NÃO SEI SE O MELRO CANTOU…, por EVA CRUZ

 

A nossa mãe ficou viúva muito nova e tomou conta do comando da casa. Zelosa e determinada, tinha tudo num primor, como ela dizia. Na nossa pequena quinta, trabalhavam quase sempre dois homens. Só não faziam as podas e as vindimas, as quais eram tradicionalmente realizadas desde os nossos tempos de criança, por vizinhos e amigos, que a tal se dedicavam com agrado e amizade. Eram dias de festa, rematados por uma ceia farta de comida onde não faltavam a deliciosa aletria da nossa mãe, o champanhe e aquele bolo que ficou na nossa memória de crianças.

De tudo havia no nosso quintal, desde vinha, milho e uma grande variedade de árvores de fruto, a todas as culturas tradicionais e muitas outras novidades. Pepinos, pimentos, abóboras, umas abóboras estreitas e longas chamadas calombros que pendiam das ramadas, meloas, melões, melancias e mesmo algumas raridades como rabanetes e malaguetas, que por lá nasciam e cresciam, ordenadas pelas habilidosas mãos do nosso pai que não gostava de trabalhos duros.  Adorava fazer pequenas podas, sendo hábil em enxertos, enxertos de encosto, de garfo, de borbulha, de alporque, conseguindo resultados que a todos deixavam de boca aberta, como criar cachos de uvas brancas e tintas na mesma videira.

Os dois homens que lá continuaram a trabalhar depois da morte do nosso pai eram uns senhores. O Sr. Albino e o Sr. João, extremamente prestáveis e amáveis, faziam o seu precioso trabalho mais por gosto e amizade do que por necessidade. Eram duas pessoas que nos estimavam muito, sendo por nós tão queridos que ainda hoje os recordamos como saudosa família. Aliás, todas as nossas relações com quem trabalhou ou ainda trabalha nesse precioso recanto da nossa vida, sempre foram tecidas pela mútua dedicação, delicadeza e afeição.

O Sr. Albino e o Sr. João eram dois homens altos e bem-parecidos, mas o Sr. Albino era uma estampa, um autêntico actor de cinema. Eu, que sempre amei a beleza, adorava ver a elegância daquele corpo muito direito, de enxada ao ombro, e o seu bonito rosto sempre envolvido num sorriso de paz e bonomia. De uma educação esmerada, cumprimentava sempre com afabilidade, ou melhor, dava a salvação, como se diz na nossa aldeia, tirando o chapéu ou, com o mesmo gesto, levando a mão à cabeça quando o não tinha. Eram ambos de uma admirável sabedoria aldeã, sempre bem-dispostos, encarando as adversidades com uma serenidade e resignação invulgares. Recordo como se fosse hoje o dia em que o meu irmão levou o Sr. Albino para o Hospital de Santo António a fim de lhe ser implantado um pacemaker. Ao vê-lo de malita na mão com o sorriso mais plácido do mundo, perguntei como se sentia, ao que ele respondeu dizendo que era como se fosse para um hotel.

Ficaram os dois viúvos e sós.

A casa do Sr. Albino, perto das Alminhas do Aido-de-Baixo, tinha uma varanda de madeira, onde vivia um melro dentro de uma gaiola, a sua companhia. O Sr. Albino deitava-se com o pôr-do-sol e levantava-se com o nascer do sol, fosse Verão ou Inverno, e o melro era o seu despertador. Cantava as vésperas e as laudes, anunciando o cair da noite e o nascer do dia, assim marcando o compasso do adormecer e do acordar do seu dono.

Lembro-me de o visitar, já acamado, mantendo o mesmo sorriso de sempre, sem o menor queixume. Apontava para a gaiola, pendurada na varandinha de pau, perto do seu quarto, e referia-se ao melro cantador como o seu patrão, o qual, com as suas bem timbradas melodias matinais e vespertinas, marcava o ritmo da simplicidade da sua vida. Recordo também o triste momento em que as trevas da noite se tornaram eternas e nunca mais o deixaram ver a luz do dia. Só não sei se o melro cantou…

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