Marriner Eccles, os New Dealers e a criação das Instituições de Bretton Woods — Parte III- Keynes versus Harry White — Texto 6. “A Batalha de Bretton Woods – Capítulo Um – Introdução”, por Benn Steil

Nota de editor:

A parte III , Keynes versus Harry White, é constituída pelos seguintes textos:

Texto 1 – Porque é que foi White e não Keynes a inventar o sistema monetário internacional do pós-guerra, por James M. Boughton

Texto 2 – Bretton Woods – Declaração de John Maynard Keynes sobre o proposto Banco para a Reconstrução e Desenvolvimento

Texto 3 – Discurso de Henry Morgenthau, Jr., na Sessão Plenária Inaugural (1 de Julho de 1944) em Bretton Woods

Texto 4 – Discurso de Henry Morgenthau, Jr., na Sessão Plenária de Encerramento da Conferência de Bretton Woods (22 de Julho de 1944)

Texto 5 – Cooperação Financeira Global como um Legado de Bretton Woods, por Randal K. Quarles

 Texto 6 – A Batalha de Bretton Woods, Introdução, por Benn Steil

 Texto 7 – A história está feita, por Benn Steil

 Texto 8 – Os fundamentos esquecidos de Bretton Woods, por Eric Helleiner


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Parte III – Texto 6. A Batalha de Bretton Woods – Capítulo Um – Introdução

 Por Benn Steil

Extracto do livro de sua autoria

(ver aqui)

 

No final de 2008, com o mundo mergulhado na pior crise financeira desde a grande depressão, o Presidente francês Nicolas Sarkozy e o Primeiro Ministro britânico Gordon Brown apelaram, cada um por seu lado, a que se repensasse de forma fundamental o sistema financeiro mundial. No início de 2009, juntou-se- lhes o governador do banco central chinês Zhou Xiaochuan, apontando o dedo para a instabilidade causada pela ausência de uma verdadeira moeda internacional. Cada um deles invocou a memória de “Bretton Woods”, a remota cidade de New Hampshire, onde representantes de quarenta e quatro nações se reuniram em Julho de 1944, em plena segunda grande guerra do século, para fazer o que até então nunca tinha sido tentado antes: conceber um sistema monetário global, a ser gerido por um organismo internacional.

O clássico padrão-ouro do final do século XIX, a fundação organicamente formada da primeira grande globalização económica, tinha entrado em colapso durante a anterior guerra mundial, com os esforços para o revitalizar nos anos 20 a revelarem-se catastroficamente mal sucedidos. As economias e o comércio internacional entraram em colapso; as tensões internacionais dispararam. Os internacionalistas do Tesouro e do Departamento de Estado dos EUA compreenderam que havia uma causa e um efeito poderosos, e estavam determinados, na década de 1930, em criar, nas palavras de Harry Dexter White do Departamento do Tesouro, um “novo acordo para um novo mundo”.

White, trabalhando em paralelo e em colaboração conflituosa com o seu homólogo britânico, o revolucionário economista John Maynard Keynes, lançou-se na criação das bases económicas para uma paz global duradoura do pós-guerra, destinadas a permitir aos governos terem mais poder sobre os mercados, mas dando menos liberdade para os mercados poderem ser manipulados para ganhos comerciais. No futuro, o comércio internacional seria colocado ao serviço da cooperação política, pondo fim à escassez de ouro e de dólares americanos. Os especuladores que alimentavam e lucravam com os receios de tal escassez seriam travados por restrições sobre os frenéticos fluxos transnacionais de capital. As taxas de juro seriam fixadas em cada país por peritos governamentais, formados na nova e poderosa disciplina da macroeconomia, para a criação da qual Keynes muito tinha contribuído. Um Fundo Monetário Internacional (FMI) asseguraria que as taxas de câmbio não seriam manipuladas para obtenção de vantagens competitivas. Mais importante ainda, os ditadores potenciais nunca mais seriam capazes de usar a “agressão económica” para arruinar os seus vizinhos e atiçar as chamas da guerra.

A forte recuperação económica verificada nos anos 50 e 60 serviu para tornar Bretton Woods sinónimo de reforma económica internacional visionária e cooperativa. Sete décadas depois, numa altura de grande tensão financeira e económica a nível global, talvez não seja surpreendente que os planos para a reformulação do sistema monetário internacional partam de personalidades tais como o guru dos fundos de cobertura, George Soros, o Prémio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, e do perito em política, Fred Bergsten, remetam todos para Bretton Woods e para os anos do debate entre Keynes e White que definiram o sistema monetário internacional.

Mas será que a história de Bretton Woods pode realmente iluminar o caminho?

Com certeza, houve grandes falhas no quadro monetário que emergiu de Bretton Woods, o que contribuiu diretamente para o seu colapso final em 1971. De facto, o tempo de vida do sistema de Bretton Woods foi consideravelmente mais curto, e o seu funcionamento foi mais problemático do que é comummente considerado. Só em 1961, quinze anos após a inauguração do FMI, é que os primeiros nove países europeus adotaram formalmente as disposições necessárias para que as suas moedas pudessem ser convertidas em dólares, numa altura em que eram já manifestas profundas tensões no sistema. Qualquer sistema que lhe sucedesse iria colidir com os mesmos difíceis compromissos entre as regras multinacionais e o poder discricionário nacional que atormentaram os negociadores americanos e britânicos nos anos 40. Desde 1971, os estadistas mundiais a nível económico apelaram repetidamente à criação de “um novo Bretton Woods”: o Comité dos Vinte em 1973-74, o grupo dos Vinte e Quatro em 1986, e os membros europeus do G7 em 2009, entre outros. Todos eles ficaram desiludidos.

Bretton Woods estava inserido num contexto diplomático único, caracterizado pela ascensão política e económica dos Estados Unidos e pela queda abrupta da Grã-Bretanha. Em vésperas da Primeira Guerra Mundial, o rácio da dívida britânica em relação ao produto interno bruto era de apenas 29 por cento; no final da Segunda Guerra Mundial tinha subido para 240 por cento. Uma nação que na década de 1920 tinha controlado um quarto do território e da população da Terra estava, nas palavras de Keynes, perante um “Dunquerque financeiro”. A história da pacto faustiana que a Grã-Bretanha fez com os Estados Unidos para sobreviver à guerra tornar-se-ia um elemento essencial no drama de Bretton Woods.

No centro desse drama estavam duas personagens que eram antípodas uma da outra, Keynes e White: o eloquente herdeiro de académicos de Cambridge, educado por preceptores privados, e o tecnocrata impetuoso e pertinaz, criado no seio da classe trabalhadora de Boston de imigrantes judeus da Lituânia.

Keynes, em Bretton Woods, era o mais célebre internacionalmente dos economistas presentes. Os meios de comunicação social americanos não se cansavam de falar deste inglês eloquente e mordaz, que era reverenciado e atacado pelas suas novas e arrojadas ideias sobre a intervenção dos governos na esfera económica. Keynes tinha atacado a ortodoxia intelectual da profissão económica da mesma forma que Einstein o tinha feito com a física duas décadas antes. Na sua monumental Teoria Geral, de 1936, Keynes tinha argumentado, com o seu inigualável espírito malicioso e a sua enorme autoconfiança, que aquilo que os governos pensavam ser uma política eternamente sólida era na realidade imprudente quando se tratava de enfrentar uma depressão. A noção chave, sustentava ele, era que a própria existência da moeda no coração da economia tinha um efeito devastador sobre os mecanismos de estabilização automática que os economistas clássicos acreditavam que atuavam sempre. Keynes aplicaria a sua visão na conceção de uma nova arquitetura monetária global, construída em torno de uma nova moeda de reserva internacional – uma moeda que seria uma ameaça à supremacia global do dólar americano e que White estava determinado a que não visse a luz do dia.

Apesar dos seus visionários esquemas monetários, Keynes tinha acabado por vir para os Estados Unidos com a missão de conservar o que pudesse das prerrogativas imperiais históricas da Grã-Bretanha falida – o que lhe permitia pouco espaço de manobra no que se afigurava ser verossimilmente um mundo do pós-guerra dominado pelo dólar. O seu improvável aparecimento de última hora como embaixador financeiro da Grã-Bretanha – a sua voz determinante nas negociações de Bretton Woods, o programa lend-lease [1], as negociações sobre os empréstimos à Grã-Bretanha – teve origem no fracasso repetido dos políticos e da classe de “mandarins” do seu país em fazer avançar as operações que pareciam ser cada vez mais ações de mendicidade desesperada em Washington.

Uma expressão jocosa britânica da época retrata bem como os emissários do país viam a sua situação crítica: “em Washington Lord Halifax sussurrou uma vez a Lord Keynes; é verdade que eles têm as bolsas de dinheiro mas nós temos todos os cérebros”. Tendo Halifax sido um dos muitos homens do establishment político britânico que não conseguiu abrir os cordões das bolsas de dinheiro da América, Keynes foi enviado para a linha da frente em Washington e Bretton Woods na longínqua esperança de que, se os cérebros fossem a chave para a solvabilidade, ele poderia ter mais sucesso.

Ninguém compreendia de forma mais aguda e precisa do que Keynes as terríveis circunstâncias financeiras da Grã-Bretanha de então. Tinha também uma enorme facilidade de palavra que poderia ter feito dele um mestre na diplomacia, se na realidade estivesse mais preocupado em converter os adversários do que em encurralá-los logicamente e humilhá-los. “Aquele homem é uma ameaça às relações internacionais”, esta observação veio – não de um interlocutor americano, mas de um conselheiro do gabinete de guerra britânico, do economista, futuro Pémio Nobel, James Meade, que considerava Keynes um “Deus”. “A caça aos votos, a mobilização de apoiantes, as políticas de almoços e jantares não eram artes em que Keynes se distinguia”, observou o colega do Tesouro Paul Bareau.

Keynes lutou, tanto mental como fisicamente, para se adaptar à estranha posição das pessoas, especificamente das pessoas de Washington, D.C., que não se deixavam convencer pela sua superior capacidade de dominar os factos e a lógica, e nem sequer se sentiam compelidas a sair do caminho. Os americanos nunca se desviaram dos termos da sua linha geopolítica dura – pelo menos até ao após- guerra, quando a equipa de Truman redistribuiu as cartas. Keynes agravou frequentemente os problemas das más mãos das cartas que lhe calhavam, jogando-as inaptamente. Um astuto e dedicado diplomata de carreira teria jogado contra os banqueiros nova-iorquinos, que estavam a negociar empréstimos em troca da oposição britânica aos planos de reforma monetária promovidos pelo Tesouro americano, pelos homens de dinheiro ligados ao Presidente Roosevelt. Mas Keynes tinha um legado em que pensar, e o seu lugar no panteão de Bretton Woods era para ele fundamental. O preço psicológico que pagou pela sua persistência foram os ataques de uma variante da síndrome de Estocolmo, através da qual se convenceria a si próprio – e, com as suas incomparáveis capacidades retóricas, a classe política em Londres – que o governo americano, apesar de todo o seu intolerável legalismo e desafio à razão, tinha realmente boas intenções e acabaria por fazer o que estava certo para a Grã-Bretanha.

A principal barreira ao projeto de Keynes para a ordem monetária do pós-guerra era, na altura de Bretton Woods, um tecnocrata do Tesouro dos EUA ainda pouco conhecido, um tecnocrata que se irritava com a imprensa quando esta, cética sobre a Conferência, sugeria que ele talvez não tivesse outras ideias salvo as que lhe eram transmitidas pela Teoria Geral de Keynes. No entanto, Harry White, apesar de não ter nenhum título oficial de relevo, tinha, em 1944, conseguido uma influência improvavelmente ampla na política externa americana, tendo mesmo desempenhado um papel importante na diplomacia que conduziu à guerra com o Japão três anos antes.

Respeitado de forma contrariada pelos colegas no seu país e pelos seus homólogos no estrangeiro pela sua inteligência, atenção aos detalhes, pela sua vontade férrea e pela sua habilidade em estruturar e justificar as políticas, White fazia poucos esforços para agradar. “Ele não tem a mais pequena ideia de como se comportar ou de respeitar as regras de relacionamento entre gente civilizada”, resmungava Keynes. Arrogante e intimidante, White era também uma pessoa nervosa e insegura. Estando totalmente dependente da sua capacidade de manter o seu chefe, o Secretário do Tesouro Henry Morgenthau, uma pessoa da estrita confiança do Presidente Roosevelt e de inteligência limitada, continuamente apetrechado com políticas acionáveis, e esteve sempre argutamente consciente do seu estatuto precário em Washington. Adoecia muitas vezes por causa do stress antes das negociações com Keynes, e depois explodia no decurso das mesmas. “Vamos tentar”, disse White numa sessão particularmente acalorada, “produzir algo que vossa alteza possa compreender”.

O papel de White como arquiteto chefe de Bretton Woods, onde ultrapassou o seu homólogo britânico muito mais brilhante mas voluntariamente ingénuo, marca-o como um nacionalista implacável, procurando extrair todas as vantagens da mudança tectónica das circunstâncias geopolíticas americanas e britânicas desencadeadas pela Segunda Guerra Mundial. White tinha a visão de uma ordem pós guerra diametralmente oposta aos interesses britânicos de longa data, particularmente quando relacionados com o império. O que até os seus colegas mais próximos geralmente desconheciam, porém, era que a visão de White envolvia uma relação muito mais estreita dos americanos com uma nova potência europeia em ascensão, e que ele estava disposto a usar meios extraordinários para a promover. Dar sentido à agenda mais vasta de White é importante, não só para compreender porque é que os britânicos o consideraram um interlocutor tão difícil, mas também para compreender porque é que o abandono da política económica externa americana foi tão acentuado como foi depois da guerra, quando Truman transferiu o seu controlo do Tesouro para o Departamento de Estado.

White teve, desde longa data, um fascínio pela União Soviética, tendo, em 1933, pouco depois de se ter tornado professor de economia no Lawrence College de Wisconsin, decidido procurar obter uma bolsa de estudo para ir à Rússia e estudar o seu sistema de planeamento económico. Foi apenas desviado desta ideia devido a um convite do conselheiro do Tesouro Jacob Viner, em Junho de 1934, para vir para Washington por uns tempos a fim de o ajudar num estudo sobre a reforma monetária e financeira. Foi aí que conheceu George Silverman, Whittaker Chambers e outros que atuavam confidencialmente para a União Soviética. Já em 1935, White-idealista, ansioso por ter influência e desdenhoso das barreiras burocráticas à ação – começou o tipo de vida dupla perigosa que atraiu muitos dos seus contemporâneos de Washington durante os anos 30 e 40.

Embora os escritos oficiais de White o mostrem diretamente como um democrata keynesiano do new deal, as suas reflexões privadas colocam-no firmemente mais à esquerda. White visionou um mundo pós-guerra em que o modelo socialista soviético de organização económica, embora não suplantando o modelo capitalista liberal americano, estaria em ascensão. Um ensaio inédito e manuscrito de White, recentemente descoberto no decurso desta investigação, corrobora isto sem ambiguidades. Escrito pouco antes do fim da guerra, a peça contém comentários altamente provocantes sobre as atitudes americanas em relação à União Soviética que, sem dúvida, teriam levado, se a peça tivesse sido tornada pública, a apelos generalizados para a sua demissão.

“Eu vi o futuro”, escreveu o jornalista radical Lincoln Steffens após uma viagem a Petrogrado em 1919, “e funciona”. Na altura de Bretton Woods, um quarto de século mais tarde, White acreditava que a economia socialista soviética se tinha revelado um sucesso. “A Rússia é a primeira instância de uma economia socialista em ação”, escreve White. “E funciona!” Muita da animosidade em relação à União Soviética no seio do establishment político americano era, argumentou ele, hipocrisia política gerada por uma incapacidade ideológica de reconhecer o sucesso da economia socialista.

Uma questão fundamental que deve obviamente ser colocada é saber se as ligações soviéticas de White tiveram realmente algum impacto no resultado em Bretton Woods. O amplo “Plano White” para a reforma monetária do pós-guerra não teve certamente qualquer marca do pensamento monetário soviético, uma vez que não havia nenhum que se possa referir. É certo que White foi particularmente solícito para com os russos obstrucionistas na própria conferência – mais do que qualquer um dos seus colegas de negociação americanos, e muito mais do que os europeus, alguns dos quais ficaram indignados com isso. No entanto, isto no final não significou grande coisa, uma vez que os soviéticos nunca ratificaram os acordos. Se White se tivesse tornado o primeiro diretor-geral do FMI, as suas opiniões poderiam ter tido outras consequências – nunca o saberemos. Contudo, veremos que a principal razão pela qual White não se tornou o chefe da instituição – e nenhum americano se tornou desde então o seu chefe – foi o aparecimento de revelações públicas sobre as atividades de White a favor dos soviéticos.

Winston Churchill comentou uma vez que “podemos sempre contar com os americanos para fazer a coisa certa, depois de eles terem esgotado todas as outras possibilidades”, e acabou por ser contraditado dois anos após a morte de Keynes, e meio ano após a de White, sob a forma do Plano Marshall – um ato americano de uma extraordinária habilidade politica construído sobre a ideia de que a Grã-Bretanha não era de facto um rival do poder, como White o tinha imaginado, mas na realidade um aliado desesperado que era necessário ajudar face a uma crescente ameaça soviética.

Esta é a história da ascensão e queda do Plano de Harry White para uma nova ordem mundial e os vestígios dessa queda com que nos debatemos hoje.

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Nota

[1] Nota de Tradutor. Segundo Wikipedia: Lend-Lease (Direito Público 77-11) foi o programa através do qual os Estados Unidos forneceram, por empréstimo, ao Reino Unido, à União Soviética, China, França Livre e outras nações aliadas, armas e outros suprimentos, entre 1941 e 1945.


O autor: Benn Steil [1963-] é um economista e escritor americano. Foi educado no Nuffield College, Oxford e na Wharton School da Universidade Pennsylvania. Steil é o membro sénior e director de economia internacional no Council on Foreign Relations. É o fundador e editor da revista International Finance, tendo-lhe sido atribuído o Prémio da New-York Historical Society para o melhor livro sobre história americana, o Prémio do Livro Douglas Dillon da Academia Americana de Diplomacia, o Prémio do Livro Hayek, e o Prémio do Livro Spear em História Financeira.

 

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