O que está a acontecer no Médio Oriente é um problema gravíssimo, cujo alcance estamos todos –grandes potências incluídas– muito longe de poder escrutinar ou deslindar. Dificuldade que começa –creio eu– por não ser um problema entre israelitas e palestinianos, mas um problema entre duas organizações violentas, um governo autocrático, e um grupo que utiliza práticas militares e terroristas, mas com as duas organizações apoiadas num obscurantismo religioso que elas mesmas fomentam.
E ambas procuram uma vitória que vai muito para lá do triunfo, por só visarem o aniquilamento total do rival, olvidando a quantidade de inocentes que terão de abater para conseguir tal desiderato, visível aliás na destruição e nas matanças que vão provocando no lado contrário. Nas palavras do ministro da defesa israelita, será uma luta contra animais humanos, a justificar a destruição feita em Gaza como resposta ao brutal e confrangedor ataque terrorista do Hamas.
Quem poderá justificar a violência de qualquer dos lados? As vítimas em qualquer dos lados? Quem poderá avocar um qualquer ser superior em qualquer dos lados? Alguns milhões de pessoas, nos dois lados, estão há décadas a penar uma violência indescritível, que as afecta moral física e materialmente, que lhes rouba o presente e qualquer esperança de futuro. É só uma questão de humanidade, de milhares de pessoas sacrificadas.
Li há dias um comentário, dando uma receita sinistra, ‘Não custa muito fabricar assassinos: é combinar bem, medo, ressentimento, fanatismo e doutrinamento contra o outro, por ser a causa dos males, por ter outro deus, ou outra língua, ou outra etnia, ou outras e más ideias, tudo uma ameaça existencial que lhe tira a condição humana; e lá atrás, nos seus gabinetes, bem protegidos nos seus bunkers, virtuais ou não mas bem guardados, estão os que movem as peças deste gigantesco “Monopólio”, um jogo em que só penam, ou morrem, aqueles que fazem as peças’.
Mas ninguém usa a palavra vingança, diz no ‘La Vanguardia’ o seu antigo director, Carol, ‘O que não quer dizer que tais acções não estejam condicionadas por essa vontade, mas porque essa palavra é politicamente incorrecta, portanto evitada pelos mandatários’.
Não resisto em transcrever para esta Carta, um parágrafo de um artigo de John Carlin, escritor, jornalista e colunista em alguns grandes jornais internacionais, ‘Quem ordenou os massacres dos israelitas, sabia perfeitamente que as consequências seriam os massacres dos palestinianos de Gaza, preço que estão mais que preparados para pagar, apesar de saberem que nunca conseguirão o seu objectivo, a destruição do estado der Israel. Não tem importância. Insistem apenas para perpetuar a sua absurda, niilista e única razão de ser, a mesma que os seus inimigos da direita radical israelita: que o ciclo de ódio e violência continue, “olho por olho” como no Antigo Testamento. Não se vislumbra final feliz, pelo contrário. Os piores de ambos os lados estão a ganhar. Houve um tempo, acreditam muitos, que Deus se importava com a Terra Santa. Já não. Parece que não’.
Termino citando um outro ensinamento, já com mais de dois mil anos, referindo também a vingança, aquele terrível palavrão; não passa de um aviso premonitório do clarividente e sábio Confúcio, e que aqui parece caber plenamente, ‘Antes de embarcares numa viagem da vingança, cava duas tumbas’. Referia ele que quando as cinzas da destruição e da morte as cobrirem como aos sonhos falsos do triunfo, uns e outros teriam de sentar-se e falarem!
Avé Confúcio!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor