Espuma dos dias — “A morte de Nahel foi a faísca que desatou o fogo”: as razões da cólera, por Mediapart

Seleção e tradução de Francisco Tavares

10 min de leitura

“A morte de Nahel foi a faísca que desatou o fogo”: as razões da cólera

Perante os tumultos que abalam a França, autarcas, líderes comunitários e activistas de bairros populares de todo o país partilham a mesma constatação: os serviços públicos falham cada vez mais com os habitantes, a polícia é demasiadas vezes vista como hostil e racista e faltam soluções.

Por redação de  em 29 de Junho de 2023 (original aqui)

 

 

Cenas dignas de um filme onde “já não há regras, nem leis“, um supermercado saqueado, uma esquadra de polícia atacada à meia-noite por cerca de cinquenta revoltosos, carros incendiados, jovens à solta numa terra de ninguém da polícia… A noite de quarta-feira 28 para quinta-feira 29 de junho, em Trappes (Yvelines), vivida – e contada – por Ali Rabeh, presidente da Câmara Municipal (Génération-s), foi terrível.

E, no final, saímos bastante bem, porque nenhum equipamento público municipal foi atacado“, suspira o autarca. Recordará durante muito tempo o olhar “determinado” destes jovens encapuzados, humilhados diariamente pela polícia e agora cheios de raiva. Lembrar-se-á também dos habitantes, traumatizados pelo assassinato de Nahel por um polícia, a 27 de junho, em Nanterre, e “fartos” de verem os tiros de morteiro de artifício a chover nas suas janelas.

No outro extremo dos subúrbios parisienses, em Seine-Saint-Denis, a Île-Saint-Denis também não foi poupada: a sua câmara municipal foi incendiada na mesma noite. “Desde então, tem sido uma crise atrás da outra“, diz Marie Anquez, primeira vice-presidente da câmara da cidade. Os primeiros confrontos começaram pouco depois da meia-noite, quando os eleitos se encontravam na câmara municipal. Foram incendiados caixotes do lixo na ponte que liga a cidade (situada numa ilha do Sena) a Saint-Denis, foram lançados foguetes e disparados morteiros. “Um habitante gritou com os jovens, depois a polícia chegou e a situação acalmou”.

                    Fotomontagem Mediapart com AFP e Abaca

 

Três horas mais tarde, a Câmara Municipal incendiou-se. A polícia encontrou garrafas de azoto no local nessa manhã. “Todo o rés do chão ardeu, incluindo todo o nosso serviço público: o serviço de nascimentos e óbitos, as colónias de férias… É a vida local de cada habitante que se esfumou, e isso é muito marcante“, afirma a conselheira.

Cautelosa quanto aos motivos dos incendiários, Marie Anquez descreve tanto a manifestação de apoio dos habitantes após o incêndio como a sua revolta, “com toda a razão“, pela morte do jovem de Nanterre. “As pessoas aqui partilham essa dor. Não são só os jovens que perderam, são todos os que estão preocupados com um sistema que correu mal! Em L’Île-Saint-Denis, estamos a lutar contra o Estado depois de o conselho municipal ter adotado uma resolução contra a violência policial, e também levámos o Estado a tribunal por violação da igualdade territorial em termos de serviços públicos”.

Em Seine-Saint-Denis, cerca de vinte cidades viveram uma noite de agitação. “Houve muita violência, danos em equipamentos públicos, autocarros incendiados e lojas saqueadas“, afirmou o presidente do conselho departamental, o socialista Stéphane Troussel, que descreveu “cenas de guerrilha urbana, com pequenos grupos muito móveis“. “Começou mais rápido e mais forte do que em 2005“, quando os motins urbanos varreram os bairros populares franceses, levando à declaração do estado de emergência depois de dois adolescentes, Zyed Benna e Bouna Traoré, terem sido electrocutados durante uma perseguição policial em Clichy-sous-Bois.

Em Romainville, a Câmara Municipal foi “saqueada entre as duas e as três da manhã e as janelas foram partidas“, declarou Flavien Kaid, chefe de gabinete do presidente da Câmara François Dechy, à saída de uma reunião de crise. No interior, encontravam-se “o presidente da câmara, alguns deputados, o diretor-geral dos serviços e a polícia municipal“. Em Bagnolet, foi a esquadra de polícia – na realidade, apenas um anexo da esquadra de Lilas – que foi parcialmente incendiada. De acordo com uma fonte local, as duas companhias do CRS mobilizadas para todo o Seine-Saint-Denis ficaram rapidamente assoberbadas em Bobigny, a prefeitura do departamento.

Mas este departamento emblemático está longe de ser o único a ser afetado pela violência. “O que é particular, desta vez, é que os bairros de baixa tensão entraram em ação, como em Sceaux e Clamart [Hauts-de-Seine] ou Nandy [Seine-et-Marne]“, constata Philippe Rio, o autarca comunista de Grigny (Essone), preocupado com este contágio não habitual.

 

Territórios negligenciados

Porque é que os edifícios públicos estão a ser atacados desta forma? Como é que os líderes locais interpretam a violência nas suas comunidades? Para Flavien Kaid, os autores desta violência querem “atrair a polícia e provocar um confronto“: “Estão à procura de vingança“. O responsável autárquico culpa as “decisões políticas nacionais“, frente às quais “nos encontramos na linha da frente quando tentamos fazer algo para as contrariar“. “A morte de Nahel é a última gota“, afirma.

Em Tourcoing (Nord), Sourida Delaval-Hammoudi, directora da AAPI, uma associação que organiza eventos de bairro e ajuda as pessoas a entrar no mercado de trabalho, utiliza praticamente a mesma palavra: “Há muito tempo que avisávamos que as coisas iam explodir e Nahel foi a faísca“.

Aqui, temos reivindicações locais“, sublinha. Mas a lista que elabora é, de facto, uma longa lista de áreas que se sentem negligenciadas: “A falta de equipamentos, a falta de emprego, o sentimento de não ser reconhecido como cidadão. E depois, há todos os controlos impostos aos jovens, as sanções da polícia que um trabalho não é suficiente para compensar…“.

Patrick Chaimovitch, o presidente da câmara ecologista de Colombes (Hauts-de-Seine), passou parte da noite e depois toda a manhã a percorrer a sua cidade para compreender e medir a extensão dos estragos. Está visivelmente cansado e comoveu-se. O seu município foi gravemente afetado pelos acontecimentos desta noite. Ele descreve uma escalada de violência após os primeiros confrontos de quarta-feira à noite. “Vimos muitos jovens, muito jovens, entre os 14 e os 17 anos, alguns deles um pouco embriagados, a queimar tudo aquilo a que podiam deitar a mão. E havia muitas pilhagens, por isso tivemos dificuldade em acompanhar o que se passava”.

Os acontecimentos, “excepcionais” pela sua intensidade nesta comuna operária, têm claramente Nanterre “como detonador“, afirma. “Mas há meses que nos chegam sinais muito maus, uma tensão no ar, devido a uma situação material cada vez mais degradada”. Precariedade, más condições de alojamento, “a vida é cada vez mais difícil“, explica o autarca. O Estado está “presente“, reconhece, mas seriam necessários “milhares de milhões” para resolver a situação numa cidade como Colombes.

Em Grigny, o presidente da Câmara, Philippe Rio, teme os dias que se avizinham, tanto mais que partilha o mesmo balanço: “Estamos todos muito mobilizados, voltámos a 2005. Mas, desde 2005, as coisas pioraram: surgiram as redes sociais, as pessoas empobreceram, a relação com o Estado deteriorou-se… Sem contar que, com o aumento dos encargos em Grande Borne este ano, as pessoas vão ter de pagar um décimo terceiro mês de renda, que não podem suportar“. Na comuna, metade da população vive abaixo do limiar da pobreza.

Escritor, realizador e conhecedor dos bairros populares onde vive e trabalha, Mehdi Lallaoui conta que, na sua cidade natal, Argenteuil, muitas famílias tentam moderar os jovens mais beligerantes. “Dizem-nos que o que se passa é uma autodefesa, porque não têm direito aos meios de comunicação social, não têm direito a representação política, não têm direito a ser ouvidos, não têm direito a ser respeitados. Explicamos-lhes que o que estão a queimar é nosso, que as pessoas no poder estão seguras nos seus bons bairros e escolas públicas. Mas eles têm dificuldade em ouvir”.

Mehdi Lallaoui reconhece o carácter “insuportável” da repetição dos acontecimentos que afectam os jovens dos subúrbios. “Uma morte, uma morte mais“, insiste. “Vejo os jovens a descarregarem em si próprios. É como uma auto-mutilação“, acrescenta Nourdine Bara, autor de romances e peças de teatro. Residente no bairro operário de La Paillade, no norte de Montpellier, há quinze anos que organiza ágoras e manifestações para favorecer o intercâmbio cultural. O Mediapart assistiu a um dos seus encontros literários numa padaria local.

O artista desenvolve uma ideia paradoxal: “Há uma ideia crescente de que estes jovens são niilistas, desligados de qualquer visão da sociedade. Mas o que eu vejo no caos e na fúria é precisamente a expressão de uma rejeição contra-intuitiva da violência. Através desta violência, os jovens estão a rejeitar o tipo de violência mais devastador: a do desprezo e da indiferença“.

Ele insiste: “O que nos falta são precedentes que nos lembrem que a justiça funciona no nosso país“, no que diz respeito à violência policial. Mehdi Lallaoui diz o mesmo. “Estes crimes já se verificam há quarenta anos e as penas aplicadas a quem os comete continuam a ser inferiores às que deveriam ser“. Cita a história de Foued, detido injustamente no processo Viry-Châtillon, e a quem o Estado está a regatear uma indemnização. “Tudo isto é conhecido, é discutido nos bairros, as pessoas estão indignadas com o que consideram ser uma sociedade a dois níveis”.

 

Repensar a política da cidade

Nos arredores de Lyon, a noite também foi dura. Houve incêndios e danos em Vénissieux, Villeurbanne, Décines e Vaulx-en-Velin – o epicentro dos motins urbanos de 1990. Em Décines, a câmara municipal também foi gravemente danificada pelo fogo. Em Villeurbanne, “o incidente mais grave foi um incêndio num apartamento da rue Balzac, provocado por um ataque de morteiro de artifício“, relata o presidente da Câmara, Cédric Van Styvendael.

Tivemos de realojar doze famílias com urgência. Graças à solidariedade dos habitantes, que ajudaram nomeadamente a evacuar uma pessoa deficiente, evitou-se uma tragédia“, confessa o autarca aliviado. Aqui todos se lembram do incêndio que custou a vida a dez pessoas, incluindo quatro crianças, em Vaulx-en-Velin, em Dezembro.

Para Renaud Payre, vice-presidente da área metropolitana de Lyon, responsável pela política urbana, “a violência que se exprime hoje é o resultado de um enfraquecimento dos organismos intermediários nos bairros, como as organizações de voluntariado e os centros sociais, que foram extremamente enfraquecidos nos últimos anos“.

Para ele, estes acontecimentos deveriam levar o governo a acelerar os seus esforços de reformulação da política urbana: “Já perdemos muito tempo“, diz, “e digamo-lo com toda a frontalidade: a política urbana não vai ser só segurança. Isso é uma resposta de muito curto prazo”.

Como muitos autarcas, está incomodado com o atraso na assinatura dos “contratos de cidade” com o Estado, que deveriam permitir a distribuição dos recursos financeiros, mas que só entrarão em vigor em 2024. “Nos nossos bairros prioritários, a pobreza é 3,3 vezes superior à média metropolitana. Sabemos onde temos de atuar: onde o direito comum não se aplica”.

Uma moradora de Saint-Fons, nos arredores de Vénissieux, e ativista comunitária no bairro de Clochettes, lamenta também o desaparecimento dos assistentes sociais e dos mediadores que costumavam patrulhar a zona. “Já não os vemos e os jovens são deixados à sua sorte. Não compreendo que queimem os carros dos pobres e muitos deles também não têm seguro”.

Ela conta a noite agitada no seu bairro – tiro de morteiro de artifício, alguns fogos de contentores, barulho até às três da manhã – e a sua preocupação. “Tranquei a porta, tomei conta dos meus filhos e não pus os pés cá fora. Tenho demasiado medo que lhes aconteça alguma coisa, que estejam no sítio errado à hora errada, que um posto de controlo corra mal… Já é suficientemente mau que a polícia esteja contra os nossos filhos em circunstâncias normais”.

 

A polícia é acusada por todos

De facto, todos os eleitos e militantes comunitários contactados pelo Mediapart condenam uma “doutrina policial que se esgotou e que tem de ser revista, sob pena de se cometer um caso de omissão de socorro a uma pessoa em perigo“, nas palavras de Philippe Rio, presidente da Câmara de Grigny. “Estamos a chegar ao fim de um ciclo iniciado por Sarkozy e a sua mentira sobre a depuração, que terminou com a perda de 10.000 postos de polícia e o desmantelamento dos serviços de informação“, afirma.

Segundo Hamza Aarab, de Montpellier, os jovens “arrastam-se há anos“, a começar pela sua relação conflituosa com a polícia. “Os seus controlos, a forma como se comportam. O seu sentimento de impunidade…“, afirma. “Se não tivéssemos as imagens [do caso de Nahel], teríamos dito: ‘É um bandido que foi contra a polícia’“.

No departamento de Seine-Saint-Denis, Stéphane Troussel recorda “os quinze anos de deterioração das relações com a polícia, de familiaridade, de discriminação racial e, de um modo geral, de um discurso de extrema-direita“. Perante esta tendência, “não podemos continuar assim“, afirma o político: “A República Francesa é, antes de mais, um serviço público e este nível de ressentimento em relação à polícia é insustentável“.

Cédric Van Styvendael, presidente da Câmara Municipal de Villeurbanne, acrescenta: “Quando a calma voltar, é evidente que não poderemos prescindir de um trabalho estreito sobre as relações entre a polícia e a população. O comissário de polícia de Villeurbanne experimentou diferentes formas de lidar com os habitantes locais, e isso é algo em que temos de trabalhar”.

Ali Rabeh, em Trappes, tem uma opinião semelhante. Há dez anos, a sua esquadra de polícia completa foi substituída por uma simples subestação, cronicamente com falta de pessoal. Atualmente, o presidente da câmara diz-se muito pessimista quanto ao futuro. Mudar a polícia? “É mais fácil gastar milhões na renovação urbana, torcer os braços dos presidentes de câmara para que construam habitações sociais, pedir aos prefeitos que concedam licenças de construção… Serão precisos vinte anos para reconstruir uma polícia republicana“, afirma.

De Marselha, que o Presidente da República acabou de visitar recentemente, Mohamed Bensaada, ativista do LFI nos bairros populares da cidade, também considera que “esta questão da relação entre a população e a polícia está a tornar-se muito preocupante“. “E a forma como Macron veio fazer a sua visita aqui, fingindo acreditar que podíamos combater a droga com terminais de cartões de crédito, é risível“, denuncia.

Na sua cidade natal, as pessoas olham para os acontecimentos de ontem à noite com “tristeza”, mas sem que a revolta se espalhe. Tal como em 2005. E porquê? Atreve-se a dar um sinal de positivo, sublinhando que o denso tecido associativo, que faz um grande trabalho de base nos bairros do Norte, está a funcionar.

Outros estão muito menos optimistas. “Aqui, há muito tempo que não sabemos o que fazer, isto está para lá da compreensão” lamenta Salim Gramsi, dirigente da associação Le Sel de la vie, que reúne as associações que trabalharam no caso da aventura da requisição do McDonald’s de Saint-Barthélemy, no 14º bairro da cidade. “As mortes de crianças a tiro nos bairros, independentemente das circunstâncias, tornaram-se dramaticamente banais“, sublinha.

Gostaríamos de ver a mesma reação quando os nossos jovens morrem. Mas ninguém defende Marselha, enquanto que aqui as mães são como a mãe de Nahel, sofrem o martírio“, afirma Salim Gramsi. Desconfia da “competição das vítimas“, mas constata uma forma de “fatalismo e de resignação” entre as pessoas que o rodeiam: “Por vezes, temos cinco ou seis mortes de uma só vez, crianças que, por vezes, estavam apenas a dar um passeio, e não acontece nada”.

 

 

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