CARLOS REIS – ELECTRODOMÉSTICOS SEM FIM

 

Estou numa onda imparável, não consigo sair à rua sem comprar um electrodoméstico novo!

(Bem vêem, nem sempre surgem aplicações novas para meter nos smarts, nos trackpads, tablets, androids ou aliens).

Procuro dominar-me, juro – mas não é fácil.

Para me acalmar comprei há dias um interessante aparelho, um oxiúro, uma coisa óptima. Traz-se no bolso ou até no porta-chaves (melhor no porta-chaves, é mais vistoso, faz a diferença) e serve para vermos a percentagem de oxigénio existente no sangue, mediante um simples botão.

Não é óptimo? Até dá para fazermos apostas – por exemplo, qual a percentagem de oxigénio do teu sangue neste momento, a comparar com o meu? Cada um arrisca um número (95%, ou 89%, 92%) e depois vai-se conferir.

Ainda por cima, o oxiúro, tal como a maior parte dos aparelhómetros digitais sem os quais é impossível viver, tem mais aplicações. Por exemplo, quanto tens agora de frequência cardíaca?

Nada mais fácil. Vai-se a ver e lá está: 68, 74, 82, etc. Alguns oxiúros até trazem consigo um bloquinho de apontamentos, um pequeno laptop, para escrevermos antecipadamente a nossa hipótese e assim conferir depois quem acertou ou ficou mais próximo. Mas trata-se de um extra e são um nadinha mais caros, claro.

É evidente que se estivermos a jogar à distância (o mais provável, já que não temos onde estar senão em casa, ou em certos empregos mais braçais) há que usar em simultâneo um bom smartphone, para o outro poder conferir os resultados.

Estão a sorrir? Estão-se a rir, seus antiquados? Não sabem que há até entusiastas destas ditas frivolidades que têm uma espécie de relógio, o mais digital possível, que os informam dos passinhos que deram em determinada manhã ou tarde e ao longo de um determinado espaço de tempo?

Vão às redes sociais, informem-se mazé! Seus provincianos, seus velhos do Restelo! Aposto que nem micro-ondas têm, seus velhadas, seus ancestrais do caneco!

Ah, é verdade, um pormenor, antes que me esqueça.

Enganei-me: não é oxiúro que se diz, é oxímetro. Estava a confundir helmintas com ascaris lumbricoides.

Carlos

Fevereiro de 2021

4 Comments

    1. Infelizmente já quase que não. Estão caríssimos e perderam qualidade, sobretudo aquela reconhecida capacidade comichosa de outros tempos.
      Apenas em alguns alfarrabistas se podem encontrar, em condições muito relativas de capacidade e funcionamento, alguns espécimes acessíveis.

      Carlos Reis

  1. Peço desculpa, mas um oxiúro é um verme parasitário – um nemátodo de cerca de 15 mm de comprimento – que tem o péssimo hábito de infestar os humanos intestinos, sobretudo os das crianças que tendem a levar as mãos á boca sem antes as terem lavado. Das duas uma: ou este oxiúro é um erro tipográfico, ou – caramba! – até os parasitas mais indesejáveis entraram nos circuitos do comércio e aprenderam a dar-nos indicações sobre os dados vitais em troca de uns mls de sangue.

    Pronto, agora reparo que devo aprender a manter-me caladinha até ao final dos textos. Já vi que foi um lapso. E, da minha parte, uma estúpida precipitação.
    Bom dia!

  2. Não tem importância.
    Conheci helmintas impossíveis de aturar, até mesmo com péssimo feitio, alguns deles. Com o tempo habituamo-nos, porquanto depois da longa noite do fascismo, os nemátodos tornaram-se cordatos, preenchem e partilham com à vontade lugares no Parlamento, exibem-se em inaugurações e vernissages, acompanhados por família e jornalistas prestáveis.

    Carlos Reis

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