CARTA DE BRAGA – “da banalidade do mal” por António Oliveira

O filósofo e linguista Noam Chomsky, denuncia num dos últimos ‘Philosophie Magazine’, a falsa promessa da inteligência artificial, que ele acusa de difundir e espalhar uma utilização sem norte, tanto da linguagem como do pensamento, susceptível de abrir caminho àquilo que Hannah Arendt, chamou ‘a banalidade do mal’. Chomsky sempre defendeu que, com a linguagem, o homem dispõe de uma competência única, a de criar e de compreender, graças a um número finito de regras e a um número infinito de proposições que lhe exprimem o pensamento. 

Mas deve notar-se, mesmo assim, que aquele mundo da comunicação descrito por Chomsky, tem sido ‘manipulado’ das mais diversas formas, uma das quais, talvez a mais comum, é a da confusão existente entre <<ser>> e um outro termo, aparentemente próximo, <<ter>>.

O sociólogo e filósofo alemão, Erich Fromm, afirma na sua obra ‘Ter ou Ser’, por cá editado em 1999, ‘Numa cultura em que o objectivo é o <<ter>>, e ter cada vez mais, como poderá existir uma alternativa entre <<ter>> e <<ser>>? Pelo contrário, pareceria normal que a própria essência do <<ser>> fosse <<ter>>: quem não <<tem>> nada, não <<é>> ninguém’. Esta orientação para o <<ter>> é característica da sociedade industrial, também assumida como ‘sociedade de mercado na qual a avidez por dinheiro, fama poder, se tornou a questão preponderante da vida’, acrescenta ainda Fromm. 

Convém ter em atenção que vivemos numa sociedade ‘desenhada’ para o consumo, fazendo da homogeneização uma religião, com os altares nas montras dos shopping’s, transformados assim em templos, em que ‘estar’ passou a ser uma referência, por também terem ‘capelas’ destinadas à ‘incorporação’ da comida, de recolhimento nas ‘preces’ do ‘milhões’ ou da ‘raspadinha’, a pedir ajuda para um futuro ansiado, porque lá, naqueles templos, também se ganham certezas inabaláveis. 

O que parece uma troca de maneira de ser por uma maneira de estar, tem atrás também o <<ter>>, devidamente potenciado pelo marketing e pela publicidade, servidos ambos por ‘sacerdotes’ e rituais devidamente testados, ajudados pelas redes sociais, especialistas no uso da imagem e do som, a ideologia por excelência, ‘porque expõem e manifestam na sua plenitude, a essência de qualquer sistema ideológico, o empobrecimento, a submissão e a negação da vida real. O espectáculo é materialmente a expressão da separação e do afastamento entre o homem e o homem’, afirma Guy Debord no livro ‘A sociedade do espectáculo’, editado por cá, já em 1972. 

A imagem não mente, nem diz a verdade, depende apenas da maneira como se olha ou como se foi ensinado a ver, e para isso estão os tais ‘sacerdotes’, os da normalização e banalização do presente e do politicamente correcto porque, diz também Debord num outro escrito, ‘mais vale ver aquilo que se quer, do que aspirar a quanto se ignora’, como vão afirmando os mesmos ‘sacerdotes’ ou animadores, em todas as sempre ruidosas manifestações, promovidas pelas ‘instituições’ onde exercem o seu múnus e lhes pagam muito bem. 

É que o medo do desconhecido cura-se com mais informação. Até hoje, o Dr. Google parecia ser a solução prática e imediata para qualquer complicação, mas agora os rituais foram enriquecidos pela inteligência artificial, apesar de ainda predominarem as ‘alucinações; mas quando tiver acesso a todas as estatísticas, bancos de dados pessoais e todas as intimidades que durante anos lhes fomos ‘entregando’ graciosamente, talvez <<ser>> e <<ter>> se passem a pronunciar mais simplesmente – <<ster>>.

Mas voltando a Fromm, não podemos deixar de meditar que tudo isto seja, talvez, consequência do marketing, ‘Porque se baseia na experiência do próprio indivíduo como mercadoria e porque o valor de cada um deixa de ser um valor objectivo para se tornar um valor de troca’.

E também há promoções?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

2 Comments

  1. Julgo que e apesar da Revolução Industrial (RI) ter sido impulsionada pelo Capitalismo ela não assume, necessariamente, os seus MALES.
    Julgo que falar de RI é levar sistematicamente a CIÊNCIA à PRODUÇÃO.
    Poderemos então questionar: andamos a inventar máquinas para qué? Para se “trabalhar” mais e “ganhar” menos? Isso é regra do Capitalismo…que julgo não ter nascido para ser ETERNO.

    1. A maioria dos “pagantes” dos caprichos dos senhores do capital também quer acreditar nas suas palavras, mas reescrevem-se livros, modificam-se imagens, utiliza-se a inteligência artificial sem normas e sem regras, usam-se “capatazes” devidamente treinados e não me parece que tudo isso seja para lhe negar a eternidade! Mais me parece que tel eternidade venha a ser ocupada pelo mal, seguindo a afirmação de Hannah Arendt! Tenho muita pena por pensar assim, reforçado mesmo por ver a desigualdade que campeia por esse mundo fora!
      Mas muito obrigado pelo seu comentário
      A.O.

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