O antes, o antes é agora o meu tempo e o de todos os que nasceram durante o regime de ditadura e continuam a celebrar a Liberdade. Os valores, pelos quais ainda lutam e quiseram transmitir aos seus filhos, são os da Declaração dos Direitos Humanos.
A juventude de ontem e, como sempre acontece, indigna-se porque os jovens de hoje não dão valor aos partidos políticos, não lhes interessa, não acreditam neles e, por vezes, dizem que os políticos são todos iguais, o que querem é ser poder, arranjar um bom emprego…
A geração anterior pensa sempre que os mais novos não querem saber das grandes causas pelas quais lutaram, e que levaram tanta gente para as prisões, para a tortura, para a morte, para a clandestinidade. Que induziram muitos jovens a ler e a estudar, em pequenos grupos, as diversas ideologias que eram reprimidas pela ditadura salazarista e porque sabiam que a polícia política espreitava em cada esquina, em cada faculdade. Surgiram vários grupos clandestinos adeptos de vários países como a China e a então União Soviética.
Antes era a falta de Liberdade da expressão do pensamento, não havia machado que cortasse a raiz ao pensamento, cantava clandestinamente Adriano Correia de Oliveira. Os livros de índole política, os discos de canções revolucionárias eram retirados do mercado.
Antes deste nosso 25 de Abril as filhas e os filhos queriam sair de casa, alugar um andar partilhado com alguém. Era complicado para os pais perceber que os seus filhos quisessem a sua liberdade, muitos dos filhos e das filhas não queriam seguir a tradição familiar de perpetuar o prestígio da profissão, ou seja, não queriam tirar o mesmo curso que o pai, ou o avô tinham tirado. A profissão dos elementos masculinos na família é que determinava o futuro profissional dos mais novos. Isto nas classes sociais mais favorecidas que tinham poder e dinheiro para terem os filhos e filhas a estudar nas faculdades.
Nas famílias da classe média um curso superior era o que mais as seduzia. Serem tratados por Senhor Doutor significava que também poderiam ter poder.
Muitas mulheres ficavam em casa nos ditos trabalhos domésticos, sempre dependentes dos homens que tinham a obrigação de sustentar a família.
Para os outros eram os cursos médios, ou o trabalho com salários baixos que não permitiam a ascensão social.
A maior parte dos jovens não tinha capacidade financeira para frequentar a Faculdade e ficava pelos cursos médios, cursos que não tinham o reconhecimento público, ou não tirava nenhum curso e trabalhava no que havia disponível. A melhor avaliação que podiam receber era o elogio de serem trabalhadores, humildes e honestos.
Antes os patrões, para que a família se conservasse unida e não tivesse problemas de transporte para o trabalho, construíam bairros para os seus trabalhadores. Eram as conhecidas “Vilas” em Lisboa.
Os vencimentos eram o mínimo necessário para os trabalhadores e as trabalhadoras sobreviverem para trabalhar nos dias seguintes, os vencimentos eram o mínimo necessário para sustentarem a família. Eles, os homens, eram os chefes de família. Eram agressivos em casa, chegavam alcoolizados vindos muitas vezes dos braços das amantes ou da tasca onde passavam horas a beber cerveja ou vinho. Tudo era consentido pela maior parte dos portugueses e das portuguesas. Para além da censura social, as mulheres choravam baixinho, com medo e vergonha.
Antes já era assim…e era assim que deveria ser.
As professoras ganhavam o suficiente para os seus caprichos, os enfermeiros eram os profissionais que faziam o que os médicos mandavam.
Antes, como hoje, tínhamos cientistas cujo mérito era e é reconhecido internacionalmente na área da investigação, da saúde, da educação, da ciência, das artes.
Antes, quando eu frequentava o liceu, uma professora de Ciências perguntou qual a profissão que gostaríamos de ter, quando uma menina levantou o braço e disse que gostaria de ser cientista. A professora respondeu que tirasse isso da cabeça porque as mulheres não podiam ser cientistas porque eram mulheres.
A crise que estamos a viver hoje será o antes das novas gerações que por viverem em Democracia não têm que lutar pela expressão do pensamento, pela Liberdade, mas por questões ecológicas e tecnológicas.
Mas as Democracias também são regimes frágeis que ainda não conseguiram proporcionar às cidadãs e aos cidadãos uma vida de bom viver.
Antes e hoje as sociedades têm que ter um sentimento de pertença que as leve a lutar por uma habitação digna para todos, por uma alimentação saudável, por uma Educação que capacite todos os jovens e todas as crianças a viverem em Liberdade, por um Ensino baseado nos Direitos Humanos e no direito à aprendizagem para todos, mesmo para aqueles que têm dificuldades, para os que falam português ou para aqueles cujo a Língua Portuguesa é a sua segunda Língua, para Todos os que são diferentes.
Cada criança ou jovem é diferente, tem a sua especificidade que é preciso respeitar e aprender com ela.
As sociedades Democráticas, como a nossa, têm que aprender que a diversidade cultural é cada vez mais visível. A sociedade de acolhimento tem o dever de tudo fazer para os que escolhem viver em Portugal, têm que criar conexões com vista a novas atitudes perante os diferentes quebrando os muros do racismo.

