China no final do ano passado, numa altura de algum embaraço nas relações sino-ocidentais, fez levantar as sobrancelhas; mas pouco depois de partir, Charles Michel, da Comissão Europeia, seguiu os seus passos até ao Grande Salão do Povo, seguido na semana passada por Pedro Sánchez, de Espanha.
Agora a equipa de Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen apressa-se a repetir o procedimento hoje, com a habitual delegação comercial a reboque. Serão seguidos por Josep Borrell, o chefe dos Negócios Estrangeiros da UE, na próxima semana, fazendo dele pelo menos o sexto alto funcionário europeu a visitar a China em seis meses (“como podem ver, muitos europeus vão à China”, observou ele esta semana).
Não há dúvida: depois de uma pausa forçada pelo Covid, os líderes europeus estão particularmente interessados em falar novamente com Xi Jinping, cara a cara. Quer sejam coordenadas ou não, a série de visitas mostra que algo está a acontecer. Mas o quê exactamente?
Em parte, os líderes europeus (pelo menos os da metade ocidental) estão desejosos de reafirmar uma abordagem europeia distinta da China, colocando alguma distância – mas não demasiada – entre eles e a América, onde o consenso sobre a China é tão amplo quanto difícil.
Em particular, há um apetite limitado em Bruxelas e noutros locais do continente pela “dissociação” com a China, uma noção que se tornou omnipresente em Washington quase da noite para o dia. Em vez disso, von der Leyen tem vindo a falar sobre a ideia de “reduzir os riscos” nas relações UE-China, uma noção ainda mais vaga do que a da dissociação, que parece equivaler a mais restrições à exportação em algumas indústrias-chave, mas que fica aquém de um divórcio económico que a UE pensa que não se pode permitir.
Para além disto, há menos terreno comum. Enquanto von der Leyen passa como um falcão europeu em relação à China, Macron, na grande tradição dos presidentes franceses desta república, está desejoso de chegar a acordos com Xi. Ultimamente, Macron tem apresentado a China como o único país capaz de fazer a paz na Ucrânia; há rumores de que quer fazer um acordo pelo qual a China pressione a Rússia a pôr fim à guerra na Ucrânia em troca da continuação das relações sino-europeias normais, até mesmo melhoradas. O objectivo de domesticar a China para a tornar um actor internacional “normal” à sua própria imagem, o sonho falhado de muitos líderes ocidentais, ainda não foi abandonado por Macron.
Esta abordagem encontra muito menos apoio em partes da Europa Central e Oriental, que sempre encararam a RPC com desconfiança. A pequena Lituânia, em particular, tem sido a proverbial cauda que abana o cão. Tendo já vivido sob represálias chinesas por permitir que Taiwan abrisse um escritório quase diplomático (a prática habitual é chamar-lhe algo evasivo como “Gabinete de Representação de Taipé”), o seu ministro dos negócios estrangeiros tem escrito tópicos pontiagudos no Twitter sobre Pequim e o domínio mundial, em antecipação à última visita europeia.
Mas a realidade é que enquanto a Lituânia pode sobreviver sem o comércio chinês, grande parte da Europa não pode. A China é o maior parceiro comercial da UE para mercadorias, tendo ultrapassado a América em 2020. A China fornece quase todo o abastecimento da Europa em minerais de terras raras. E assim por diante. Falando de manutenção da ordem internacional liberal, estes factos económicos significam que há um desejo europeu limitado de que ocorra uma maior degradação nas relações.
Tudo isto equivale a uma grande confusão para todos os envolvidos. Não há apetite europeu para o tipo de intimidade com a China que alguns tinham sonhado nos anos 2000, mas também não há um grande impulso para uma ruptura maior, pelo menos não da parte dos países que têm mais influência. Entretanto, a Europa ainda está a tentar descobrir o seu novo modus vivendi com a China, uma visita de Estado de cada vez.
____________
O autor: Yuan Yi Zhu é professor assistente na Universidade de Leiden e investigador da Faculdade Harris Manchester em Oxford.


