Introdução Segunda – Ainda em torno de uma resposta a um médico amigo e de uma homenagem feita ao Joaquim Feio, um amigo de décadas
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Coimbra, 2 de Setembro de 2023
De novo, venho-vos falar da série dedicada ao Joaquim Feio, agora que a sua situação clínica se agrava. Dada por terminada a sua construção, solicitei a opinião de Giancarlo De Vivo sobre se esta série cumpria do ponto de vista científico os requisitos pretendidos: ser uma expressão clara do que significa a economia dos clássicos, a importância de Sraffa na sua reabilitação, o que representa esta reabilitação no confronto com as teorias alternativas de hoje e que perspetivas de desenvolvimentos teóricos se podem perspetivar no quadro neo-ricardiano. Recebo depois a opinião de Giancarlo De Vivo, um dos especialistas de referência em Sraffa, de que estava bem e que iria refletir na hipótese de colocar mais um ou outro texto relevante para os objetivos expressos, apesar de considerar que estavam já muitos textos selecionados, alguns deles longos, e já em linha para serem editados.
Questionei-me sobre o comentário de Giancarlo De Vivo e revi toda a estrutura de textos pensados para constituírem a série. Assinalei duas eventuais “ausências” nessa estrutura: a ausência de textos ligados por um lado a Keynes e, por outro lado, à teoria da renda.
Quanto à primeira, a ausência é intencional, existem apenas algumas referências, mas intencionalmente não se passa disso. De resto, trata-se de uma opção que está em linha com o que escreveu Giancarlo De Vivo, ligado a este tema, quando nos lembra as ligações intelectuais, ou ausência delas, entre Marx-Sraffa Keynes [1]:
“O entusiasmo [de Sraffa] por Marx deve ter aumentado constantemente: considera “formidável” que “em meados do século XIX um homem [isto é, Marx] consiga, quer por acidente, quer por esforço sobre-humano, reapropriar-se da teoria clássica: melhorá-la [2] e retirar dela as suas consequências práticas”; tendo-se concebido ele próprio como um simples “tradutor de Marx”, começa a preocupar-se com a estrutura do livro, para evitar o perigo de acabar como Marx, que se tinha revelado incompreensível para os seus contemporâneos.
Nota. Como um pequeno exemplo deste entusiasmo, podemos registar que em 1932 deve ter induzido Keynes a pedir emprestados alguns livros de Marx. Escusado será dizer que Keynes não ficou impressionado e, ao entregar-lhe os livros, escreveu: “Juro que não consigo compreender o que terás encontrado neles, ou o que esperavas que eu encontrasse! Não descobri uma única frase de qualquer interesse concebível para um ser humano racional. Para as próximas férias, tem de me dar um exemplar sublinhado”. Sraffa deve ter ficado impressionado com a reação de Keynes e, duas semanas depois, transcreveu parte da carta de Keynes a R. Palme Dutt (o responsável comunista do Labour Research Department, onde Sraffa tinha trabalhado durante algum tempo aquando da sua primeira estada em Londres no início dos anos 20) acrescentando algumas notas interessantes sobre a distância que separa Marx não somente dos “intelectuais burgueses“ mas também da classe operária cujo “alimento intelectual e literário… é completamente fornecido por gente como Keynes”. Levantou, por isso, o problema de saber se estava a ser feita alguma coisa para proporcionar uma “mediação” que pudesse tornar Marx inteligível para a classe operária (carta de Sraffa a R. Palme Dutt de 19 de Abril de 1932 depositada em National Museum of Labour History, Manchester. CP/IND/DUTT/06/02; sinto-me em dívida para com Nerio Naldi por me ter dado conhecimento desta carta).” Fim de citação
Quanto à teoria da renda foi apenas falta de lembrança minha aliada ao facto de depois de 1976 me ter desligado do tema. E desisti do tema nessa altura porque se em Marx há uma ideia genial, a renda absoluta, assente no direito de propriedade, esta ideia é diluída num tratamento da renda que, por um lado está colado à análise da renda diferencial de Ricardo e, por outro, apresenta uma falta de coerência em tratar o tema dada a confusão sistemática entre valores de mercado e valores (naturais) e entre preços de produção (preços naturais) e preços de mercado, o que torna a sua análise não só de difícil compreensão como é também inconsistente. Adicionalmente não percebi o tratamento de Sraffa dado à renda pois o seu conceito de renda absoluta não tem, aparentemente, nada a ver com Marx. Diríamos mesmo que face ao conceito de renda absoluta de Marx, autor que Sraffa conhecia muito bem, seria mais correto considerar a renda absoluta de Sraffa como renda diferencial de um segundo tipo, a saber:
- a renda diferencial de Ricardo, renda diferencial tipo I, pressupõe quantidades de capital iguais e terras de fertilidade diferentes, ou dito de uma outra forma pressupõe uma agricultura extensiva. Por isso também se chama à renda diferencial de Ricardo, renda diferencial extensiva.
- a renda absoluta de Sraffa pressupõe quantidades de capital diferentes e terras iguais, por isso não seria incorreto chamar-lhe antes renda diferencial tipo II, ou ainda renda diferencial intensiva, pois a terras iguais correspondem intensidades em capital diferentes.
Face a todas estas dificuldades, foi um tema que deixou de estar sob o meu radar de interesses.
Mas confesso, trata-se de uma ausência que no caso presente, o de hoje, não devia existir uma vez que se assistiu, ainda muito recentemente, à aplicação da teoria da renda diferencial de Ricardo na União Europeia na determinação dos preços da energia, e com os longos debates sobre os lucros excessivos, o contraponto das rendas diferenciais de Ricardo.
Tentei então debruçar-me sobre a teoria da renda e consegui arranjar três textos de referência sobre o tema, mas inevitavelmente são todos eles, do ponto de vista técnico, de leitura nada fácil. Procurei então outros documentos de trabalho de leitura mais acessível e com um enquadramento histórico desta problemática que tornem mais atraente o estudo da teoria da renda. São eles, um texto sobre John Stuart Mill e a sua luta contra os Landlords e duas teses de doutoramento apresentadas na Universidade de Laval, no Canadá. Estas são:
- A fixação do capital na propriedade fundiária: estudo da evolução das condições espaciais da reprodução do capitalismo– excertos-, de LOUIS GAUDREAU
- David Ricardo, Karl Marx e o necessário antagonismo dos interesses de classe, de Mathieu-Joffre Lainé.
Na tese de Gaudreau estuda-se a inconsistência da análise de Marx sobre a teoria da renda e propõem-se outras perspetivas na linha de Marx para o enquadramento da renda absoluta em sistema capitalista. Um texto elegante.
Na tese de Mathieu-Joffre Lainé, separamos este texto em duas partes, ambas de muita qualidade. Numa delas analisa-se, e com muito pormenor, o ambiente intelectual da Inglaterra na época de Ricardo. Esta segunda parte é simplesmente de leitura obrigatória. Ficamos sem margem para dúvidas de que o título da série está corretamente formulado quando se fala em debates de ontem, de hoje e de amanhã também. Ficamos a saber que os debates de ontem, do tempo de Ricardo, não eram afinal muito diferentes dos debates a que assistimos na atualidade, tais como a dívida subprime, a dívida pública, a eficiência ou ineficiência dos mercados, entre muitos outros temas possíveis. Na outra parte, estuda-se a formação da renda diferencial e a repartição do rendimento entre as classes sociais na linha do que se chama o teorema fundamental da repartição de Ricardo. Aqui, sem lhe retirar o mérito devido, encontrámos alguma dificuldade em acompanhar a demonstração formal desse mesmo teorema no que diz respeito à determinação da renda diferencial e à ideia central em Ricardo de que o rendimento nacional é expresso pela quantidade de trabalho utilização na sua produção. A dificuldade de interpretação da exposição matemática reside na leitura da seguinte frase “a renda global é igual à diferença entre duas quantidades de trabalho direto: o valor criado pelo trabalho direto total e a quantidade de trabalho direto”. Escrevemos ao autor, mas em Agosto é de esperar tudo menos uma resposta. Como o autor se serve de um artigo de Gislan Deleplace, procurei obter gratuitamente este artigo. Impossível, a plataforma de acesso exigia 24 EUROS. Solicitei apoio dos serviços da minha Faculdade uma vez que, pela relação institucional, ou seria de acesso gratuito ou, caso contrário, seria mais barato. Impossível, os serviços estavam encerrados. Pedi a dois colegas meus da FEUC, nada feito, nunca tinham lidado com essa plataforma. Pedi a dois colegas meus do ISEG e tive a mesma resposta.
Procurei então por outras vias, pelos diversos motores de busca na Internet, mas em vão. Nessa pesquisa não encontrei nada do que especificamente procurava mas, em contrapartida, tive acesso a dois sítios muito importantes, a saber:
1. um sítio da Universidade de Bordéus
2. e um outro da Universidade Paris VII – Denis Diderot.
Sítio 1. Em Bordéus encontrei um texto importante, fruto de um trabalho coletivo da sua Universidade sobre História do Pensamento Económico, em que se faz a síntese da obra de Ricardo, intitulado La pensée systématique: le matérialisme de David Ricardo et de Piero Sraffa.
Trata-se de um texto muito bom, com o senão de se querer meter o Rossio na Rua da Betesga. À parte isso, e tendo presente o que tinha lido na tese de Mathieu-Joffre Lainé sobre os ataques brutais que, intelectualmente, foram movidos contra Ricardo, fiquei incomodado com a frieza ou distância com que era analisado um capítulo da 3ª edição de Princípios, o capítulo sobre as máquinas, uma frieza que contrasta com o interesse que esse mesmo capítulo tem suscitado em muitos dos mais importantes economistas e de todas as épocas. Incomodei-me. Fui então à procura de acontecimentos que nos ligassem à viragem de Ricardo na terceira edição dos Princípios sobre a utilização das máquinas. Encontrei diversos artigos e escolhi um deles que se adequasse ao perfil da nossa série. Escolhi o artigo Os efeitos do progresso técnico: Ricardo, máquinas e emprego, de Geneviève Schmeder, (original aqui) onde se pode ler:
“Ao contrário de Malthus, com quem trocou uma correspondência volumosa sobre a questão das máquinas, Ricardo também argumenta que se o progresso da “economia de trabalho” reduz o valor do capital destinado a pagar aos trabalhadores – em termos monetários ou custos de mão-de-obra esse capital não empregará menos trabalhadores: a qualidade dos bens aumentará e é a quantidade, não o valor do produto, que constitui o fundo salarial e determina a capacidade de empregar trabalho. Tendo os meios materiais para empregar a mesma quantidade de trabalho que antes, os empregadores não deixarão de fazê-lo. Este raciocínio não está apenas de acordo com o de A. Smith, mas também com o de Say no seu tratado [1803] e de J. Mill no Commerce Defended [1808]. Baseia-se no pressuposto duplo implícito de uma relação constante entre o chamado capital “fixo” e o chamado capital “circulante” (coeficientes de produção fixos) e de uma distribuição das poupanças investidas entre cada tipo de capital de acordo com esta proporção, determinada pela relação entre a taxa salarial e a taxa de juro.
Durante vários anos, Ricardo não vai mais longe no seu raciocínio: as máquinas não causam qualquer diminuição na procura de trabalho. É mesmo um fervoroso defensor desta tese no Parlamento. Numa carta a McCulloch, datada de Março de 1820, ele afirma ainda que “o emprego de máquinas (…) nunca diminui a procura de trabalho. Nunca é a causa de uma queda do preço do trabalho, mas o efeito do seu aumento”. Um ano depois, a publicação do capítulo sobre máquinas põe em dúvida a validade geral desta tese e argumenta que a introdução de novas máquinas pode ser prejudicial para os trabalhadores. Para os contemporâneos, esta publicação teve o efeito de uma bomba… (ênfase meu a negrito -JM)
Perguntámo-nos muito sobre esta “reviravolta” do Ricardo. A visão do progresso como fonte de bem geral não era, obviamente, partilhada pelos trabalhadores da época, traumatizados pelo aumento do desemprego e pela queda dos salários agravada pela desmobilização no final das Guerras Napoleónicas. A sua própria visão, expressaram-na através de greves e tumultos, tão duramente reprimidos pelo exército que a opinião pública se comoveu após o terrível massacre de Peterloo, em Manchester [1819].” Quanto ao massacre de Peterloo aqui vos envio um texto onde se mostra que o caminho para a Democracia é um caminho difícil, juncado de mortes, de sangue, de vidas destruídas.” Fim de citação
Este texto sobre o capítulo Sobre as máquinas dos Princípios levou-nos por seu lado ao massacre de Peterloo e ao texto de Robert Poole sobre este massacre da população civil desarmada da região de Manchester, que se manifestava descontente com a situação em que vivia e lutava pela reforma parlamentar. Neste texto de Poole diz-se, e sugiro que estes excertos sejam lidos com cuidado, o seguinte:
“Se essas leis sobre cereais e outras restrições à importação de produtos agrícolas não forem revogadas, e se o sufrágio universal e a eleição anual do Parlamento não forem aprovados para impedir que tais leis sejam votadas novamente, os membros desta Assembleia estão convencidos de que os trabalhadores deste país não serão mais capazes de preservar a sua própria existência; e que se tiverem que morrer, seja de fome ou a defenderem os seus direitos, dificilmente hesitarão antes de escolher a última opção“ (…)
“O povo de Middleton”, relatou-se na época, “decidiu não esperar até 2 de março porque eles dizem que todos morreremos de fome antes disso, mesmo com a ajuda da sopa popular”.
(…)
Este apelo é semelhante ao lançado por aqueles que lideraram as manifestações contra a fome durante a guerra, e que proclamaram “antes enforcados que esfomeados!” Esses revoltados contra a fome exigiam uma justiça superior (e tais tumultos ocorreram recentemente em Manchester, o mais tardar em 1812), que parece ter dado origem à política do pós-guerra de “liberdade ou morte”. Fim de citação.
É neste contexto que dois anos depois sai a bomba escrita por Ricardo sobre as máquinas. Ligue-se este texto de Ricardo sobre as máquinas aos seus textos sobre a problemática das rendas, implicitamente referida pelos manifestantes de Manchester, e percebe-se por que é que as forças dominantes na Inglaterra consideravam politicamente Ricardo como um homem perigoso. Dispensam-se aqui comentários.
Sítio 2. Como a palavra de referência na busca era a renda diferencial, fui parar também ao sítio do professor Christophe Darmangeat, da Universidade Paris VII-Denis Diderot (ver aqui), sítio onde Ricardo é amplamente discutido.
Note-se que se trata de um sítio dedicado a alunos do PRIMEIRO ANO e inscritos na disciplina de ‘Introduction à l’Analyse Économique’. Fiquei maravilhado com o que vi, com as notas fornecidas pelo (s) docente (s) da disciplina aos seus alunos, pela estrutura das aulas práticas, pelos textos de apoio que eram fornecidos aos estudantes, pelas perguntas a que tinham de saber responder. De tal forma fiquei maravilhado que me perguntei a mim próprio se uma tal Universidade ainda existe. Face ao que li neste sítio decidi aproveitar a maioria destes textos e criar um capítulo O na Série dedicada ao Joaquim Feio intitulado: Alguns conceitos fundamentais em economia destinado a quem não estudou economia ou a estudou há muito tempo e de que muitas das coisas aprendidas, se é que as aprenderam, já as terão esquecido. Um capítulo que considero muito útil para a leitura dos textos que verdadeiramente compõem a referida série.
Sugiro a todos os que lerem este texto que visitem o sítio do professor Christophe Darmangeat, que vejam rubrica a rubrica neste seu sítio eletrónico, que vejam os textos propostos para as aulas práticas, travaux dirigés, e vejam item a item a rubrica Ressources diverses, onde constam:
Não darão o vosso tempo por perdido e penso que ficarão a pensar como eu, de que criar uma Faculdade, ou uma Universidade, a sério não é nunca uma operação de marketing, é uma operação que exige um coletivo de esforços, que exige tempo, que exige dedicação, que exige formações longas tanto para docentes como para discentes, o que é incompatível com o presentismo dos dias de hoje. Esta é a mesma lição que a série dedicada ao Joaquim Feio também ela pretende mostrar: que formações longas precisam-se.
Pensem só no trabalho que deu a esta equipa de professores da Diderot a criação destes textos e no tempo gasto para os produzir e organizar da forma que o foram e tirem então as vossas conclusões quanto ao carreirismo que campeia nas nossas Universidades, onde não há nada disto! No quadro de funcionamento das nossas Universidades de agora quanto vale, do ponto de vista curricular, este tipo de trabalho? Há dias dei dois exemplos equivalentes, o exemplo do professor Pinto Barbosa, na Universidade Nova de Lisboa, e de Guido Montani, em Itália. Poderia e deveria citar três exemplos mais próximos de mim, na FEUC, o de Joaquim Feio com as matrizes de Leontief, e os de Margarida Antunes e de Ana Neto com trabalhos de aprofundamento sobre Stuart Mill e Lamfalussy, todos eles trabalhos não habituais nas Universidades portuguesas, porque não eram trabalhos de publicação em revistas de primeira grandeza. Quanto vale tudo isto, cientificamente? Simplesmente, na lógica do antigo reitor João Gabriel Silva ou do atual reitor Amílcar Falcão, este tipo de trabalho vale qualquer coisa como nada, uma vez que para estes últimos só vale o que é publicável em revistas internacionais de primeira linha, simplesmente assim. E os estudantes onde estão em tudo isto? Simplesmente, não estão em nada disto!
Em forma de conclusão desta introdução, tudo isto mostra que esta série tem dado muito trabalho a construir. Mantendo-me fiel à conceção de partida, a sua estrutura tem sido modificada à medida que se foi alargando a minha base de conhecimentos de partida, Foi assim com o conhecimento da luta de Stuart Mill pela utilização da terra como bem comum da Humanidade, foi assim com o sítio do professor Christophe Darmangeat, foi assim com as duas teses de doutoramento apresentadas na Universidade de Laval, foi assim com o trabalho de Marco Piccione e Fabio Ravagnani intitulado Absolute rent and the ‘normal price’ of exhaustible resources e publicado pelo Centro di Ricerca e Documentazione Piero Sraffa da Universidade Roma III, entre outros exemplos.
O trabalho de Marco Piccione e Fabio Ravagnani, um texto de que só tive conhecimento há cerca de um mês e que me levou a considerar na série a Renda como um capítulo especial dentro do espírito da economia clássica, é um texto que eu gostaria de ter escrito, por corresponder à ideia que eu tinha desde há décadas quanto ao conceito de renda absoluta. Gostaria de o ter escrito se tivesse conhecimentos para isso, o que claramente me faltavam: só agora estou a adquiri-los. Dizem-nos estes dois autores:
“Em termos mais gerais, podemos dizer que, em Marx, a renda absoluta é um instrumento institucional que gera a exclusão do acesso aos recursos, de modo a contribuir para a criação da dependência social
O argumento acima parece aplicável não só às economias do tempo de Marx, mas também às economias atuais. Por exemplo, poder-se-ia explicar a reação do governo italiano, nos anos 40, à ocupação de terras devolutas (untitled land) no Sul de Itália (cf. Ginsborg, 1989, cap. 4) em termos da teoria da renda absoluta. De facto, essas terras tinham sido previamente retiradas do mercado precisamente para criar as condições necessárias à imposição de uma renda absoluta. Em suma, a formação desta renda excluiu os trabalhadores do Sul do uso da terra e promoveu a migração para as fábricas do Norte que contribuiu para o crescimento industrial do país nas décadas de 1950 e 1960. Considerada a esta luz, a reação violenta do governo (o massacre de Melissa) não parece ser de modo algum acidental, mas mostra antes que a formação da renda absoluta é essencial para o funcionamento geral da economia.” Fim de citação
Este trabalho de Marco Piccione e Fabio Ravagnani, tal qual o de Geneviève Schmeder Os efeitos do progresso técnico: Ricardo, máquinas e emprego, que me levou a Peterloo, chamou-me a atenção para o massacre de Melissa, na Calábria, 130 anos depois do de Peterloo, uma dramática reprodução que parece ter sido ser feita a papel químico do que se passou em Manchester. Foi tão dramática a situação criada que o senador socialista Pietro Mancini escreveu nessa altura:
“Melissa não é apenas um episódio, não é apenas um holocausto, mas uma explosão, uma chama na qual o socialismo sopra para a renovação de uma terra, que na sua história – do pensamento à ação – dos “Grandes” aos infinitamente pequenos – carrega consigo o peso humano e político de uma aversão a todo o privilégio e a todo o despotismo.”
Pietro Mancini foi ainda mais duro no Senado fazendo um discurso memorável que o Conti Republicano definiu como “musical”: “basta lembrar como os mortos de Melissa foram encontrados cobertos para ter a prova da infinita miséria daqueles trabalhadores. Sem camisa, com casaco e calções cheios de remendos e, em vez de sapatos, pedaços de borracha de roda de carro. Convido-vos a pensar na difícil situação das mulheres trabalhadoras que perderam os traços de feminilidade e da juventude. Jovens nunca foram, aos trinta são velhas, de pele caída; sem interesses de ordem sexual, sujas e descalças. Gostaria de perguntar ao Senhor Deputado De Gasperi, pró-europeu, em que parte da sua Europa alguma vez viu mulheres assim, mulheres descalças […].”
Sublinho que tudo isto vem a propósito da renda absoluta, da sua ausência em Ricardo, da sua presença em Marx, mesmo que não seja muito clara a sua inserção no quadro da teoria do valor e da dinâmica da reprodução capitalista, da sua modelização, sofisticadíssima, de Sraffa, para chegarmos à violência organizada pelo Estado, seja em Peterloo, seja em Melissa, em Portella della Ginestra, em Torremaggiore em 29 de novembro de 1949, e, porque não, em Baleizão, com a morte de Catarina Eufémia. Ficámos a saber com os textos sobre Peterloo e sobre a Calábria que mulheres como Catarina Eufémia houve muitas e haverá muitas mais e por causa do direito de propriedade, o direito de propriedade à não cultura das terras que é a substância da renda absoluta [3].
Num trabalho que iremos publicar sobre Melissa pode-se ler:
“Os acontecimentos de Melissa levaram De Gasperi e o governo a elaborar, aprovar e promulgar as várias leis de reforma agrária que, apesar das suas limitações e ineficiências, contribuíram para a superação do velho mundo rural, ainda dominante no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, e infligiram um golpe mortal ao latifúndio meridional. É preciso não esquecer que o líder democrata-cristão era o Primeiro-Ministro mais empenhado no Mezzogiorno e na resolução dos seus problemas.
As medidas de reforma poderiam ter conduzido à resolução definitiva da questão meridional e representavam uma oportunidade histórica de superação e de aproximação entre as duas zonas do país. O contexto histórico e político da época, caracterizado pela Guerra Fria, pela lógica dos dois blocos opostos e pelas fortes divergências políticas entre os partidos italianos, impediu que os atores políticos alcançassem uma convergência comum que garantisse uma resposta adequada capaz de realizar a redenção e a renovação da Itália meridional.
Melissa foi o culminar de uma longa série de massacres ocorridos nas regiões meridionais após a Segunda Guerra Mundial, que começou com o massacre de Portella della Ginestra, em 1 de maio de 1947, e terminou, mais de vinte anos depois, com as mortes de Avola, em 2 de dezembro de 1968, e as de Battipaglia, em 9 de abril de 1969, que devem ser consideradas como os últimos massacres de camponeses no Sul de Itália.” Fim de citação
É, portanto, e contra o que tínhamos inicialmente pensado, com trabalhos sobre a realidade que se vivia na Calábria nos anos 40 e até 60 que iremos terminar esta série de textos dedicados ao Joaquim Feio e dessa realidade tomaremos como referência as escolas primárias degradadas da Calábria, às quais um jornalista chamou de “escolas impossíveis”.
Sobre uma dessas escolas uma fotografia e o que escreveu sobre ela o jornalista que a tirou:
Entre os bancos de madeira estão sentadas seis raparigas, quatro à frente do fotógrafo, duas ao lado. Todos estão empenhados e absortos nos seus pensamentos, quase ocupados à procura de algo oculto e profundo. Ninguém olha para a lente da máquina fotográfica, todos parecem atraídos pelas figuras e pela escrita; uma menina na segunda fila parece estar a olhar para algo inexpugnável. Outra tem um toucado de lã na cabeça, que deixa o cabelo de fora. As tábuas de madeira partidas deixam claro que estamos num ambiente antigo e precário. Pendurado na parede à esquerda da moldura, o mapa geográfico rasgado da Calábria. Duas das meninas têm os pés descalços, tentando aquecer-se nos dois braseiros de chapa de metal nas laterais dos bancos da carteira em que se pode ver as cinzas e o carvão. “Vito Teti: o sentido dos lugares: memória e história dos países abandonados. Roma: Donzelli 2004, p. 22
Estamos em 1949. Em 49 eu estava na escola primária, em 49 também eu também andava descalço. Lembro-me ainda da noite em que morreu o meu avô, um pastor de profissão. Morava a menos de 100 metros de minha casa. Desci a minha rua e passo, tinha de passar, perto do forno comunitário. Ao lado estava um carregamento de mato, esteva, carqueja, silvas. Ia descalço, simplesmente não tinha sapatos. Piquei-me com os picos das silvas. Sentei-me no chão, no lado oposto, na rua do Ribeiro. Tirei os picos. Não os tirei todos, não os via nem sentia os que eram mais finos. Quando quis andar, impossível, dada a dor, comecei a chorar. Alguém passou e ajudou-me. Tinha oito a nove anos. Remédio santo; alguns dias depois, o meu pai comprou-me um par de botas e botas porque estas duravam mais tempo!
Olho para as fotos tiradas nas escolas da Calábria, sinto arrepios. Comentei esse trabalho fotográfico com um antigo aluno meu, que fez a escola primária em Fornos de Algodres-Celorico e este diz-me que na escola dele, uma escola bem melhor do que as de Calábria, se vivia da boa vontade do dono de uma serração perto onde os alunos iam com uma braseira buscar brasas para se aquecerem, um pouco como estes meninos da Calábria, em que alguns até as traziam de casa.
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Aqui deixo, pois, a composição das áreas temáticas da série a publicar:
Capítulo 0: Alguns conceitos fundamentais em economia
Capítulo 1: Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos Neo-ricardianos
Capítulo 2: De Sraffa à necessidade de uma rutura com o pensamento económico dominante. As grandes questões da macroeconomia
Capítulo 3: Das harmonias universais decretadas pela Escola de Chicago à violência das crises atuais – Reflexões sobre os Nobel ou nobelizáveis da Escola de Chicago
Capítulo 4: A quem servem os modelos de macroeconomia e os impasses da esquerda americana atual
Capítulo 5: Da teoria da renda diferencial de Ricardo à violência da renda absoluta de Marx
Notas
[1] Sobre Marx e Keynes, veja-se ainda Michael Roberts (aqui, aqui e aqui)
[2] 1 D3/12/04/17 (em pasta datada do fim de Novembro de 1927).
[3] Pelo que li, do ponto de vista dos latifúndios o sul de Itália não seria muito diferente do que era o Alentejo naqueles tempos.



