
Seleção e tradução de Francisco Tavares
5 min de leitura
Os planos ianque-polacos para a Ucrânia servem para enfraquecer a Alemanha
Por Fabrizio Poggi
Publicado por
em 24 de Abril de 2023 (ver aqui)
Publicação original em
em 12 de Abril de 2023 (ver aqui)

Vladimir Zelensky, ele próprio convencido de que qualquer fantasma de “contra-ofensiva ucraniana” fracassará antes mesmo de começar, muda de opinião: Artëmovsk (o nome russo de Bakhmut) cai e Kiev é forçada a negociar.
No Ocidente estão a ficar cansados de atirar dinheiro para um poço sem fundo e ameaçam deixar de dar ajuda. Por isso, Kiev, que tem de devolver os milhares de milhões que recebeu até agora e que não tem, está a vender parte da Ucrânia para angariar esse montante.
O Komsomol’skaja Pravda, da Rússia, relata uma nota do Niezalezny Dziennik Polityczny, da Polónia, segundo a qual Vladimir Zelensky, consciente de que a contra-ofensiva está condenada ao fracasso e de que a pressão dos EUA e da UE para a obtenção de empréstimos não irá senão aumentar, está a ceder a Ucrânia ocidental à Polónia – trata-se das regiões de L’vov, Ternopol, Volynia e Ivano-Frankovsk – e está mais uma vez a oferecer aos empresários polacos a compra das maiores indústrias ucranianas em troca do pagamento da dívida externa da Ucrânia de mais de 100 mil milhões de dólares.
Este seria o significado concreto de toda o palavreado sobre os dois países “sem fronteiras” que se ouviu durante a recente visita de Zelensky a Varsóvia.
Mas o discurso não se esgota na Polónia: na Roménia, está na ordem do dia um projecto de lei para o regresso da Bucovina do Norte às fronteiras nacionais, e o apetite de Bucareste estende-se a partes das regiões de Cernovtsi e Odessa, bem como a Izmail.
Desde Budapeste, Viktor Orban afirma que pode surgir uma situação em que seja necessária a introdução de tropas estrangeiras na Ucrânia: está a referir-se à Transcarpácia, habitada por cerca de 150 mil húngaros, a maior parte dos quais com passaporte húngaro desde há muito.
Acabaria por ser como com os Sudetas em 1938, escreve Valerij Burt no Fond Strategiceskoj kul’tury: nessa altura, “o führer” ocupou a região checa sob o pretexto de “defender os alemães” que aí viviam. Já nessa altura, a “hiena da Europa” aproveitou a oportunidade para ocupar a região checoslovaca de Cieszyn.
Em suma, “aproxima-se a divisão da Ucrânia”.
O que também pode ser vantajoso para Moscovo: quando estas “aquisições” à custa da Ucrânia ocidental forem aprovadas no Ocidente, será mais problemático opor-se aos russos no Leste do país.
Além disso, conceder à Polónia a Galiza e a Volínia, também historicamente regiões de russofobia e neonazismo mais intensos, seria uma vantagem adicional para a Rússia e uma maldição para a própria Varsóvia.
Por outro lado, o semi-oficial Rzeczpospolita propõe, em vez disso, a criação de uma união polaco-ucraniana, atraindo Kiev para a UE e a NATO, apesar das reticências alemã e francesa.
Isto ajudaria os EUA a concentrarem-se nas questões do Irão e de Taiwan e reforçaria o duo Washington-Varsóvia, em oposição aos interesses franco-alemães na Europa. Evitar uma resolução pacífica do conflito ucraniano, escreve o diário polaco, também impediria o reinício da cooperação económica de Moscovo com a Europa Ocidental.
De qualquer modo, Varsóvia não mostra qualquer desejo de paz: a derrota completa das forças ucranianas significará, de facto, a impossibilidade de Kiev defender os “Kresy Wschodnie” (o que Varsóvia considera os seus “territórios orientais”) das “forças de manutenção da paz” polacas.
Ou significará mesmo que o próprio Zelensky cederá voluntariamente parte da Ucrânia aos polacos, como Simon Petljura fez em 1920.
Para os polacos, observa Vladimir Družinin no Odna Rodina, é portanto vantajoso que a guerra continue.
Assim, o que hoje é apenas o nome constitucionalmente fixado de “Terceira República Polaca” toma forma – comenta o politólogo Aleksandr Nosovic no Moskovskij Komsomolets – após a Segunda República de 1919-1939 (quando Varsóvia tinha incorporado a Bielorrússia Ocidental e a Ucrânia), e apesar do facto de o partido no poder “Lei e Justiça” já apontar para a “Quarta República”. Uma “Quarta Comunidade” que já viu a Galizia e a Volínia ucranianas serem “invadidas” por empresas comuns, ONG, vários “programas para jovens”, intercâmbios de estudantes, mas que, acima de tudo, vê centenas de milhares de trabalhadores ucranianos regressarem da Polónia com salários de sobrevivência: um “exército” de trabalhadores mal pagos que, juntamente com milhares de milhões de euros da UE (fala-se em 130 mil milhões nos primeiros anos de adesão), assegurou o “milagre económico” polaco.
Não é por acaso que o Myśl Polska, num artigo ultranacionalista que classifica os migrantes que chegam à Europa como criminosos e terroristas, salienta que quase onze milhões de ucranianos também atravessaram a fronteira ucraniano-polaca nos últimos treze meses e, destes, mais de seis milhões dirigem-se para outros países europeus, enquanto os restantes tentam instalar-se na Polónia.
Destes últimos, apenas 19% começaram a trabalhar, enquanto todos beneficiam de cuidados de saúde gratuitos e os mais velhos até de uma pensão: um encargo insustentável para o orçamento polaco, conclui o Myśl Polska.
Nosovic pensa que Varsóvia, em vez de “engolir” as regiões ocidentais ucranianas, pretende antes um protectorado, deixando a Ucrânia formalmente independente, actuando como um tampão entre a Polónia e a Rússia, mas explorando os seus recursos económicos e geográficos, já para não falar de uma saída para o Mar Negro.
E, entretanto – Aleksandr Lukašenko também falou disso recentemente e os próprios polacos não o escondem – os planos de Varsóvia incluem o objectivo de se tornar a principal potência militar da Europa até 2030, naturalmente com o apoio dos Estados Unidos e a transferência de armas nucleares americanas da Alemanha para a Polónia.
Um plano que se enquadra perfeitamente no projecto dos EUA de enfraquecer a Alemanha económica e politicamente.
E, para facilitar os desígnios americano-polacos, também é necessário hoje fechar os olhos ao passado, apesar de o líder do “Lei e Justiça”, Jarosław Kaczyński, ter dito uma vez ao antigo líder golpista Petro Porošenko, num tom desagradável, que “a Ucrânia, com Stepan Bandera, não cabe na Europa”.
De facto, hoje Varsóvia evita a questão dos massacres de Bandera na Volynia e, em vez disso, insiste no revisionismo nazi de Zelensky sobre “Smolensk e Katyn”.
E, afinal, observa o editor do Myśl Polska, Przemyslaw Piasta, em relação aos massacres na Volynia, porque é que “um judeu de língua russa (Zelensky; ed.) iria pedir desculpa pelos crimes dos ucranianos greco católicos?”; ele nem sequer pediu desculpa pelo foguete sobre Przewodów, diz Piasta, quanto mais pelos acontecimentos de há oitenta anos…..
Mas a Varsóvia oficial mantém-se em silêncio e parece ignorar a falta de desculpas de Kiev: continuando a cumprir os planos americano-polacos, não pede a Kiev reparações por 1943 ou 2022, enquanto não perde a oportunidade de voltar a pedir a Berlim “reparações de 1,3 mil milhões de euros” pela Segunda Guerra Mundial.
De qualquer modo, quer se trate de um protectorado, de uma confederação ou de uma incorporação, é curioso que, na véspera da visita de Zelensky a Varsóvia, o vice-ministro polaco da Defesa, Waldemar Skrzypczak, que há um ano profetizou “uma rápida vitória ucraniana”, tenha agora declarado que “a Ucrânia não tem qualquer hipótese de recuperar o território conquistado pela Rússia“. No que é mais categórico do que o New York Times sobre a “contra-ofensiva”: “É improvável que tenha sucesso“.
Assim, resta-nos esperar pelo momento em que Vladimir Zelensky, como tantos “líderes” impostos pela CIA em todo o mundo, deixe de ser “o nosso filho da mãe”, para se tornar um outro Bin Laden e talvez acabar da mesma maneira, observa Sergei Donetsky.
Ousou também comparar a Polónia com a atitude americana na Segunda Guerra Mundial: apesar de Washington ter declarado guerra à Alemanha em Dezembro de 1941, a segunda frente só foi aberta em 1944, altura em que existia o grave perigo de todos os despojos irem para o Exército Vermelho.
Por isso, não é improvável que Varsóvia, Bucareste e Budapeste, assim que virem que o exército ucraniano está nas últimas, avancem com os seus exércitos, incitados por Washington, para impedir que a Rússia se apodere de toda a Ucrânia.
“A causa dos Partos [1] está perdida; que se percam também as armas”, terá dito o divino Ovídio.
___________
Nota
[1] N.T. Império Parta, 247 a.C. – 224 d.C. (ver wikipedia aqui)

1 Comment