O primeiro verso do último poema do imperador Adriano, o ‘herói’ de Marguerite Yourcenar na novela ‘Memórias de Adriano’, é uma belíssima forma de expressar toda a emoção pela alma companheira que abandona o corpo, ‘animula vagula blandula’, aproveitada depois para o epitáfio do imperador. Uma das traduções propostas, (alminha vagabunda blandiciosa), foi também utilizada por Camões, que a glosou e desenvolveu no belíssimo poema, ‘Alma minha gentil que te partiste…’
Numa carta a Marco Aurélio –que lhe viria a suceder depois da morte de Antonino– Adriano contava ainda do interesse de sempre pelas artes, cultura e filosofia da Grécia e, questionava-se, se teria valido a pena abandonar a possibilidade de ser feliz, mantendo o poder absoluto que tivera como imperador, numa frase que é um autêntico legado para políticos e para a história da política. ‘É essencial que a pessoa que chegou ao poder, tenho podido provar depois, que mereceu exercê-lo’.
Não parece haver dúvidas para ninguém, que as memórias e o passado –nossos ou alheios– são um dos factores mais relevantes na formação do conhecimento, devido ao valor e interesse das experiências, se devidamente explicadas e divulgadas, ‘Só o conhecimento pode tentar estender o olhar até aos limites da História e do Universo, e pretender envolver tudo num único golpe de vista. A ignorância e desprezo pelo passado, correspondem à tentativa absurda, ou perigosa, de anular a posição anterior ou de querer negar o real’, escreveu o historiador José Mattoso, em ‘A escrita da História’.
O filósofo francês Charles Pépin que acabou lançar mais um livro, ‘Vivre avec son passé’, salienta também e com base nos últimos estudos das neurociências, ‘Sou o que o meu passado fez de mim, mas não me reduzo a isso’ e, referindo a importância da memória ‘Ela é como nós, mudamos perpetuamente. Mas existe um mistério lá dentro, é a permanência do nosso “eu”’.
Creio também naquilo que Pascal afirma, referindo este tema –a constituição do ser humano situa-se entre o nada e o infinito–, aliás a razão de ‘A única e verdadeira aspiração, desde o princípio, como se diz no Génesis, é querer “ser como Deus”’ e, escreve o sacerdote e professor Anselmo Borges no DN, mesmo que essa vontade se manifeste de maneiras diversas, estranhas, invulgares e mesmo contraditórias, até e inclusivamente, postas em prática por gente que consideramos, ou pensávamos, ‘acima de qualquer suspeita’.
Francis Scott Fitzgerald, talvez o escritor mais celebrado da época do jazz, afirmou e alguém anotou, ‘Primeiro bebes um gole, depois de outro gole, tomas mais um e, na continuação, o gole bebe-te a ti’.
William Faulkner gostava de beber enquanto escrevia e numa ocasião, o seu tradutor para francês, tentava decifrar uma frase desmesurada sem conseguir algo que fizesse sentido; quando lhe perguntou o que era aquilo, ouviu apenas ‘Não tenho a mais pequena ideia do que queria dizer’.
Um jovem catalão emigrou para Cuba, trabalhou num bar e inventou um dos mais conhecidos coquetéis deste mundo, o Floridita, também o nome do bar. Hemingway que lá tem, em frente, uma estátua de bronze tamanho natural, tomava seis ou sete seguidos e pedia sempre ‘Mais um para o caminho’.
Um outro lado desta maneira de se aproximar da permanência do “eu”, foi explicada pelo atleta queniano Eliud Kipchoge, campeão mundial e olímpico da maratona, que venceu em Londres, Berlim, Roterdão, Chicago e Tóquio; depois de cada uma das provas que foi fazendo e ganhando, vai plantar uma árvore na sua aldeia no Quénia, ‘A alegria que tenho ao ver o crescimento de uma árvore, durará muitas vidas’.
Perante esta situação nossa, entre o ser e o nada, como disse Pascal, a que cada um poderá juntar a sua própria emoção e, sem cair na emoção da ‘animula vagula blandula’ e, por saber também, ‘Não é coincidência que um livro aberto tem sempre a forma de um par de asas’ (blog ‘Xilre’), lembro-me da lengalenga do tempo, que aprendi ainda garoto, uma forma de confirmar que também sou muito do que o passado fez de mim,
“O tempo perguntou ao tempo
quanto tempo o tempo tem.
O tempo respondeu ao tempo
que o tempo tem tanto tempo
quanto tempo o tempo tem”
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor