CARTA DE BRAGA – “do terminar e do começar” por António Oliveira

Li algures que alguém (quem?) teria dito (nem sei se foram estas as palavras certas!) vivemos em mais uma dobra da história da humanidade, em que nunca mais acaba o que está a terminar e nunca mais termina o que está a começar deixando-nos naquela situação indefinida do ser e não ser, do estar e não estar, com apelos à volta de um passado que não desaparece, mas ouvindo loas a um futuro que ninguém sabe nem consegue prever.

Uma indefinição notória na maioria dos lugares onde estas coisas ainda são tema de conversa e discussão, pondo à prova a capacidade cultural e entendimento da ‘res publica’, a instrução da cidadania para a cultura, solidariedade e participação na vida colectiva; impera o medo, o medo do passado, o medo do futuro, a celeridade do presente, a urgência das respostas, o cada um por si mesmo, a insolidariedade das grandes cidades, o abandono da ruralidade e dos mais antigos, dos que já não produzem, nem contribuírem para o PIB.

Parece ser a reencarnação do que uma vez escreveu Montaigne, ‘A minha vida foi cheia de terríveis infortúnios a maioria dos quais nunca aconteceu’, escrito num tempo em que, como agora, estes problemas estão a ordenar a reflexão filosófica, entre a agonia de um passado que tenta reimplantar-se, e as portas entreabertas de um futuro marcado por novos caminhos de um processo técnico e científico, cheio de dúvidas quanto ao facto de o homem ainda ser a medida de todas as coisas!

Na realidade, e de acordo com o filósofo, historiador das ideias e teórico político, Isaiah Berlin, ‘O conhecimento só nos torna livres se, de facto, houver liberdade de escolha e se, com base no nosso conhecimento, pudermos ter um comportamento diferente do que teríamos na sua ausência, isto é, se pudermos de facto, comportarmo-nos de modo diferente e com base no nosso novo conhecimento’.

Não parece que tal liberdade exista, a ter em conta este comentário no blog ‘Ventos Semeados’, sobre a violência dos últimos tempos em França, ‘O impasse do sistema económico a rebentar pelas costuras, tenazmente defendido por banqueiros e especuladores apostados em preservá-lo, à custa de privar de futuro (e até do direito à vida!) uma juventude precarizada, mas iludida pelo consumismo e pela puerilidade dos valores difundidos pelas redes sociais’.

Outra maneira de encarar tal questão, foi explicada pelo poeta Luís Castro Mendes, numa das sua crónica no DN Cada vez mais temos o sentimento que as velhas artes (a caligrafia, a recitação) protegem o que é humano em nós da emergência de um mundo transumano. Não é já a desumanização da arte de que se queixava Ortega y Gasset, é mesmo a substituição do humano pelo virtual e pelo artificial; e os velhos saberes, como o da poesia, ajudam-nos a resistir com todas as nossas faculdades humanas, talvez demasiado humanas, ao império da digitalização e da tecnocracia.

Uma opinião seguida noutras latitudes, como a do escritor e jornalista Juan Antonio Molina, ‘Não há dúvidas de que a poesia vai salvar o mundo; é o nosso último argumento para mudar as coisas. Quando olhamos de outra maneira o que nos rodeia, as coisas mudam e a poesia, como Adão no paraíso, percebe tudo como se fosse a primeira vez!

Talvez sejam estas as opiniões que deveríamos guardar, porque a verdadeira revolução –aqui entendida apenas como a mudança, o salto sobre a ruptura– será apenas a da verdade sobre todas as coisas, pois a autenticidade tem mais valor que os perfeccionismos e preciosismos de compêndio, pois só o genuíno e verdadeiro, estarão imunes à adulteração e à corrupção.

Mas é muito difícil mudar de medos, até confiar e delegar as coisas pelas quais nem se consegue dormir tranquilamente, a dar atenção ao que escreveu um dia Albert Camus, ‘O que mais nos impressiona hoje, é que no mundo atual, em geral (e à exceção dos crentes de todas as espécies), a maior parte dos homens se encontra privada da noção de futuro. Ora não há vida vivida sem projeção no tempo, sem esperança de amadurecimento e progresso’.

Assim, nada é fácil agora, até pelas dificuldades em garantir o que iremos fazer para a semana, e nem o podermos apontar na agenda, porque o mundo dá muitas voltas e nunca se estar devidamente protegido da falta de atenção, de cuidado e entendimento das nossas emoções.

Nunca mais termina o que está agora a começar!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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