CARTA DE BRAGA – “do adjectivo pelé ao substantivo crise” por António Oliveira

Depois de ter lido um artigo sobre a permanência e o agravamento das crises que nos vão achacando cada dia, desde a tal do covid, a da putinada na Ucrânia, mais a do aumento do preço dos combustíveis, dos alimentos, das comissões bancárias, do cartel dos hipers com uma empresa de produtos de cosmética e higiene que se prolongou durante anos e com todos a pagar, a do aumentos do preço do gás e a do termo ‘pelé’ como novo adjectivo da língua portuguesa, senti-me como o temeroso Henrique IV de Shakespeare, aqui nas palavras da cópia pdf de uma tradução brasileira.

Ó Deus! Se se pudesse ler o livro do destino e as mudanças ver do tempo: montanhas que se aplainam, continentes aborrecidos da sólida estrutura fundirem-se no mar! Ou, noutras épocas, ver a húmida cintura dos oceanos larga para as costelas de Neptuno, as chacotas da sorte e a variedade de licores da taça da inconstância!

Escrever assim só para Shakespeare, mas não posso deixar de lembrar em linguagem banal e corrente como uma crise qualquer implica sempre uma ruptura no decurso normal dos acontecimentos que pautam a vida, aquela que tentamos levar com a certeza de sempre sermos os mesmos a pagar, mas a ver como também se repetem sempre os que enchem as arcas, aqui ou em qualquer lugar onde têm apenas uma secretária e um computador, mas onde deixam ou escondem os impostos que deveriam pagar.

Aliás, para o economista Vicente Ferreira, em artigo publicado no blog ‘Ladrões de bicicletas’ nos últimos dias de Março, ‘Na última reunião do Banco Central Europeu, e de acordo com economistas presentes, o banco central possui dados que mostram que as pressões inflacionistas estão associadas sobretudo ao aumento das margens de lucro das empresas e não à evolução dos salários. Com dados até ao terceiro trimestre do ano passado, aponta no mesmo sentido: os salários reais caíram substancialmente na maioria dos países e não há risco de estarem a alimentar a inflação’ acrescentando, depois, ‘Enquanto a maioria das pessoas enfrenta dificuldades crescentes para pagar as contas da luz, do gás ou do supermercado, as empresas destes sectores têm registado lucros recorde.

Para John Ikenberry, especialista em relações internacionais e professor em Princeton, ‘Os problemas estão em casa, na incapacidade de legitimar e renovar as instituições democráticas, com o populismo a alimentar-se dos desequilíbrios económicos e descriminações raciais, amplificados pelas redes sociais, usando a democracia para minar a democracia’. 

Pedro Rei, mestre em Ciências da Comunicação, tem outra visão da situação, como expôs no artigo ‘A indústria cultural’ publicado no ‘Setenta e quatro’, mas a completar muito bem as atrás abordadas, ‘A indústria cultural de entretenimento tem apostado nos últimos anos na promoção e repetição de conteúdos ad nauseum: os mesmos arcos narrativos, argumentos semelhantes e personagens análogas. É através destes conteúdos que assegura a acumulação de lucros e a disseminação da ideologia dominante, mesmo quando se adapta a nichos de mercado, apostando em conteúdos de estética radical e anticapitalista’.

Isto é uma espécie de labirinto, onde a escolha do caminho da saída exige a capacidade de pensar e diferenciar criticamente, nas palavras do analista económico Germán Gorraiz López do ‘Diario 16’, seguindo aliás o caminho ensinado por ‘Il Poverello d’ Assisi’, S. Francisco de Assis, ‘Começa por fazer o que é necessário, depois o que é possível e, de repente, estarás a fazer o impossível’. 

Isto merece a sentença de John Lennon, dita num concerto e muitas vezes repetida, ‘Os do galinheiro podem aplaudir, os das primeiras filas basta agitarem as joias’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 
 

 

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