CARTA DE BRAGA – “da carteira às memórias” por António Oliveira

A crise está aí, nota-se até na embrulhada do IVA, dos 23, dos 6 e do 0%, em nem sei bem que produtos, pois, como se salientou num DN do final de Março, ‘Portugal é actualmente um dos países da União Europeia onde o IVA tem mais peso na receita. Os impostos indirectos aumentaram 12,2%.No último ano, o IVA representou 61,5% das receitas com impostos indirectos (58,4% em 2021). A receita do IVA totalizou 22,6 mil milhões de euros, mais 3,452 mil milhões de euros que no ano anterior’.

Está bem claro que, com isto tudo e para cada um de nós, ‘Gerir a carteira tornou-se um exercício digno de contorcionistas e, para ajudar ao exercício, o FMI veio deitar água na fervura do optimismo do governo e aponta agora para um crescimento que não irá além de 1% este ano, aquém da previsão do Executivo e do Banco de Portugal. Se assim for, será mais um ano perdido’, adianta ainda o mesmo jornal.

Isto vem nos jornais, como virá também noutras fontes de informação, mas, se calhar não tão eficientes como o anúncio que alguém me disse ter encontrado num lugar qualquer, daqueles abertos a públicos de pequenas posses, só para beber um copo para aliviar a sede e acompanhar com uma talisca de peixe ou de fígado, para o copo não cair mal; e dizia o tal anúncio, pendurado no lado de dentro do vidro da janela a dar para a rua Precisam-se clientes. Não faz falta ter experiência. Estava escrito à mão, letra irregular e pouco cuidada, feita com lápis grosso, talvez daqueles de carpinteiro, embelezado por duas dedadas descuidadas. 

Perguntei-lhe quem era o dono do lugar e ele falou-me de um homem antigo, mas rijo, tão rijo como aqueles carvalhos que nunca vão abaixo à primeira, ‘daqueles que necessitam de mais de um fogo para morrerem’. Sei bem do que falava, por ver e apreciar bem os que ainda resistem, renascidos na primavera que veio depois, quando dos pinhos só ficaram os esqueletos, e os eucaliptos ainda não dominavam o espaço todo, aquele que agora ocupam nas encostas e vales onde antes até havia pássaros. 

A memória funciona aqui como uma espécie de legitimação do processo, a dar origem ‘A novos significados para integrar outros ligados a processos distintosde modo a integrar diferentes áreas de significação, e abranger também uma totalidade simbólica’, nas palavras de Berger & Luckman. É exactamente o mesmo processo pelo qual se podeinteriorizar uma imagem ou uma instituição, de tal forma ‘que ficam eternamente projectadas dentro de mim como elas foram’, como Fromm fundamenta e liga todo o processo de identificação. 

Uma identificação que nos força a passar por estados de alma díspares e confusos, a exigir de nós o apelo à bagagem cultural com que contamos para poder ultrapassar todas as adversidades, especialmente as emocionais, quase sempre ligadas às memórias e recordações. É conveniente lembrar que também não se pode esquecer, ou pôr de lado, todos aqueles com quem partilhámos momentos que nos marcaram, bons ou menos bons. 

Vivemos na era da informação no instante, shocking, alimentada pela surpresa e, diz o filósofo Byung-Chul Han, ‘Tornamo-nos cegos perante coisas silenciosas, digamos as coisas habituais, sem importância ou costumeiras, desprovidas de estímulos, mas que nos fixam ao ser’, mas coisas do mundo capazes de ‘estabilizar a vida humana’ como afirmou Hannah Arendt, ‘as coisas que conferem continuidade e estabilidade’. 

Para o poeta Luís Castro Mendes, num o DN de Maio, ‘O poeta e diplomata Saint-John Perse, dizia-nos que devemos agir e conduzir a nossa vida e as nossas obras avec le sérieux d’un enfant qui joue. Não é trazer a infantilidade para as cenas da nossa vida, é assumir cada tarefa e cada jogo que nos é distribuído, com a seriedade que sabem ter as crianças no seus jogos. E que às vezes os adultos não sabem’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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