CARTA DE BRAGA – “da desigualdade e das portas no mar” por António Oliveira

O mundo a tentar pôr portas no mar!

Era o título mais chamativo na primeira página de um diário europeu, num dos últimos dias da primeira semana de Agosto; explicava a seguir que, na Europa, em África e no Mediterrânio, a emigração tinha sido o principal protagonista das notícias, referindo as pessoas que querem entrar na Europa para viver melhor, mas também das novas políticas para controlar tais movimentos, como se pudessem colocar portas nos mares. 

E se calhar por coincidência, Owen Gaffney, diretor de Impacto do Nobel Prize Outreach, o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas, também emitiu um alerta para a Humanidade, ‘A menos que reduzamos para metade as emissões de gases com efeito de estufa até 2030, não teremos nenhuma hipótese de limitar as temperaturas globais a 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Atingir essa meta será extremamente desafiante, mas é possível e acessível, se garantirmos que os mais ricos do mundo paguem a sua justa parcela’.

A seguir explicava como a pandemia empurrou 160 milhões de pessoas para a pobreza, enquanto as dez pessoas mais ricas do mundo duplicaram as suas fortunas, como os mais ricos da população mundial (10%) detêm 77% da riqueza global, enquanto aos 50% mais pobres se atribuem apenas 2%.

Gaffney acrescenta ainda ‘Milhares de milhões de pessoas estão a sofrer o aumento do custo de vida e salários estagnados e, com a recessão que paira no ar, as perspetivas de alcançarem maior prosperidade parecem desoladoras. O mundo nunca foi tão rico, mas a maioria sofre uma grave e crónica insegurança económica’.

A desigualdade também é notória mesmo noutros campos aqueles mais ricos, os 63 milhões de pessoas que ganham pelo menos 109 000 dólares por ano, são a fonte que mais cresce das emissões de carbono, numa altura em que, todos os meses, estamos a queimar mais de 1% do orçamento de carbono que ainda temos, para travar o aquecimento global

Uns dias depois, uma outra voz vem pôr mais negrume em toda esta situação, Cary Fowler, o Enviado Especial dos Estados Unidos para a Segurança Alimentar Global, garante ‘Mais de 800 milhões de pessoas no mundo que estão em situação de insegurança alimentar’ e, exemplificando, ‘Devemos esperar temperaturas mais quentes e condições mais secas no sudeste da Ásia e na Austrália, em muitas partes da África, de certeza na África Austral, na América Central e, já temos problemas com a pesca na costa do Peru, a maior zona de pesca do mundo. Estamos já ver disrupções e situações difíceis, particularmente no mercado de arroz na Ásia; não é normal para a agricultura nem deveria ser visto como tal, por nenhum de nós’.

Nesta Carta feita de títulos que merecem ser meditados profundamente neste período de férias para quem as consegue gozar junto ainda mais um ‘A mobilidade humana em toda a geografia do planeta, é uma realidade histórica, ligada intrinsecamente ao futuro da nossa espécie’, tirado das declarações da Raúl Hernandéz, da Junta Directiva da Refugees Welcome, o movimento internacional nascido em 2015, para ajudar a integração de pessoas migrantes e refugiadas nas comunidades de acolhimento. 

E acrescenta mais ‘O desafio para reconhecer esse direito, tem que ser assumido por um grande espectro político que vá desde os partidos que querem conservar a democracia liberal, até aos que aspiram ao incentivar uma democracia mais social; se não se assumir esse desafio, veremos como se corroem as realidades políticas com propostas reaccionárias, que querem impor uma ordem antidemocrática’.

Pede para se ter atenção ainda, como ‘A externalização de fronteiras por parte dos países europeus é uma política que só causa dor e morte; em Tunes, depois do acordo de contenção migratória com a UE, centenas de refugiados e emigrantes que queriam pedir asilo, foram abandonados no deserto do Saara, sem água nem comida (uma tragédia, mais o silêncio internacional!) e, no que levamos de ano, mais de novecentas pessoas, foram vítimas mortais na fronteira ocidental euro-africana’.

A terminar, mais um título, este com base numa entrevista a Jorge Riechmann, filósofo, poeta, ecologista e tradutor, uma das vozes mais respeitadas dos movimentos ecológicos, ‘Liberdade não inclui o direito a magoar e danificar’, acrescentando a terminar a conversa com o jornalista, ‘Não poderemos evitar o colapso ecológico-social, se continuarmos a proteger este sistema económico’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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