CARTA DE BRAGA – “das crises e da liberdade” por António Oliveira

 

Não há muitos dias, o BCE subiu mais uma vez as taxas de juro, acrescentando também, que talvez possam parar a partir daqui, mas, ‘Terão de ser mantidas assim durante um período longo’ garantiu Lagarde e, ‘A inflação continua a descer, mas vamos subir taxas de juro em mais 0,25%, pois o fim do aperto depende do andamento da inflação até ao final do ano’, acenou ainda a instituição. 

Note-se que as taxas continuam em subida imparável desde Julho do ano passado; são muito más notícias para quem tem crédito à habitação e para quem planeava comprar casa, através de um empréstimo. 

A situação é ‘resumida’ assim por um académico economista e director de um diário lá de fora, ‘A política monetária aplicada pelos bancos centrais, está baseada na mais absoluta ortodoxia económica, a favorecer os lucros dos bancos, mas representa um perigo grave para as classes médias e trabalhadoras. São muitos os especialistas económicos, incluindo alguns prémios Nobel, a avisar que desta política monetária, a consequência maior será a perda de milhões de postos de trabalho’. E acrescenta mais, ‘Nada fizeram para acabar com o verdadeiro impulsor da inflação, a cobiça corporativa, os milhões de lucros que só beneficiam os grande inversores e especuladores’.

Um outro analista escrevia também, ‘Lagarde outra vez’, para acrescentar depois ‘Após uma década de domínio das pombas no Conselho do BCE, parece que os falcões (Países Baixos, Alemanha, Áustria) recuperaram o comando. Talvez isso explique a sua última ameaça se não querem mais dureza na política monetária, os governos devem conter os gastos’.

Dois ou três dias depois, pudemos ler que as rendas dos novos contratos iriam subir 5,5% em Lisboa e 4,8% no Porto e, os jornais de todos o mundo salientaram as palavras de um empresário e milionário australiano, ‘O desemprego tem de aumentar (…) Tem de haver dor na economia. Devemos lembrar que são as pessoas que trabalham para os empregadores e não o contrário (…) Temos de eliminar a atitude de arrogância dos empregados, que passa por agredir a economia. E é isso que os governos têm feito, por forma a restaurar uma certa normalidade’.

Ao mesmo tempo, e a movimentar encontros e reuniões entre os grandes do mundo, determinados por guerras, economias e desastres ambientais que, de naturais parecem ter muito pouco, ‘É preocupante, por estarmos a falar de situações climáticas cujos cientistas e especialistas estavam a antecipar para depois de 2030. Mas estamos neste momento a vivê-las, muito mais cedo do que estávamos à espera’ afirma um membro da uma associação ambientalista e, outros diários, colocam nas primeiras páginas a exigência da cimeira africana sobre o clima, ‘África pede a criação de uma taxa mundial sobre as emissões de carbono’.

E explicam assim tal exigência ‘Exigimos a mudança do paradigma para fortalecer as economias descarbonizadas, com a taxa mundial sobre o carbono, incluindo uma taxa sobre o comércio de energias fósseis, transporte aéreo e marítimo e uma taxa sobre as transações financeiras, para investir em projectos climáticos de grande escala, e sem aumentar a influência indevida dos interesses geopolíticos e nacionais’.

Deve ter-se em atenção que as crises que hoje atravessamos, geram dois tipos de respostas algos cismáticas: retroceder aos mitos do passado, ou recusar a história, negando-a ou omitindo-a. As duas respostas e correspondentes atitudes, podem ser muito perigosas levar ao sectarismo por alheamento, incultura, desinformação, populismos e outros extremismos porque o mundo não passar agora de ser uma enorme montra de ficções. 

Não podemos esquecer que a política levantou sempre questões variadas, sobre a autoridade e o alcance das concepções sobre ética e moralidade, bem como da inclusão ou não, da noção de ‘dever’. Questão que já Platão referiu na ‘República’, quando põe Trasímaco a desafiar Sócrates, a negar ‘A justiça não é mais do que a conveniência do mais forte, e fazer o que é do interesse do mais forte’.

Talvez por isso, se dermos conta de que os exageros entre e com os humanos assim como entre e com o ambiente levam a ultrapassar as margens e limites biofísicos desta Terra nossa, também poderemos dar conta de como o significado da palavra ‘liberdade’, é bem diferente do que tínhamos não há muitos anos atrás.  

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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