CARTA DE BRAGA – “aprendizes de feiticeiro” por António Oliveira

Tem séculos e uma origem difícil de estabelecer, o mito do ‘aprendiz de feiticeiro; ninguém deu até hoje uma explicação verosímil, embora haja opiniões que o ligam aos antigos Egipto, Índia e mais alguns e outros lugares.

Certo é que ninguém deixa de citar Goethe, a inigualável figura do romantismo, por ter contado como o aluno de um mestre em feitiçaria, aprendeu com ele algumas das palavras cabalísticas que o mestre usava; quando sozinho, resolveu experimentá-las por conta própria, e rapidamente perdeu o controlo da situação, tendo sido salvo pelo mestre, que voltou a casa a tempo de o salvar de um final dramático. 

Também Walt Disney pegou na estória e mostra o rato Mickey, depois de ter roubado o chapéu mágico do seu mestre feiticeiro, fazer um pedido às estrelas que se transformaram em cometas dando origem a uns incontroláveis fogos de artifício, que só terminam com a intervenção do feiticeiro. 

Vem isto a propósito de uma afirmação do professor e filósofo Viriato Soromenho Marques, numa das suas crónicas regulares no DN Pintar pomares, charnecas, searas, noites estreladas, retratos, famílias camponesas no trabalho ou comendo batatas, paisagens marinhas, significava para Van Gogh, a afirmação de uma hierarquia, incompreensível para os modernos aprendizes de Prometeu: na pintura como na vida, a Natureza transcende e tem um primado essencial sobre todas as formas da sua representação. Construímos a atual civilização sobre a premissa contrária. Não surpreende que o edifício esteja a ruir por todos os lados

Na verdade, são muitas as vozes em todo o mundo a alertar para o facto de a Natureza se estar a mostrar cada vez mais adversa, pelo facto de a continuarmos a envenenar, sem ter em atenção que a evolução humana principalmente nos últimos séculos tem sido uma luta incansável contra Ela, para lhe sacar vida, alimento e prazer, sem nos lembrarmos que a Natureza também é mãe e inimiga, pois se a não aceitarmos como mãe vamos tê-la como inimiga, uma situação extremamente perigosa. 

Não há muitos dias os jornais denunciavam como ‘O aquecimento causado pela humanidade atinge ritmo sem precedentes’. Um estudo feito por cinquenta investigadores e baseado nos métodos do Painel Intergovernamental de Mudança Climática, ligado à ONU, concluiu que no período 2013-2022 o aquecimento aumentou para um nível sem precedentes de mais de 0,2°C, e ‘É uma dura realidade que mostra a urgência de reduzir as emissões globais de CO2 e metano para ajudar a limitar o aquecimento global e o consequente aumento do risco“, disse a paleoclimatologista francesa Valérie Masson-Delmotte, que participou do estudo. 

Quatro dias antes do final de Julho, os jornais também noticiavam que o sistema de correntes no Oceano Atlântico poderia colapsar a qualquer momento, entre 2025 e 2095, devido ao amento das temperaturas no último século e meio, o que traria consequências catastróficas e ‘Entramos em terreno desconhecido’; é a conclusão de um outro estudo publicado na revista ‘Nature Communications’, salientando as contínuas emissões de gases com efeito de estufa, e do impacto das actividades humanas no sistema climático da Terra. 

Até um jornalista recolheu esta afirmação ao famoso fotógrafo da Benetton, Oliviero Toscani, ‘Somos a parte da Natureza que não funciona, mas ela também responde bem. É muitíssimo má quando lhe convém, manda doenças, cancro, tsunamis, terramotos… é perigosa e, ainda por cima, o ser humano com as suas acções, mais a deteriorou. A única solução é voltar a começar, desde o princípio, mas vai levar tempo, várias gerações! Não o verei, você também não, mas será inevitável’.

A este propósito, lembro-me, quando via uma reportagem sobre incêndios e outros dramas provocados pelas alterações climáticas, ter ouvido dizer a um cidadão anónimo, que um outro repórter fez questão de lhe colocar um microfone à frente, ‘Um político faz-se num instante, mas a natureza não!

Mas a quem e de onde teriam ‘arrancado’ eles, as falas cabalísticas? 

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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