‘Há mais de 250 milhões de rapazes e raparigas fora da escola em todo o mundo e, muitos daqueles que têm acesso à escola, não estão a aprender, nem sequer aprendem o básico. Estima-se que 70% das raparigas e rapazes de dez anos, não conseguem ler e compreender um texto simples, muito menos avançar em aprendizagens mais complexas, como matemática, pensamento científico, educação cívica, ou desenvolvimento emocional saudável’.
A afirmação, é do professor e economista Leonard Garnier, conselheiro especial do Secretário Geral das Nações Unidas para a Transformação Educacional, que não tem nenhum pejo em acrescentar, ‘Condenamos gerações inteiras a serem excluídas da participação activa na vida social e produtiva, ou de beneficiarem de uma vida plena para si e para as suas famílias’ e, sem esquecer o “deus dinheiro” o guia efectivo e padrão e destes tempos, ‘Em consequência da exclusão educativa, esta geração de estudantes corre o risco de perder o equivalente a 21 biliões de dólares de rendimento potencial ao longo da vida, o que equivale a 17% do PIB mundial actual’.
Estes e outros números, talvez demasiados para aqui caberem, podem ser lidos ma entrevista a Garnier, publicada num DN de alguns dias atrás, e que acaba com uma frase carregada com as mesmas nuvens escuras, que agora pairam sobre a humanidade inteira, ‘Três quartos da população mundial em idade escolar, recebe menos de 10% do investimento mundial na educação’.
O economista Eugénio Rosa, referindo particularmente o nosso país, numa crónica no blog ‘A viagem dos argonautas’, também não se escusa em dizer ‘O investimento público e privado é insuficiente para responder às necessidades de modernização da economia, de criação de emprego qualificado e progresso do país, uma situação preocupante, se se tiver presente que o investimento do país na Educação, está muito abaixo da média dos países da EU, e não tem aumentado nos últimos anos; muito pelo contrário, até tem diminuído’.
Esta mesma situação é escalpelizada pelo poeta, professor e crítico António Carlos Cortez, também num DN dos princípios de Outubro, onde, depois de uma boa e sequencial porção de reparos, salienta, ‘Impreparação técnica, incultura, desconhecimento dos dossiers que ministram, a acção de inúmeros políticos roça a indigência. Na educação é cristalino – há professores, de Norte a Sul do país, perseguidos por directores que, próximos do ministro, exercem o poder de uma forma salazarista – quem não alinhe com o que diz quem manda, sofre um processo disciplinar’.
Mas não se pense que estamos isolados, pois na carta aberta ‘A triste realidade’ aos estudantes universitários, o catedrático de Economia em Granada, Daniel Arias Aranda, revela bem o que se passa aqui ao lado, ‘Caros alunos universitários, estamos a enganar-vos. Passais de ano com disciplinas atrasadas; seguis, mas os conhecimentos ficam atrás, com um efeito somatório demolidor. O nível baixou na universidade, leccionamos menos temas e de modo mais superficial. Cumprimos o contrato-programa, o departamento fica feliz, os alunos são aprovados, acreditam que sabem alguma coisa e são felizes. Esta é a triste realidade’.
Mas ainda há vozes avisadas, como a do poeta Luís Castro Mendes, também num DN de Outubro último, ‘Devemos ter a humildade intelectual de reconhecer que os problemas mudaram, e muito temos também de ouvir e aprender. São as novas gerações que irão conduzir as mudanças do mundo, num contexto terrível e perigoso, de máxima imprevisibilidade e de crescente capacidade de fabricação de ilusões. A tarefa deles não é fácil. Também não diria hoje, que 20 anos é a mais bela idade da vida…’
E volto a citar o professor António Cortez, ‘Urge um 25 de Abril, ser professor é semear cultura, não é perseguir quem a semeia. A barbárie de amanhã será́ culpa dos decisores de hoje’, até por Victor Ângelo, ex-secretário-geral adjunto das Nações Unidas ter comentou deste modo, a vitória do patusco Javier Milei nas eleições argentinas, ‘Ficou provado que zurrar é um trunfo político. Temos aí um triste exemplo do impacto nefasto que os maus editores-gerais das redes de televisão podem ter: levar um louco, um brutamontes ou um desmiolado à chefia de um país. Hoje, aconteceu na Argentina, amanhã poderá́ ser nos EUA, ali ou acolá, ou em Portugal’ .
E até porque ‘Para grandes males, grandes remédios’ como diz o povo, até será bom, seguir o conselho de Guilherme d’Oliveira Martins, antigo ministro da Educação e actual administrador da Gulbenkian, formulado numa entrevista ao DN do passado sábado, ‘Devemos ser exigentes com a Educação. Não podemos estar satisfeitos com o que conseguimos nos últimos anos. Ter 12 anos de escolaridade obrigatória é óptimo, mas precisamos de cuidar da qualidade das aprendizagens. Mais avaliação. Não tanto dos alunos, mas do sistema, das escolas e dos professores. Na verdade, temos de estar conscientes de que o património não é uma questão do passado, mas uma construção do presente’.
São todas declarações com mais de 140 carateres! Alguém as lerá?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor