DANIEL ELLSBERG e JULIAN ASSANGE, por PATRICK MARTIN

 

AUTOR   Patrick Martin

WSWS.ORG – Publicado a 18 de Junho de 2023

Tradução por João Machado

Tradução e publicação autorizadas por Johannes Stern

 

O desaparecimento de Daniel Ellsberg, que faleceu na sexta-feira passada aos 92 anos devido a um cancro no pâncreas, é uma ocasião para prestarmos tributo a um lutador contra o militarismo com princípios e coragem, passando em revista os acontecimentos históricos a que ele esteve indelevelmente associado – que actualmente já contam com mais de cinquenta anos – e fazendo um balanço da terrível decadência da democracia capitalista ao longo destas décadas.

Ellsberg, um consultor do Pentágono de alto nível, em 1971 tornou públicas milhares de páginas de documentos classificados sobre a guerra do Vietname, porque forneciam provas indesmentíveis dos crimes de guerra do governo dos Estados Unidos e de mentiras sistemáticas deste para encobrir aqueles crimes.

O material que ele revelou foi publicado em 18 jornais, que litigaram e obtiveram uma decisão do Supremo Tribunal a favor dos seus direitos decorrentes da Primeira Emenda. Hoje em dia os mesmos editores reagiriam a uma revelação semelhante de informação secreta entregando o informador ao FBI, como fez o New York Times com o técnico da Guarda Nacional Aérea que recentemente trouxe a público os documentos “Discord” revelando as conspirações dos Estados Unidos na Ucrânia.

Em 1971, Ellsberg entregou-se para enfrentar acusações sob a Lei da Espionagem que podiam ter-lhe custado uma sentença de prisão perpétua. Saiu em liberdade quando o seu processo foi anulado devido à má conduta do governo. Mas os que hoje seguem o seu exemplo, como Chelsea Manning, Edward Snowden e Julian Assange, enfrentam a prisão, o exílio forçado e a perda da saúde, e possivelmente da vida.

Nascido em 1931 numa família judaica de classe média, criado em Detroit onde frequentou com uma bolsa a escola de elite Cranbrook, Ellsberg chegou à maturidade no ambiente anticomunista do princípio da década de 50. Formou-se em Harvard, onde entre os seus professores se contava Henry Kissinger, e especializou-se na aplicação da teoria dos jogos à estratégia military, incluindo o uso de armas nucleares.

Alistou-se nos fuzileiros navais em 1954, logo a seguir à faculdade, e prolongou o seu período de serviço na esperança de participar em combates na crise do Suez em 1956. Nesta altura foi trabalhar na RAND Corporation, como consultor de alto nível do sistema de segurança nacional dos Estados Unidos. Aí ajudou a desenvolver as doutrinas de estratégia nuclear dos Estados Unidos e foi conselheiro de Robert McNamara, o secretário de estado para a Defesa do novo governo Kennedy, durante a crise dos mísseis cubanos e os estágios iniciais da escalada militar dos EUA no Vietname.

Apoiando inteiramente a cruzada anticomunista global, Ellsberg foi trabalhar a tempo inteiro para o Pentágono nos fins de 1964, e ofereceu-se como voluntário em 1965 para um circuito de inspecção no Vietname onde passou três meses a acompanhar as forças norte-americanas e sul-vietnamitas em ataques a aldeias e em combates com as forças insurgentes da Frente de Libertação Nacional (NLF). As suas ilusões foram despedaçadas por esta experiência, durante a qual viu camponeses serem reduzidos a cinzas pelos bombardeamentos norte-americanos ou abatidos indiscriminadamente por soldados americanos e sul-vietnamitas. Começou a submeter informações pessimistas aos seus chefes do Pentágono.

Em 1967, o próprio McNamara começava a desesperar sobre o resultado da guerra, e organizou um grupo de pesquisa no Pentágono para compilar uma história documental do envolvimento dos EUA no Vietname ao longo de quatro administrações: Truman, Eisenhower, Kennedy e Johnson. Ellsberg foi um dos escolhidos para participar, e o seu estudo da história rapidamente o convenceu de que a guerra não só estava a ser mal conduzida, mas que também era criminosa, e que todas aquelas administrações tinham mentido ao povo americano acerca do papel dos Estados Unidos.

A princípio a oposição de Ellsberg à guerra manifestou-se em dar acesso a materiais específicos a políticos do partido democrático e à imprensa. Em Fevereiro de 1968, ele deu acesso ao Senador Robert F. Kennedy a um relatório classificado sobre o pedido do general William Westmoreland, comandante em chefe no Vietname, de mais 200 000 soldados. Um mês depois deu acesso ao Times a um relatório sobre que os militares dos EUA tinham subestimado grandemente a força das forças do NLF antes da ofensiva do Tet, deixando as forças dos EUA impreparadas para o ousado ataque do NLF a todas as principais cidades do Vietname do Sul.

Em 1969, depois de voltar à RAND, conseguiu ter acesso a todos os 47 volumes da “História do Processo de Formulação de Decisões sobre a Política Vietnamita pelos Estados Unidos”, que ficaria mundialmente conhecida como os Documentos do Pentágono. Ele contactou em primeiro lugar líderes do partido democrático, incluindo o senador William Fulbright, presidente do Comité de Relações Internacionais do Senado, e o senador George McGovern, um opositor declarado da guerra, que iria ser o candidato à presidência nomeado pelo partido democrático em 1972. Eles recusaram a sua oferta para examinarem e tornarem públicos os documentos.

Ellsberg voltou-se então para a imprensa, abordando Neil Sheehan no New York Times, um canal para as suas anteriores fugas de informação, e acabou por fornecer cópias quase completas dos Documentos do Pentágono ao Times, ao Washington Post e a um total de 18 jornais americanos. O Times começou a publicar grandes trechos, provocando pânico e raiva no governo Nixon, que pediu uma ordem judicial para bloquear a publicação.

 

Daniel Ellsberg fala aos repórteres junto ao Federal Building em Los Angeles. O corréu de Ellsberg, Anthony Russo, está ao centro direita – 17 de Janeiro de 1973 -AP-Photo-Associated-Press-STF.jpg

O caso resultante chegou rapidamente ao Supremo Tribunal dos EUA, que proferiu uma decisão no caso New York Times Co. v. United States. A maioria de 6-3 considerou que o governo não tinha fornecido as provas necessárias para derrubar a presunção de liberdade de imprensa para publicar, com base na Primeira Emenda da Constituição dos EUA.

A publicação dos Documentos do Pentágono, que continuou durante semanas nos jornais americanos, reforçou a viragem da opinião pública contra a guerra. Tal como o próprio Ellsberg, o sentimento popular foi mudando drasticamente para a esquerda, não meramente a opor-se à guerra como impossível de vencer, mas vendo-a como injusta, mesmo criminosa. A credibilidade do Pentágono, da Casa Branca – e do governo dos Estados Unidos como um todo – sofreu um golpe irreparável.

Existe uma cadeia directa de acontecimentos que vai desde a decisão de Ellsberg de divulgar os Documentos do Pentágono até à demissão forçada do Presidente Richard Nixon três anos mais tarde.

Nixon – juntamente com Henry Kissinger, o seu conselheiro de segurança nacional – decidiu fazer de Ellsberg um exemplo, destruir a sua reputação e arruinar a sua vida. Kissinger foi particularmente inflexível, chamando a Ellsberg “o homem mais perigoso da América”. Numa reunião com Nixon, após a decisão do Supremo Tribunal sobre o caso dos Documentos do Pentágono, Kissinger declarou: “Ele tem de ser travado a todo o custo. Temos de o apanhar.” Nixon respondeu: “Por Deus, nós vamos atrás deles.”

Nixon deu instruções ao seu assessor mais próximo para a política interna, John Ehrlichman, para criar a unidade dos “canalizadores”, assim chamada porque a sua função era tapar fugas de informação. Este grupo de ex-agentes da CIA e do FBI, chefiado por G. Gordon Liddy e Howard Hunt, invadiu os escritórios do psiquiatra de Ellsberg na Califórnia, procurando, sem sucesso, informações que o desacreditassem.

Nove meses mais tarde, o mesmo grupo foi apanhado a assaltar os escritórios do Comité Nacional Democrata no complexo de escritórios de Watergate, em Washington, procurando obter informações para ajudar a campanha de reeleição de Nixon. O escândalo que se desenvolveu em torno do envolvimento direto do presidente em acções criminosas e do seu encobrimento culminou, em agosto de 1974, com a demissão de Nixon, depois de os líderes republicanos do Congresso o terem abordado e lhe terem dito que a destituição e o afastamento do cargo seriam inevitáveis se não abandonasse a Casa Branca.

Ao longo das revelações de Watergate, a acusação federal contra Ellsberg e o seu colega Anthony Russo, ao abrigo da Secção 793 da Lei de Espionagem, entrou em colapso. O juiz do caso rejeitou as acusações depois de o assalto ao escritório do psiquiatra de Ellsberg pelos “canalizadores” ter vindo a público, bem como outras más condutas do governo, incluindo escutas ilegais de Ellsberg e a oferta ao juiz do cargo de diretor do FBI se ele tratasse o caso como era desejado pela Casa Branca.

Ao contrário de muitas outras figuras da classe média que foram radicalizadas na década de 1960 pela Guerra do Vietname e pelas lutas pelos direitos civis nos Estados Unidos, Ellsberg nunca fez as pazes com o establishment. Continuou a ser um defensor de princípios das liberdades civis e um opositor da guerra e do militarismo até ao fim da sua vida, foi preso em numerosos protestos, geralmente por desobediência civil não violenta. Procurou denunciar as mentiras propagadas pelo aparelho de segurança nacional dos Estados Unidos para justificar as guerras no Iraque, Afeganistão e Líbia, e solidarizou-se com aqueles indivíduos corajosos que romperam com as agências de inteligência militar e procuraram denunciar os crimes do imperialismo norte-americano.

Em 2017, ele escreveu um livro importante, The Doomsday Machine, traçando o desenvolvimento da doutrina de armas nucleares dos EUA na década de 1950 e início da década de 1960, quando trabalhou nesse campo com Kissinger, McNamara e outros. Como a resenha do volume pelo WSWS observou: “A estratégia dos EUA sempre foi para um primeiro ataque: não necessariamente um ataque surpresa, mas não um ataque que veio ‘segundo’ em uma guerra nuclear.”

A resenha continuou: “o total geral de um primeiro ataque nuclear pelos EUA seria de pelo menos 600 milhões de mortos, ‘cem holocaustos’ pela própria estimativa do Pentágono”. E este número era, na verdade, uma estimativa baixa: “Ellsberg observa que, em 1961, quando o documento foi feito, estava-se duas décadas antes que o conceito de inverno nuclear e fome nuclear fossem aceites, o que significava que, na realidade, a maioria dos humanos morreria junto com a maioria das outras grandes espécies após uma guerra nuclear.”

Quatro anos depois, ele revelou que o governo dos EUA havia elaborado planos em 1958 para usar armas nucleares contra a China – que não era então uma potência nuclear – se os ataques chineses a ilhas offshore controladas por Taiwan continuassem. Nenhuma administração dos EUA jamais adotou uma promessa de “não ao primeiro uso” no sentido de proibir o uso de armas nucleares em uma guerra convencional ou ataque surpresa.

Ellsberg desempenhou um papel proeminente na defesa de Chelsea Manning, Edward Snowden e particularmente de Julian Assange, fundador e editor do WikiLeaks. Ele escreveu sobre Assange: “Eu fui o primeiro denunciante a ser processado sob a Lei de Espionagem, e agora ele é o primeiro  a ser processado [sob a Lei de Espionagem] por publicar”.

Embora o New York Times e outros meios de comunicação corporativos tenham publicado material vazado por Manning e Snowden, ou postado pelo WikiLeaks, eles não fizeram nenhum esforço para os defender contra processos judiciais do governo Obama, que fez uso mais frequente da Lei de Espionagem para perseguir vazadores e jornalistas do que todos os governos anteriores na história dos EUA juntos.

Ellsberg prestou depoimento em uma das inúmeras audiências judiciais no longo processo legal durante o qual o governo britânico tem mantido Assange preso na prisão de alta segurança de Belmarsh, o Guantánamo britânico, embora o editor do WikiLeaks não enfrente acusações criminais na Grã-Bretanha, apenas um pedido de extradição dos Estados Unidos.

Assange e a sua família apreciaram profundamente esse apoio, e Assange colocou Ellsberg na lista restrita de pessoas autorizadas a telefonar e falar com ele em Belmarsh. Por essa razão, Assange foi autorizado a ligar para Ellsberg e a despedir-se dele depois de Ellsberg ter anunciado publicamente que estava a morrer com cancro do pâncreas.

Os meios de comunicação social corporativos estão totalmente silenciosos sobre esta estreita ligação. Os dois principais jornais diários dos Estados Unidos, o New York Times e o Washington Post, conseguiram publicar longos obituários de Ellsberg que não faziam qualquer referência a Assange. O mesmo se passa com o Guardian, na Grã-Bretanha, que publicou uma notícia e uma homenagem sentida de Trevor Timm, cofundador com Ellsberg da Freedom of the Press Foundation. Em nenhuma delas aparece o nome “Assange”.

Quando o editor da WikiLeaks foi arrastado para fora da embaixada do Equador em Londres pela polícia britânica, em abril de 2019, os principais órgãos do imperialismo, tanto norte-americanos como britânicos, regozijaram-se positivamente. Um editorial do Washington Post declarou que Assange estava “há muito atrasado para a responsabilização pessoal” e sugeriu que a perspetiva de prisão perpétua poderia levar à sua “conversão numa testemunha cooperante”. O Times vilipendiou-o num artigo de primeira página como um “narcisista” que tinha “pouco interesse em assuntos mundanos como a higiene pessoal”.

Os media corporativos odeiam Assange e qualquer pessoa que desempenhe a função essencial de uma imprensa livre: expor as acções que o governo quer manter secretas, especialmente as que são antidemocráticas ou ilegais. Isto é uma expressão da colossal mudança para a direita, tanto nos media corporativos como no meio da classe média-alta a que se destinam, nos últimos 50 anos. Eles saudariam um novo Ellsberg como fizeram com Assange, não com artigos extensos divulgando as exposições do delator ou processos judiciais para defender a liberdade de imprensa, mas endossando e apoiando sua perseguição pelo Estado.


Para ler este artigo de Patrick Martin no original clique em:

Daniel Ellsberg and Julian Assange – World Socialist Web Site (wsws.org)

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