Um tio meu, irmão de meu pai, que vivera na América, era uma pessoa rica e tinha um filho muito mais rico, milionário. O pai, regressado de vez, passou a viver em Vale de Cambra, numa casa antiga, muito linda, a Casa Pombal de Santiago. O filho vivia no Brasil, em S. Paulo. Era proprietário de grandes roças, entre elas de café, e havia recebido o título de Comendador. Foi ele quem mandou construir o edifício do Cinema da nossa terra, na altura uma das melhores casas de espectáculo do país. Hoje, de todo este passado pouco resta, apenas o Cinema, que deixou de o ser, e uma rua com o seu nome. Depois da morte, toda aquela fortuna se esfumou. O meu tio descansa num jazigo pequenino que pertencia à casa e os restos mortais do filho por lá ficaram nas lonjuras do Brasil. Como todos os pobres e todos os milionários, deixaram de o ser quando reduzidos a pó, sem distinção possível entre pó de terra e pó de ouro.
Deixemos de lado o triste fim de todos nós e passemos à história que vos quero contar. Todos os anos, o meu primo e família vinham passar férias a Portugal, à casa de Armental. Num desses verões, planearam dar um passeio de carro pela Europa. Possuíam cá um belo Chevrolet preto com motorista, marido da senhora que governava a vivenda onde viviam o ano inteiro. Mas foi um outro motorista, contratado, com carta internacional, quem nos conduziu.
Apesar de muito ricos, estes meus familiares eram, no dia-a-dia, pessoas estimadas, sóbrias e generosas. Tinha eu dezoito anos, quando fui convidada para os acompanhar nesse passeio pela Europa. Foi uma viagem inesquecível que durou cerca de dois meses, não só pela longa distância, mas também porque não havia autoestradas. Visitámos as mais lindas cidades, incluindo Madrid, Paris, Nice, Florença, Veneza, Roma e toda a bela Suíça, entre tantas outras maravilhas. Frequentámos os mais caros hotéis de então, como o Negresco em Nice e o George V em Paris. Com os meus verdes dezoito fiz todos os percursos diurnos e nocturnos programados por essas cidades fora, com todo o requinte reservado a gente rica. Uma viagem de sonho, um conto de fadas, que ainda hoje perdura na minha memória até ao mais pequeno pormenor. Só não me levaram, como é óbvio, ao espectáculo do Moulin Rouge.
Nessa noite, fiquei no hotel e até me soube bem. Já um pouco saudosa da minha vivência aldeã e cansada, não da viagem, porque sempre adorei viajar, mas do luxo e de todas as mordomias que o dinheiro paga, decidi divertir-me, um tanto infantilmente, à minha conta. Nessa época, era hábito os hóspedes deixarem os sapatos à porta do quarto, a fim de serem limpos e engraxados à noite, e ali serem colocados de novo ao princípio da manhã. À socapa, sem ninguém ver, troquei os sapatos todos, não só os sapatos dos diferentes quartos, mas também os de homem pelos de senhora. Uma maldadezinha cuja gravidade nunca considerei suficiente para me arrepender, pois foi uma rica forma de me rir quando entrei de novo no meu quarto e dei uma olhadela à cómica coreografia do corredor. De manhã, a algazarra era tanta e em diferentes línguas, que fazia lembrar a Torre de Babel. Foi então que ainda mais me ri, ao lembrar-me, ali no meio da Europa, de uma pequena história da minha aldeia. O ti Manel ia para a missa, quando uma criança lhe disse que ele levava os sapatos trocados, ao que ele respondeu: É verdade! E logo os dois!


