“O comum é mais do que o público, na medida em que assenta necessariamente num esforço de partilha, de participação e de decisão coletiva. Não é unificação a partir de um qualquer imaginário do mundo, seja nacional ou outro, mas antes abertura a práticas de colaboração e de cooperação”
António Sampaio da Nóvoa
As palavras acima foram tiradas de um artigo assinado por este catedrático em Ciências da Educação, História Moderna e Contemporânea, publicado no jornal ‘Setenta e quatro’, em Outubro passado. E se me sirvo do tema para a Carta de hoje, é porque, diz até o professor, ‘Chegou o tempo de assumir a educação como um bem comum, como um espaço público comum… A escola promove um processo de homogeneização cultural que tem como justificação a necessidade de construir uma cidadania nacional. O povo precisa da instrução para ganhar a cidadania. Basta lembrar que os analfabetos foram, durante muito tempo, impedidos de votar’.
Estamos a atravessar e a penar tempos complicados e, escreve Sampaio da Nóvoa, ‘Volto-me para um dos últimos relatórios da Unesco, no qual a educação é apresentada como um bem comum mundial, “Numa perspetiva de bem comum, não é apenas a vida harmoniosa dos indivíduos que importa, mas também a harmonia da vida que os seres humanos têm em comum”’,
Talvez porque, neste nosso tempo, a crise que bem se nota na educação, está a originar –uma degradação do ambiente em muitos estabelecimentos de ensino, do primário ao superior– também já salientada por alguns professores com responsabilidades no sistema, apontando mesmo para a impreparação técnica, desconhecimento de dossiers e incultura. Mas o artigo termina assim, ‘A educação não pode tudo. Nunca pôde. Nunca poderá. Mas não temos o direito de desperdiçar nenhuma oportunidade para combater a barbárie e a fragmentação do mundo. Se não for através da educação e do conhecimento, como será?’
Uma pergunta de resposta muito complicada, mas escrita talvez esteja no Relatório Delors para a UNESCO, sobre a educação para o século XXI, apesar de datado em 1996, por ali se referirem os ‘Quatro pilares da educação’, tão só as quatro aprendizagens, que cada um deveria assumir como seus durante toda a vida, por serem também e, ao mesmo tempo, os quatro pilares do conhecimento –Aprender a conhecer, Aprender a fazer, Aprender a viver em conjunto e Aprender a ser–, no fundo e apenas, aprender que a vida não passa de um somatório de múltiplos pontos de contacto –coincidência, permuta e partilha– que, aplicados em permanência, se transformam num só, ‘Educação ao longo da vida’.
É óbvio e nota-se bem, como ‘Uma sociedade que não dá aos adolescentes e aos jovens, uma educação com valores de acordo com as mudanças sociais e o andar do tempo, acelerados por uma tecnologia que globaliza padrões de conduta, e simplifica o acesso a todo o tipo de conteúdos, leva ao descrédito do sistema em que não exista um pacto de estado sobre a educação, que só a vai converter num permanente campo de batalha ideológico’.
A afirmação é de Sainz de Medrano, catedrático em Ciências da Comunicação e jornalista, salientando ainda a ausência de ensino sobre valores da convivência, bem como da relação com ‘O outro’, tanto sobre a desigualdade como sobre a liberdade de expressão.
Javier Andújar, escritor e jornalista, refere esta situação aqui ao lado –e merece que se medite bem– ‘Quando, começaram a chamar Ciências Sociais à História, a História teve de procurar um refúgio onde continuasse a existir, encontrou-o nas recordações; então começaram a chamar Memória às recordações, também elas se viram relegadas e, assim, principiaram a desvirtuar-se. Agora, em vez de recordações, temos Hemeroteca, mas não serve para nada, pois abolimos a História, dia atrás dia’.
O professor, poeta e crítico literário António Carlos Cortez, numa das suas crónicas habituais no DN, refere também o que se passa por cá, ‘Só os governantes é que ignoram o óbvio: as sucessivas reformas – com a diluição de disciplinas como História, Filosofia e Literatura “as que exigem a escrita reflexiva!” – são a raiz da nossa degradação social. Os resultados do PISA espelham bem cinco causas da nossa decadência acelerada – Portugal tem o 29º resultado (em trinta países!) em Matemática; tem o último lugar na literacia científica e ocupa o 24º lugar no que respeita à leitura’.
Talvez por isso, um lamento do conhecido jornalista do ‘Financial Times’, Martin Wolf, ao DN, ‘Uma das coisas que aprendi nos últimos 40 ou 50 anos de trabalho é que nós tendemos a repetir os erros dos nossos avós e dos nossos bisavós porque não nos lembramos desses tempos que eles viveram’.
Quem se poderá interessar, hoje e agora, por estas coisas?
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor