Nunca será demais relembrar um cidadão que lutou contra a ditadura como Urbano Tavares Rodrigues, nascido precisamente há 100 anos (6/12/1923), e que nos legou uma obra literária que não deve cair no esquecimento. Depois da licenciatura na Faculdade de Letras de Lisboa, leccionou em França entre 1949 e 1955. Regressado a Portugal, e porque apoiou publicamente a candidatura de Umberto Delgado em 1958, foi impedido de ensinar no país, trabalhando então como jornalista no “Diário de Lisboa” e no “República”, de boa memória. Só foi integrado como professor na Faculdade de Letras de Lisboa depois de 1974, por proposta de Luís Filipe Lindley Cintra. Entretanto, sabemo-lo envolvido na chamada “Revolta da Sé” (1959) e no “assalto ao quartel de Beja” (1962), conhecendo a seguir a prisão política.
A sua obra literária é multifacetada, com vantagem para a narrativa breve, de que foi exímio cultor (de que é exemplo o livro Estórias Alentejanas, de 1977, ou a colectânea A Estação Dourada, de 2003, onde se reúnem vinte e uma narrativas sobre a realidade contemporânea), mas nunca será inútil recordar sobretudo os muitos romances, desde Uma Pedrada no Charco (1957), Bastardos do Sol (1959), Os Insubmissos (1961) ou As Pombas São Vermelhas (1977), a justificar a síntese do crítico Fernando Pinto do Amaral: «Autor muito prolífico e sempre atento à evolução da sociedade portuguesa, UTR partilha ainda com o neorrealismo evidentes afinidades ideológicas (…) mas inscreve-se já no quadro do existencialismo pela atenção que presta à interioridade de cada uma das personagens», apreciação certamente devida ao facto de a obra de Urbano se caracterizar por uma perspectiva intimista, em que o “eu” está sempre presente, e por uma temática que desagua frequentemente num erotismo que quase se lhe colou como referência.
A sua obra como ensaísta não é menos interessante, incluindo o seu contributo como teorizador literário: O Mito de D. Juan (1960) e Ensaios de Escreviver (1971), depois fundidos em O Mito de D. Juan e Outros Ensaios de Escreviver (2005), para além de O Texto Sobre o Texto (2001) ou A Natureza do Acto Criador (2011), tudo ensaios fundamentais para os estudiosos de literatura. Enfim, uma vida dedicada à cidadania em tempos difíceis e à escrita de inúmeras obras que vale a pena (re)ler pelo mero prazer da leitura que, por sua vez e no caso específico, conduz â reflexão sobre a evolução do gosto, dos tabus (amor e sexo) ou do sentido de justiça na sociedade portuguesa