Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
15 min de leitura
Parte A: Texto 8 – Valor de troca, Valor absoluto (versão posterior – inacabada)
Fonte: The Works and Correspondence of David Ricardo, editado por Piero Sraffa com a colaboração de M.H. Dobb, volume IV. Pamphlets and Papers, 1815-1823, editado por Liberty Fund Inc. (original aqui, pág 21 e aqui , pág 399)
Obra publicada pela primeira vez pela Cambridge University Press em 1951.
Valor de Troca
Por valor de troca entende-se o poder que uma mercadoria tem de comprar uma dada quantidade de outra mercadoria, sem qualquer referência ao seu valor absoluto. Deveríamos dizer que uma onça de ouro tinha aumentado em valor de troca em relação ao tecido se, valendo normalmente dois metros de tecido no mercado, ela passasse a valer três metros do mesmo tecido: e pela mesma razão deveríamos, nas mesmas circunstâncias, dizer que o valor de troca do tecido tinha diminuído em relação ao ouro, uma vez que três metros se tinham tornado necessários para comprar a mesma quantidade de ouro que anteriormente era possível comprar com dois metros do mesmo tecido. Qualquer mercadoria com valor terá a sua medida em termos de valor de troca, pois o valor de troca e o valor proporcional significam a mesma coisa. Ao sabermos que uma onça de ouro irá em dada altura ser trocada por dois metros de tecido, dez metros de linho, cem unidades de peso de açúcar, um alqueire de trigo, três alqueires de aveia, etc, etc, ficamos a conhecer o valor proporcional de todas estas mercadorias e podemos dizer que um metro de tecido vale cinco metros de linho e um alqueire de trigo vale três vezes o valor de um alqueire de aveia.
Valor Absoluto [1]
Todas as medidas de comprimento são medidas de comprimento absoluto bem como de comprimento relativo. Assumindo que é possível reduzir ou aumentar o comprimento de uma peça de linho ou de tecido, medindo-os em momentos diferentes com uma régua que, por si só, não é suscetível de se contrair ou alargar, deveremos ser capazes de determinar uma alteração no seu comprimento. Se, numa dada altura, o tecido media 200 metros e noutra altura 202, deveremos dizer que o comprimento do tecido tinha aumentado 1 por cento. Se aumentarmos 100 metros de linho para 103 metros, devemos dizer que o comprimento do linho aumentou 3%, mas não devemos dizer que a medida do metro padrão tinha diminuído em comprimento por ter passado a expressar uma proporção menor do comprimento do tecido e de linho. A alteração estaria realmente no tecido e no linho e não na medida do metro padrão. Da mesma forma, se tivéssemos uma medida perfeita de valor que não fosse ela própria suscetível de aumentar ou diminuir de valor, deveríamos ser capazes de verificar, por seu intermédio, a variação real, bem como a variação proporcional noutras coisas e nunca deveríamos atribuir a variação de uma mercadoria como sendo devida à própria mercadoria pela qual foi medida. Assim, no caso anterior, quando uma onça de ouro foi trocada por dois metros de tecido e depois trocada por três, se o ouro fosse uma medida perfeita de valor não deveríamos dizer que o ouro tinha aumentado de valor porque se trocaria por mais tecido mas que o tecido tinha diminuído de valor porque se trocaria por menos ouro. E se o ouro fosse suscetível de todas as variações das outras mercadorias, poderíamos, se conhecêssemos as leis que tornam perfeita uma medida de valor, fixar-nos numa mercadoria que preenchesse todas as condições para ser uma boa medida do valor, através da qual corrigiríamos as variações aparentes das outras coisas, e, assim, verificarmos se o ouro ou o tecido, ou ambos os produtos, tinham variado em valor real; ou, então, na falta de uma tal mercadoria, poderíamos corrigir a medida escolhida tendo em conta o possível efeito das causas que anteriormente tínhamos constatado que agem sobre o valor.
Há muitos economistas de Política Económica que afirmam que há efetivamente uma medida de valor absoluto, que não reside numa qualquer mercadoria única, mas no conjunto de todas as mercadorias. Se quiséssemos verificar se, no caso exposto do tecido e do ouro, a variação tinha ocorrido num ou noutro, poderíamos verificá-la imediatamente comparando-os alternadamente com numerosas outras mercadorias e, se o ouro conservasse a mesma relação que antes com estas mercadorias, então o tecido teria variado, mas se o tecido permanecesse como antes, poderíamos concluir com segurança que o ouro tinha variado.
Esta medida poderia ser correta em muitas situações, mas suponhamos que numa tal comparação, descobríamos que, em relação a um grande número dessas mercadorias o ouro tinha mudado de valor e que em relação a outro grande número de mercadorias não tinha alterado o seu valor, mas o tecido tinha alterado o seu valor; como poderíamos determinar se foi o tecido ou o ouro que tinha alterado o seu valor? Suponhamos ainda que, em relação a um qualquer conjunto de vinte ou trinta produtos com os quais fizermos as comparações, os resultados forem os mesmos, como podemos saber que as mercadorias com as quais fizemos as comparações não se alteraram elas próprias em valor? Se se admitir que o valor absoluto de uma mercadoria pode variar, deve admitir-se que pode também ser o caso de 2, 3, 100, ou mesmo um milhão e, então, como poderei dizer com certeza se a tal mercadoria ou o milhão delas tinha variado.
Não pode haver nenhuma medida infalível, seja de comprimento, de peso, de tempo, ou de valor, a menos que haja algum objeto na natureza ao qual a própria medida padrão possa ser referenciada e através da qual seja possível verificar se preserva o seu carácter de invariabilidade, pois, é absolutamente evidente que a invariabilidade é o critério absoluto para ser considerada uma medida padrão. Se tivermos quaisquer dúvidas quanto à uniformidade da nossa medida de comprimento, o metro padrão, por exemplo, podemos referenciá-lo a uma parte do arco do meridiano ou às vibrações do Pêndulo em determinadas circunstâncias e, por este meio, podemos corrigir quaisquer variações acidentais. Se tivermos dúvidas quanto aos nossos relógios de parede ou de pulso, regulamo-los pela revolução diária da terra à volta do seu eixo e, por análises semelhantes, seremos capazes de corrigir as nossas medidas de peso e as nossas medidas de capacidade, mas, a que padrão nos devemos referenciar para a correção da nossa medida de valor? Já se disse que não deixa de haver um padrão na natureza ao qual nos poderíamos referenciar para a correção de erros e desvios na nossa medida de valor, da mesma forma que nas outras medidas que mencionei, e que tal padrão consiste no trabalho humano. A média da força de trabalho do conjunto de mil ou de dez mil homens, como se diz, é sempre praticamente a mesma, então porque não fazer do trabalho humano a unidade ou padrão de medida do valor? Se tivermos uma qualquer mercadoria que requer sempre a mesma quantidade de trabalho na sua produção, essa mercadoria deve ter um valor constante e encontra-se eminentemente bem qualificada para medir o valor de todas as outras coisas. E se não tivermos uma qualquer dessas mercadorias, ainda assim não estamos desprovidos dos meios para medir com precisão o valor absoluto de outras coisas porque, corrigindo a nossa medida e tendo em conta a maior ou menor quantidade de trabalho necessária para a sua produção, teremos sempre os meios de referenciar a um padrão infalível e invariável todas as mercadorias cujo valor desejamos medir. Se este método fosse adotado, há quem afirme que cada mercadoria teria um valor correspondente à quantidade de trabalho necessária para a sua produção, – e que, se uma quantidade de camarões exigisse o trabalho de dez homens durante um dia, uma quantidade de tecido o trabalho de dez homens durante um ano e uma quantidade de vinho exigisse a aplicação do trabalho de dez homens durante dois anos, o valor do tecido seria 365 vezes o dos camarões e o valor do vinho seria o dobro do valor do tecido. Afirma-se ainda que se uma mercadoria, como o tecido, que fosse produzido há 20 anos, exigisse a mão-de-obra de 10 homens durante um ano e agora exige a mão-de-obra de 12 homens durante o mesmo tempo, o tecido teria aumentado um quinto ou vinte por cento em valor e que, de facto, seria trocada no mercado por mais um quinto de uma outra mercadoria em cuja produção a mesma quantidade de mão-de-obra tinha sido uniformemente empregada.
De todas as medidas-padrão até agora propostas, esta parece ser a melhor, mas está longe de ser perfeita. Em primeiro lugar, não é verdade que o tecido produzido nas circunstâncias expostas seria precisamente 365 vezes o valor dos camarões, porque a este valor, se os lucros fossem de 10 por cento, seria necessário acrescentar 10 por cento relativos a todos os adiantamentos empatados durante o tempo de produção antes de a mercadoria ser colocada no mercado. Também não seria verdade que o vinho valesse apenas o dobro do valor do tecido, uma vez que o fabricante do tecido só teria direito aos lucros de um ano enquanto o comerciante do vinho direito aos lucros de dois anos. Em segundo lugar, se os lucros caíssem de 10 por cento para 5 por cento, as proporções entre o valor do vinho, do tecido e dos camarões alterar-se-iam em conformidade, embora não se verificasse qualquer alteração na quantidade de mão-de-obra necessária para produzir estas mercadorias, respetivamente. Então, qual destas mercadorias deveríamos utilizar para o nosso padrão? Todas elas seriam infalíveis, se a quantidade de mão-de-obra utilizada na sua produção fosse o único critério de valor e, mesmo assim, vemos que sem qualquer alteração na quantidade de trabalho utilizada, todas elas variam umas em relação às outras. Se selecionássemos o tecido, quando os lucros caíssem para 5 por cento, os camarões subiriam de valor, e o valor do vinho desceria. Se selecionássemos o vinho, os camarões subiriam muito consideravelmente e o tecido subiria ligeiramente; se selecionássemos os camarões, tanto o vinho como o tecido desceriam consideravelmente, mas desceria mais o vinho do que o tecido.
Se todas as mercadorias fossem produzidas apenas por mão-de-obra, sem quaisquer adiantamentos empatados na sua produção e fossem colocadas no mercado num dia, então teríamos, de facto, uma medida uniforme de valor, e qualquer mercadoria que exigisse sempre a mesma quantidade de trabalho na sua produção seria uma medida tão perfeita de valor como um metro é uma medida perfeita de comprimento, ou uma libra uma medida perfeita de peso.
Ou, se todas as mercadorias fossem produzidas somente pelo trabalho utilizado na sua produção durante um ano, então também qualquer mercadoria que exigisse sempre a mesma quantidade de trabalho seria uma medida perfeita.
Ou, se todas fossem produzidas em dois anos, o mesmo seria igualmente verdade, mas, embora as mercadorias sejam produzidas nas mais variadas circunstâncias no que diz respeito ao momento em que são introduzidas no mercado, não variarão apenas devido à maior ou menor quantidade de trabalho necessária para as produzir, mas também devido à maior ou menor proporção do produto acabado que pode ser paga ao trabalhador, conforme a mão-de-obra seja abundante ou escassa, ou conforme os meios de subsistência do trabalhador se tornam mais difíceis de produzir, que é a única causa da variação dos lucros. Uma mercadoria produzida apenas pelo trabalho num só dia não é afetada em nada por uma variação nos lucros, e uma mercadoria produzida num ano é menos afetada por uma variação nos lucros do que uma mercadoria produzida em dois.
Parece então que qualquer mercadoria produzida sempre pela mesma quantidade de mão-de-obra, quer empregada num dia, num mês, num ano ou num qualquer número de anos, é uma medida perfeita de valor se as proporções em que as mercadorias são repartidas por salários e lucros forem sempre iguais, mas não pode haver uma medida perfeita das variações no valor das mercadorias que sejam resultantes de uma alteração nessas proporções, uma vez que as próprias proporções diferem consoante a mercadoria utilizada como unidade de medida seja produzida num período de tempo mais curto ou mais longo.
Deve então confessar-se que não existe tal coisa na natureza como uma medida perfeita de valor e que tudo o que resta ao economista de Política Económica é admitir que a grande causa da variação das mercadorias é a maior ou menor quantidade de mão-de-obra que pode ser necessária para as produzir, mas que existe também outra causa, embora muito menos poderosa, da sua variação que resulta das diferentes proporções em que os produtos acabados podem ser repartidas entre o patrão e o trabalhador, em consequência, quer da melhoria ou deterioração das condições do trabalhador, quer da maior dificuldade ou facilidade de produzir os elementos necessários à sua subsistência.
Mas, embora não possamos ter uma medida perfeita de valor [,] não será que alguma das medidas produzidas pela mão-de-obra possa ser melhor do que outras e que, ao escolhermos entre todas as medidas reconhecidas como imperfeitas, qual a que deveríamos selecionar: [,] uma que é produzida apenas pelo trabalho ou uma que é produzida pelo trabalho utilizado durante um determinado período, digamos um ano?
Parece-me muito claro que devemos utilizar uma medida produzida pelo trabalho utilizado durante um certo período de tempo e que pressuponha sempre um adiantamento empatado em capital, porque:
(a) Será uma medida perfeita para avaliar todas as mercadorias produzidas em circunstâncias de tempo idênticas às dela própria;
(b) porque são de longe em maior número as mercadorias objeto de troca que são produzidas pela conjugação do capital e do trabalho, ou seja, do trabalho utilizado durante um certo tempo;
(c) porque uma mercadoria produzida pelo trabalho durante um ano é uma média entre extremos: por um lado, o extremo das mercadorias produzidas pelo trabalho e adiantamentos durante muito mais tempo do que um ano e, por outro lado, o extremo das mercadorias produzidas por mão-de-obra empregada apenas durante um dia sem quaisquer adiantamentos; e a média destes extremos dará, na maioria dos casos, um desvio muito menor em relação à realidade do que se qualquer um daqueles extremos fosse utilizado como medida. Suponhamos que uma certa quantidade de prata seja produzida precisamente no mesmo tempo que leva a produzir uma certa quantidade de milho, essa seria a medida proposta por mim, desde que fosse necessária a mesma quantidade constante de mão-de-obra para a sua produção, ou, se não fosse o caso, na condição de se ter em conta a alteração do valor da própria medida em consequência da sua necessidade de mais ou menos mão-de-obra para a sua obtenção. A circunstância de esta medida ser produzida no mesmo período de tempo que o milho e a maioria dos outros alimentos vegetais que constituem, de longe, o tipo de artigo mais utilizado no consumo diário, decidir-me-ia a dar-lhe a preferência.
O Sr.Malthus propõe uma outra medida: ele faz a asserção de que, se uma certa quantidade de prata fosse extraída pelo trabalho de um dia e que, fosse qual fosse a quantidade extraída de forma constante, essa seria no seu entender, não só a melhor mas a medida mais perfeita de valor. Assim, considera que um homem poderia, em cada dia de trabalho, extrair sempre uma quantidade de prata equivalente a 2 xelins e 2 xelins teria o mesmo valor daquela quantidade de prata e, no entender do Sr. Malthus, uma ou outra seria uma perfeita medida de valor.
Ora, que isto não pode ser uma medida perfeita de valor torna-se evidente a partir das observações anteriores, mas é curioso que o próprio Sr. Malthus, após o reconhecimento do seu erro, continue a atribuir-lhe essa mesma característica. O Sr. Malthus reconhece que, se todas as mercadorias fossem produzidas pela utilização conjunta de capital e de trabalho, no mesmo período de tempo em que se produz o milho [,], quer o milho, requerendo sempre a mesma quantidade de trabalho, quer o ouro produzido nas mesmas circunstâncias que o milho, seria uma medida perfeita de valor. O Sr.Malthus admite então que, para uma numerosa classe de mercadorias, a medida proposta por mim é uma medida perfeita, e que seria perfeita para todas as mercadorias na situação que acabei de descrever. Então, deixem-me supor que o milho, o tecido, o ouro e várias outras mercadorias são produzidas no mesmo período de tempo, e que o ouro é a medida, a qual é produzida sempre com a mesma quantidade de mão-de-obra. Deixem-me também supor que a mão-de-obra se torna escassa e que é universalmente paga por uma proporção maior do produto acabado; será que o milho ou o tecido aumentam de preço? Irão ser estes produtos trocados por mais ouro, a medida geral? O Sr. Malthus admitiu e admitirá que não, porque este aumento de salários afetará todos igualmente, deixando-os, portanto, na mesma situação relativa de uns em relação aos outros. Se os trabalhadores na agricultura receberem como salários ¾ do que produzem, em vez de metade, os trabalhadores nas minas de ouro e nas fábricas de vestuário farão o mesmo e, consequentemente, os preços destes produtos, o seu valor nesta medida perfeita (nas circunstâncias referidas) permanecerá inalterado.
Agora suponha-se a hipótese do Sr. Malthus de que a prata obtida pelo trabalho de um dia seja a medida de valor; será que o milho e o tecido, na hipótese anterior de que uma proporção maior de todo o produto passa a ser paga ao trabalhador, permanecerão com o mesmo valor? Certamente que não, uma vez que cada alqueire de milho equivalerá a menos trabalho, logo a menos prata da referida pelo Sr. Malthus, e, por conseguinte, terá um valor menor, isto na hipótese do Sr. Malthus e, portanto, o alqueire de milho terá menos valor. Aqui estão então duas medidas, ambas perfeitas de acordo com o Sr. Malthus, numa das quais as mesmas mercadorias permanecerão inalteradas enquanto variam na outra.
Se eu não tivesse nenhum argumento adicional a contrapor ao expediente de adotar a medida proposta pelo Sr. Malthus, penso que o que acabei de observar é decisivo contra a pretensão que ele apresenta quanto ao rigor e perfeição universal da sua medida de valor, mas tenho na verdade muitas razões para insistir contra a sua adoção por causa da sua inadequação.
Deixem-me supor que foram descobertas algumas grandes melhorias na agricultura, através das quais poderíamos, sem qualquer mão-de-obra adicional na terra, produzir mais 50 por cento de milho. De acordo com o meu modo de estimar o valor, que não leva em qualquer consideração o que foi pago ao trabalhador, o milho cairia na proporção de 150 para 100. De acordo com o modo do Sr. Malthus de estimar o valor do milho, o seu valor não dependeria de forma alguma da dificuldade ou facilidade da sua produção, mas apenas da quantidade paga ao trabalhador. Mesmo que se produzisse mais 50 por cento ou 100 por cento com a mesma quantidade de trabalho, Malthus diria ter o mesmo valor se o trabalhador não recebesse mais do que antes – de acordo com a sua ideia de que as mercadorias não têm valor proporcional à dificuldade ou facilidade de as produzir, mas que o seu valor depende totalmente, não da proporção, mas da quantidade efetivamente paga ao trabalhador. Uma pessoa pode comprar, na nossa atual moeda, um pão e meio pela mesma quantia com que antes podia comprar apenas um pão: pode fazê-lo porque a facilidade de o produzir aumentou 50 por cento e, no entanto, o Sr. Malthus obrigar-nos-ia a dizer que o milho não tinha diminuído de valor, mas que a nossa moeda tinha aumentado de valor se o operário tivesse recebido a mesma quantidade de milho.
Uma desordem epidémica desenvolve-se num país ao ponto de eliminar uma grande parte da população e, consequentemente, todos os empregadores de mão-de-obra são obrigados a dar uma proporção muito maior dos seus produtos acabados aos seus trabalhadores, o que, na minha estimativa de valor, não teria qualquer efeito sobre o preço dos bens, mas teria um grande efeito sobre o preço da mão-de-obra. Eu diria que os salários seriam elevados porque, especificamente, a mão-de-obra seria escassa em comparação com o capital, mas não é isso o que diria o Sr. Malthus, pois diria que a mão-de-obra manteria precisamente o mesmo valor e que todas as mercadorias, sem exceção, que eram o produto do trabalho e do capital, teriam sofrido uma considerável redução de valor.
Um grande número de pessoas emigra da Irlanda para este país e, pela sua concorrência, fazem descer fortemente o preço da mão-de-obra. O Sr. Malthus assegura-nos que a mão-de-obra não se alterou em valor, mas que todas as mercadorias em cuja produção não ocorreu qualquer nova dificuldade aumentaram consideravelmente de valor.
Eu sei e estou pronto a confessar que, embora estas expressões possam ser contrárias ao uso geral, se o Sr. Malthus tivesse declarado que a alteração por ele proposta assentava num princípio sólido, deveríamos, pelo menos entre os economistas de Política Económica, tê-la adotado; mas defendo que a sua opção não assenta em qualquer princípio sólido – que é uma escolha arbitrária e que não tem fundamento na razão e na verdade. A minha medida, diz o Sr. Malthus, é uma medida invariável porque medirá tanto os salários como os lucros. “Não vejo qualquer inconveniente, diz ele, em dizer com Adam Smith e comigo mesmo que o trabalho medirá, não só a parte do valor total da mercadoria que se materializa em trabalho, mas também a parte que se materializa em lucros”. Não poderia ser de outro modo se o objetivo fosse determinar as proporções em que todo o valor é repartido entre o capitalista e o trabalhador; mas que prova é que isto nos pode dar de que se trata de uma medida invariável de valor? Não teriam o ouro, a prata, o ferro, o chumbo, o tecido e o milho, todos eles medidas confessadamente variáveis, a mesma adequação ao objetivo em causa? A questão é sobre uma medida invariável de valor, e a prova da invariabilidade da medida proposta é que medirá tanto os lucros como o trabalho, ou seja, que fará o que qualquer outra medida, sem exceção, variável ou invariável, realizará igualmente.
Mas, segundo o Sr. Malthus, as condições da oferta de todas as mercadorias são que deverão representar mais trabalho do que o que custaram, e, portanto, o trabalho é uma medida particularmente apropriada. Ou seja, por outras palavras, que sempre que sejam feitos adiantamentos, se apenas esses adiantamentos forem ressarcidos e nada restar para lucro, a mercadoria não será produzida. Esta é uma afirmação que ninguém nega, mas que não oferece a menor prova da invariabilidade do valor do trabalho, pois, se uma pessoa avaliar em trabalho os seus adiantamentos para a produção e avaliar do mesmo modo a sua retribuição, os seus lucros serão aumentados se o trabalho se tornar muito abundante durante o intervalo de tempo que leva a obter os retornos e serão reduzidos a pouco ou nada se o trabalho se tornar escasso. Mas também seria a mesma coisa se fizesse as avaliações em dinheiro. Se o trabalho aumentasse de valor em dinheiro, receberia menos dinheiro em lucros quando fosse obrigado a pagar mais dinheiro aos seus trabalhadores, ganharia mais dinheiro em lucros se, em consequência da queda do preço da mão-de-obra, tivesse de pagar aos seus trabalhadores uma menor quantidade de dinheiro. O Sr. Malthus parece-me falhar totalmente na sua prova de que o trabalho é invariável em termos de valor.
O Sr. MCulloch tem uma teoria diferente – ele diz não pretender estabelecer qualquer medida geral invariável de valor, mas tudo o que ele pretende é estabelecer a regra pela qual o valor relativo das mercadorias pode ser determinado e isto, diz ele, depende da quantidade de mão-de-obra incorporada nas mercadorias. Se uma mercadoria tem o dobro do valor de outra, é porque tem o dobro da quantidade de trabalho nela incorporada. Objeta-se a MCulloch que não parece ser esse o caso, porque um carvalho no valor de 100 libras esterlinas talvez tenha tido, desde o primeiro momento em que foi plantado, uma quantidade de trabalho que não terá custado mais de 5 xelins, enquanto uma outra mercadoria no valor de 100 libras esterlinas teria realmente 100 libras esterlinas de trabalho incorporado. O Sr. MCulloch responde que ele avalia o valor do trabalho numa mercadoria pelo capital que foi efetivamente consagrado à sua produção e, se lhe objetarem novamente que apenas 5 xelins foram aplicados na árvore como capital, ele nega e diz que 5 xelins aplicados por um dia serão, quando os lucros forem 10 por cento, equivalentes a 5/6 da libra no final de um ano e, no segundo ano os 5/6 da libra serão aplicados como capital e tornar-se-ão no final do segundo ano um capital de 6 ½ libras e assim por diante, de ano para ano, porque se se abstiver de usar uma parte do capital este atingirá, no decorrer do tempo, o valor de 100 libras, da mesma forma como se se aplicasse 5 xelins por um dia num terreno, ao fim de um ano valeriam 5/6 da libra. Estes 5/6 da libra empregarão mais trabalho e, no final de outro ano, produzirão 6 ½ libras e assim sucessivamente, de ano para ano, até atingir 100 libras. De facto, não há mais trabalho efetivamente utilizado na árvore do que no milho, o qual pode ser vendido por 100 libras, mas esses capitais de igual montante foram efetivamente aplicados neles se se tiver em devida conta a renúncia do proprietário aos 5 xelins que gastou na árvore ao não se apropriar da acumulação de valor da árvore de ano para ano. Se se supuser que a árvore em crescimento é levada ao mercado todos os anos, valerá no primeiro ano 5/6 da libra, no segundo ano 6 ½ libras e assim por diante; de facto, estes sucessivos compradores fazem verdadeiramente o adiantamento daquela soma de capital para se tornarem possuidores da árvore, até que finalmente o adiantamento total atinja 100 libras. O Sr. MCulloch pergunta o que são estes adiantamentos senão capital, o que é este capital senão trabalho, então como pode ser negado que quantidades iguais de trabalho produzam valores iguais. Se perguntar ao Sr. MCulloch se o trabalho de 52 homens durante uma semana não é a mesma quantidade de trabalho que o trabalho de um homem durante 52 semanas, ele responderá, não, não é o mesmo, pois após cada semana um homem que receba o lucro do seu trabalho tem um capital acrescido com o qual trabalhará na segunda semana e assim sucessivamente, semana após semana; o segundo homem, que aplica o seu capital durante 52 semanas sem receber qualquer lucro durante esse tempo, tem igualmente direito a estas acumulações sucessivas e, portanto, o seu capital será avaliado pela mesma regra que o capital do homem que realiza um aumento de capital todas as semanas, adicionando ao capital original o capital adicional que os seus lucros lhe permitiram produzir. A única dúvida que se pode ter sobre este assunto é o rigor da linguagem utilizada pelo Sr. MCulloch – podia ser correto dizer que as mercadorias são valorizadas umas em relação às outras de acordo com o seu custo de produção, ou de acordo com a quantidade de capital nelas empregue por períodos iguais, mas não parece correto dizer que o seu valor relativo depende da quantidade de capital nelas utilizado.
(O manuscrito interrompe-se aqui)
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[1] Numa versão anterior, descrita acima (p. 360) como folha (b), esta secção abria como se segue:
“Mas, embora no caso que acabámos de considerar, devêssemos saber o valor relativo destas mercadorias, não teríamos nenhum meio de conhecer o seu valor absoluto. Se uma onça de ouro, permitindo comprar dois metros de tecido, viesse a ser trocada por 3 metros de tecido, alterar-se-ia o seu valor relativo ou de troca com o tecido, mas não poderíamos saber se o ouro tinha subido em valor absoluto ou se o tecido tinha caído em valor absoluto. Suponha-se que o chumbo seja uma medida de valor absoluto e que, quando uma onça de ouro fosse trocada por dois metros de tecido tivesse o mesmo valor que 2 cwt (unidade de peso britânica equivalente a 112 libras) de chumbo e que, quando valesse 3 metros de tecido valesse também 3 cwt de chumbo, então o tecido não teria variado em valor absoluto, mas o ouro teria subido 50 por cento. Se, pelo contrário, a onça de ouro continuasse a ter o mesmo valor que 2 cwt de chumbo, então, quando a onça de ouro passasse a ser trocada por 3 metros de tecido, o tecido teria subido 50 por cento em valor absoluto e o ouro não teria variado. A questão é de saber se podemos obter uma tal medida de valor absoluto e quais são os critérios que nos permitem estar seguros de que a obtivemos. É a esta questão que nos propomos agora responder.
“Ninguém pode duvidar que seria um grande desiderato em Economia Político ter uma tal medida de valor absoluto para nos permitir saber [,] quando as mercadorias se alteraram em valor de troca [,] e onde é que a alteração do valor de troca tinha tido lugar”. Aqui o texto interrompeu-se e recomeçou com o parágrafo “Todas as medidas de comprimento”.
David Ricardo [1772-1823] foi um economista e político britânico de origem judaico-portuguesa — um dos mais influentes economistas clássicos, ao lado de Thomas Malthus, Adam Smith e James Mill.
Considerado como um dos fundadores da escola clássica inglesa da economia política, juntamente com Adam Smith e Thomas Malthus, as suas obras mais destacadas incluem:
- O alto preço do ouro, uma prova da depreciação das notas bancárias (The high price of bullion, a proof of the depreciation of bank notes), em 1810;
- Ensaio sobre a influência de um baixo preço do cereal sobre os lucros do capital (Essay on the influence of a low price of corn on the profits of stock), em 1815;
- Princípios da economia política e tributação (Principles of political economy and taxation), em 1817 (reeditado em 1819 e 1821).
David Ricardo exerceu uma grande influência tanto sobre os economistas neoclássicos, como sobre os economistas marxistas, o que revela sua importância para o desenvolvimento da ciência económica. Os temas presentes nas suas obras incluem a teoria do valor-trabalho, a teoria da distribuição (as relações entre o lucro e os salários), o comércio internacional, temas monetários.


