Portugal é um país racista?
Exclui os diferentes grupos culturais que aqui chegam à procura de trabalho, de segurança, de uma vida melhor?
Haverá só um tipo de racismo? É preto, indiano, brasileiro, português cigano, mulher, homossexual, criança, pobre?
Ora, é com certa apreensão que oiço e leio a palavra racismo, que certos antropólogos e historiadores quiseram banir do vocabulário social porque raça pressupõe que cada grupo de comunidades tivesse as suas próprias características biológicas que não existiriam noutros grupos.
À medida que as comunidades se foram dadas a conhecer através da mobilidade, da colonização, dos descobrimentos de outras terras, de pessoas diferentes na cor da pele, na linguagem, no comportamento, nas religiões, a comunidade mais representada, neste caso a população branca com poder, começou a sentir a necessidade de por ordem nestas diferenças para que os outros se sentissem desvalorizados e por isso submissos.
A palavra raça tinha sido posta em causa porque por baixo da pele de cada um há um organismo que trabalha da mesma maneira, por trás das palavras há um aparelho fonador, nas atitudes há raiva, medo, amor, amizade, protecção… as crianças são educadas conforme as suas culturas de discriminação ou de inclusão, de belicismo ou de paz, de choro ou de riso…
Tudo isto tinham aqueles diferentes, ou seja, concluía-se que não existiam raças, mas grupos étnicos, que como toda a Humanidade, a sua existência pertence a um triângulo harmonioso entre a humanidade, a natureza e a sociedade.
A aceitação da diversidade cultural poderá ter o efeito perverso de nos (os brancos) considerarmos culturalmente superiores e usarmos a força para que os outros se adaptem a novas realidades?
Ou terá o efeito do reconhecimento positivo de nos tornarmos menos etnocêntricos e todos abrirmos as portas para que a coesão social se torne uma realidade de bem-viver?
Será que as leis da economia, das dívidas públicas, dos lucros dos mais ricos deixam os indivíduos organizarem-se como iguais, com os mesmos direitos e responsabilidades?
Sabemos que a desigualdade e a diferença fazem com que uma sociedade maioritária reconheça a outra, minoritária, como inferior. Quando estes dois princípios se entrecruzam surge a exclusão e o “racismo” ou o reconhecimento positivo da inclusão.
O racismo e a exclusão não se desenvolvem contra os que são culturalmente diferentes da maioria, mas sim contra aqueles que tentam penetrar numa outra sociedade e numa outra cultura.
As sociedades vivem com as semelhanças e com as diferenças, mas de que forma? Através da representação social dos diferentes grupos culturais:
Porque não existem portugueses ciganos como locutores de televisão, porque não aparecem médicos, médicas, enfermeiros, enfermeiras, todo o pessoal que trabalha num hospital a falar dos problemas que atravessam?
Porque não se veem professores de outras etnias?
Alguns meios de comunicação social contribuíram muito para a invisibilidade de outras etnias que se tinham incluído na sociedade maioritária. É com agrado que se vê, agora, o rosto dessas etnias, que tal como a comunidade maioritária, têm todo o interesse em processos endógenos de mudança global das sociedades e dos indivíduos.
Não caíram no esquecimento as notícias de rixas entre brancos e pretos que não dissessem “um homem cabo-verdiano esfaqueou o Manuel…”
A diversidade cultural dinamiza o desenvolvimento através da pressão que exerce, favorecendo a mudança, dando origem a novos conceitos, a novas formas da sociedade se organizar.
Portugal é um país racista?
Com que representações sociais vivem os decisores políticos?
Com que representações sociais são educadas as crianças relativamente ao outro?
Como se formam essas representações?
Como é possível haver racismo e discriminação numa sociedade democrática?
Não nos podemos iludir e pensar que não há racismos, os explícitos (o que vemos nas reportagens televisivas em que são mostradas imagens de violência entre brancos e pessoas de outras etnias), e os racismos subtis nas instituições, locais de trabalho e de procura de trabalho.
Discretamente continua-se a falar em racismo, como se existissem raças, fala-se em discriminação como se a maioria fosse superior e as pessoas de outras etnias não pudessem fazer os mesmos trabalhos, no mesmo pé de igualdade salarial e condições de trabalho.
Dando um salto no tempo em investigações chega-se à conclusão que as crianças, entre os 4 e 5 anos de idade, interiorizam o reconhecimento negativo de pessoas de outras etnias, veiculado no contexto social em que vivem, contribuindo para as consequências na construção das identidades pessoais e nas identidades coletivas.
O racismo é um preconceito construído com base no autoritarismo, e em certos países em normas sociais.
O racismo é exercido pelos poderosos, por certa comunicação social, pela Escola e ainda pelas instituições; pela construção de bairros sociais, pela assistência social, pelo tipo de empregos que são disponibilizados.
Não há falta de pedidos nas montras de lojas, nos cafés e em restaurantes a pedir colaboradores. Eles aparecem, mas são selecionadas as pessoas pretas para as cozinhas, as brasileiras para servir à mesa, os portugueses ciganos nem aparecem.
Será porque os brancos portugueses não querem esses trabalhos? Ou será porque os patrões pagam salários mais baixos a quem não é branco e, por isso, por essa inferioridade social, por essa identidade subvalorizada, pela pouca escolaridade podem ser mais facilmente explorados “ não gostas, vai para a tua terra”.
A questão de se saber se Portugal é ou não um país racista carece de muita investigação por fazer, de muitas mudanças na Escola, na Família, nos cidadãos e cidadãs anónimos, na gestão das empresas, na comunicação social, na cultura, na maneira como se reflete sobre o racismo e o anti racismo. Não são, certamente, os fazedores de opinião e os políticos que muitas vezes se atacam pessoalmente e não são capazes de um diálogo esclarecedor com vista a fazer refletir quem os ouve.
Portugal é um país racista?
Eis um tema complexo em que não existe consenso, mas em que existem factos.

