Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte A: Texto 7 – “Excertos sobre o Valor. Introdução ao Principles de David Ricardo” — ANEXO: sobre Piero Sraffa

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

Parte A: Texto 7 – Excertos sobre o Valor. Introdução ao Principles de David Ricardo. ANEXO: sobre Piero Sraffa

  Piero Sraffa

Piero Sraffa [1898-1983] foi um economista italiano. Licenciou-se em Jurisprudência na Universidade de Turim, estudou na London School of Economics, tendo conhecido Keynes em 1921 em Cambridge. Em 1922 foi nomeado professor de economia política em Perugia e depois em Cagliari. Neste período estabeleceu amizade com Antonio Gramsci, o principal dirigente do partido comunista italiano. Em 1927 Keynes convidou-o para a universidade de Cambridge onde obteve um cargo de docente e posteriormente um posto de bibliotecário.

Luigi Pasinetti com base nos manuscritos não publicados de Sraffa, identificou cinco fases no seu trabalho em Cambridge:

– 1928-1931: investigações sobre a história das teorias económicas, com o propósito de recuperar a economia “razoável” dos clássicos, Marx em primeiro lugar, e de descartar a economia “aberrante” dos marginalistas; intenções de trabalhar num livro análogo ao que deveria ter sido o Capital de Marx, incluindo a teoria da mais-valia, mas evitando o risco de “terminar como Marx”, que primeiro expôs a teoria, mas não conseguiu completar a parte histórica e justamente por isso “não conseguiu fazer-se entender”; Sraffa pretendia expor primeiro a história e depois a teoria, “para o que é necessário que eu vá direito ao desconhecido, de Marshall a Marx, da inutilidade ao custo material”; primeira elaboração das suas equações sem excedente;

– 1931-1940: edição das obras de Ricardo; quase prontas para impressão, não foram publicadas ou porque faltava a “Introdução” (que Sraffa escreveu mais tarde), ou porque foram descobertos novos documentos, entre eles todas as cartas de Ricardo a James Mill;

– 1941-1945: crítica da economia marginalista, em particular da teoria da produção e da distribuição, da teoria do valor (dos preços), da teoria da utilidade marginal e da teoria do juro como prémio à abstinência; elaboração das suas equações com excedente;

– 1946-1955: publicação dos dez primeiros volumes das obras de Ricardo (o décimo primeiro, que continha os índices, foi publicado em 1973);

– 1955-1960: preparação do livro Produção de mercadorias por através de mercadorias como mera “premissa para uma crítica da economia política”; o projeto original era demasiado vasto: da parte histórica só restou um apêndice de poucas páginas intitulado “Nota sobre as fontes” e anuncia-se no prefácio que a crítica verdadeira e própria se tentará “mais tarde, pelo autor ou por alguém mais jovem e melhor preparado para o empreendimento“.

 

O seu livro Produção de Mercadorias através de Mercadorias está considerado como a refundação da escola clássica de economia. Foi um dos reavaliadores da obra de David Ricardo, tendo editado as obras completas de Ricardo. O seu pensamento económico pode ser caracterizado como neo-ricardiano. O seu livro generaliza de forma rigorosa a Teoria clássica do Valor, desenvolvida originalmente por David Ricardo e Karl Marx. Sraffa contribuiu significativamente (embora sem tratar diretamente do tema) para a análise marxista, ao elaborar uma crítica consistente da teoria marginalista e ao elucidar alguns problemas mal-resolvidos (ou não-resolvidos) por Marx, tais como a transformação do valor em preço. Com esta obra propôs-se lançar as bases teóricas para uma crítica da escola económica predominante na sua época, e triunfante hoje em dia, a escola marginalista ou neoclássica, e aperfeiçoar a teoria clássica do valor desenvolvida principalmente por Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx.

Nesta obra, que se converteu numa pedra angular da história do pensamento económico, Sraffa elaborou um modelo linear de produção no qual é possível determinar a estrutura dos preços relativos e uma das duas variáveis distributivas (a taxa de lucros ou de salários), sendo dada externamente a outra variável e a tecnologia, representada pelas quantidades físicas dos bens individuais necessários para produzir as diversas mercadorias com os produtos relativos. Mostrando assim, como o excedente físico é distribuído, pelo mecanismo dos preços de produção.

A determinação simultânea implica que o valor do capital utilizado só pode ser conhecido juntamente com os preços das mercadorias de que é constituído. Deste modo, as teorias que partem de valores dados dos fatores de produção e explicam os preços mediante a remuneração dos fatores com base na sua produtividade marginal tornam-se incompatíveis com o sistema de Sraffa. Mas o resultado mais importante é que, se o sistema possui mais de uma mercadoria, a análise marginal torna-se autocontraditória na definição do fator capital se for independente da distribuição de renda.

Em relação à matemática, é notável destacar como Sraffa no seu livro não agradece a nenhum economista em especial, por ter recebido alguma ajuda, mas apenas a matemáticos. E o notável é que, como nos conta Pasinetti em Sraffa e a matemática: desconfiança e necessidade, na construção da mercadoria tipo ou padrão o seu amigo matemático Abram Besicovitch dizia a Sraffa que matematicamente o sistema de equações proposto por ele Sraffa, podia ter muitas ou nenhuma solução. Sraffa, no entanto, seguindo a lógica económica, argumenta perseverante que a solução é única. No final, após um ano de discussão, o próprio Besicovitch convenceu-se de que Sraffa estava certo. É na verdade um exemplo notável da resistência de Sraffa em se deixar levar por caminhos de pura razão matemática. Mas também deve ser notado que é um exemplo incomum do que acontece na relação matemática e economia.

Este dispositivo analítico também foi utilizado pelos seguidores de Sraffa para criticar, outros diriam complementar, a teoria do valor de Karl Marx e para apresentar, uma, de muitas soluções, para o “problema da transformação dos valores em preços de produção”. O próprio Sraffa tomou de autores como Bortkiewicz e Dmitriev, (deste último, Sraffa era o único possuidor de uma tradução do russo em toda a Europa) as contribuições para explicar Ricardo sem a deformação dos seus continuadores. Os conceitos de bens básicos e não básicos provêm do desenvolvimento posterior por parte de Sraffa da formalização de Bortkiewicz tão discutida desde a sua aparição no livro de Sweezy, “Teoria do desenvolvimento capitalista”. Enquanto de Dmitriev pode ser observado no seu trabalho de 1960 uma contribuição formal na construção da mercadoria tipo ou padrão. Sraffa teve amizade com Antonio Gramsci, e a sua formação como economista na Itália deu-lhe a possibilidade de encontrar um mundo de diferenças quando chegou a Cambridge – no seu exílio – e levar a cabo a sua crítica ao marginalismo, que para ele era uma aberração dos conteúdos dos clássicos e não apenas um erro interpretativo – primeiro nos anos 20 à mediação de Marshall de Ricardo, e depois às interpretações de concorrência imperfeita e de equilíbrio geral. Na sua obra principal “Produção de mercadorias…” tenta-se, segundo palavras do próprio Sraffa:

“É necessário voltar à política económica dos fisiocratas, Smith, Ricardo e Marx. E deve-se proceder em duas direções: i) purgar a teoria de todas as dificuldades e incongruências que os economistas clássicos não foram capazes de superar, e ii) seguir e desenvolver a relevante e verdadeira teoria económica como se veio desenvolvendo desde Petty, Cantillon, os fisiocratas, Smith, Ricardo, Marx. Esse fluxo natural e consistente de ideias foi subitamente interrompido e enterrado debaixo de tudo, invadido, submerso e arrastado com a força de uma onda marítima de economia marginal. Deve ser resgatado.”

Portanto, o intento de Sraffa é retomar desde os clássicos e Marx, e não romper com Marx, como outros diriam.

(fonte, Wikipedia aqui)

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