CARTA DE BRAGA – “da medicina, da humildade e da compaixão” por António Oliveira

Apanhei esta ‘sentença’ num jornal diário há já uns tempos, mas aqui a deixo tal como a copiei: ‘Vivemos numa sociedade medicalizada, e o nosso sistema está mais centrado na solução farmacológica, que em melhorar a qualidade de vida das pessoas. Para ganhar tempo, durante os segundos que o paciente demora a entrar e sentar, já perguntámos o motivo da consulta e temos a solução que lhe iremos propor’. 

Talvez uma sentença de um daqueles médicos de família que a maioria teria e terá de consultar, por não ter dinheiro para um médico particular, nem para as muitas horas que passariam num hospital público, mesmo antes das diversas ‘pandemias’ que por aí andam, ou das crises que atrapalham o Serviço Nacional de Saúde.

Agora, com os médicos empenhados em todos estes combates difíceis, há e havia gente que não queria ou não consegue sair de casa por ter medo de o fazer, por isto e por mais outras e variadas coisas. Além disso, até sabe que o médico também não deverá ter tempo para a ‘ouvir’, ralado com o ambiente que se respira em todo o lado e muito mais lá, num qualquer centro de saúde. 

Para os crentes, haverá sempre o recurso à fé, mas com regras, pois mesmo nessa área, existem normas de comportamento e decoro. Veja-se a Opus aqui ao lado que, em plena crise do ‘coronavirus’, aumentou a oferta de celebrações pela net, mas pediu aos seus seguidores para não usarem pijama sempre e quando assistirem às celebrações!

Petrarca, o grande poeta italiano, já garantia no século XIV, ‘a cidade é gregária, conformista e mansa, tem o juízo nos calcanhares e sente fascínio pelo fulgor das aparências, nunca pelo da verdade’. 

E Cesare Pavese, poeta e escritor, também italiano, mas do século XX, escreveu no seu diário, ‘Viver é um ofício e ninguém o ensina. Quem tem convicções deve viver com elas, pois se as traímos, o que nos resta? Encostarmo-nos ao cepticismo e ao pessimismo? Uma atitude que só beneficia os que vivem para si e não para os demais’.

A propósito de todas estas coisas, recorro ao escrito de uma amiga que, há já uns tempos, deixou no seu blog esta consideração: ‘Deus não tem moral, é um milagre neutro, subentendido, desenhou as coisas com espanto e defeito, acertos e desacertos, leis matemáticas. Ignora as noções de bem e de mal. Não estalará os dedos contra ou a favor de ninguém, mas sempre e só para preservar intacta, a magnífica totalidade da sua criação’. 

O escritor Amin Malouf, reforça de algum modo estas palavras, quando analisa a linguagem da maioria dos mandatários deste mundo, ao afirmar ‘Olho os líderes no mundo e inquieto-me. Foi nos Estados Unidos, foi no Brasil, na Inglaterra mais o seu brexit, Índia, Rússia, Hungria, Turquia e muitos mais… O mundo vai mal e acabará por sair deste período de turbulências, mas levará tempo, esforço e sofrimento’. 

Mas na turbulência destes tempos, aparentemente sem controlo, onde a solução armamentística ou a farmacológica parecem ser os principais factores a ter em consideração, não nos podemos esquecer que cada paciente, cada pessoa a precisar ou a pedir assistência médica, é um ‘mundo’ diferente, entre todos os demais. 

A salientar que nem tudo está assim tão mal, transcrevo o que encontrei num jornal, um tweet de um médico ao acabar o seu período de consultas, no final de um dia de trabalho intenso, ‘Acabei as consultas quase a chorar: um paciente com transtorno mental, percebe que os seus pais se fazem velhos e pode vir a perdê-los. Mete os relógios no congelador, ou então atrasa-os para parar o tempo’.

O tweet e reacção que originou, demonstram bem ‘Para ter sabedoria, precisamos não apenas de uma análise puramente racional, mas também da inteligência emocional, empatia, sentido de humildade e compaixão’, como afirmou um dia, a escritora Elif Shafak, autora da ‘Era da Angústia’.

Precisamos… quem? 

Dizia Gustave Flaubert, o autor de ‘Madame Bovary’, ‘Ser estúpido, egoísta e ter boa saúde, eis as condições ideais para se ser feliz. Mas se a primeira vos falta, tudo está perdido’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

 

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