Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 1 — Parte A: Texto 9 – Uma nota sobre a “medida invariável do valor” de Ricardo, por Ajit Sinha

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos

 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

15 min de leitura

Parte A: Texto 9 – Uma nota sobre a “medida invariável do valor” de Ricardo

 Por Ajit Sinha

Publicado por  Cahiers d’économie Politique 2010/1 (n° 58), páginas 133 a 144 (original aqui)

 

 

Sumário

Este artigo apresenta uma alternativa às interpretações bem como às críticas propostas por Sraffa sobre a investigação de Ricardo para encontrar uma “medida invariável de valor”. Mostra que Ricardo reconhecia duas causas para a alteração dos valores relativos das mercadorias: em primeiro lugar, a alteração da quota-parte do trabalho nas mercadorias e, em segundo lugar, a alteração da repartição do rendimento.

No entanto, ele considerava a primeira alteração como a única real e a segunda apenas como uma alteração “aparente”. Este artigo desenvolve a ideia de que Ricardo acreditava que as alterações “aparentes” eram apenas causadas pela natureza arbitrária da unidade monetária e que desapareceriam se as mercadorias fossem avaliadas de acordo com uma “medida invariável de valor”.

 

1. Introdução

Nesta breve nota, apresento uma interpretação alternativa da “medida invariável de valor” de Ricardo. Na sua célebre “Introdução” relativa aos “Princípios” de Ricardo, que foi escrita em colaboração com Maurice Dobb, Sraffa (1951) argumenta:

Esta preocupação com o efeito de uma alteração dos salários emergiu da sua abordagem ao problema do valor que, como vimos, era dominado pela sua teoria dos lucros. O “principal problema da Economia Política” era, na sua opinião, a repartição do produto nacional entre as classes e, no decurso dessa investigação, ficou perturbado pelo facto de o montante total do produto nacional parecer alterar-se quando mudava a sua repartição. Mesmo que nada tivesse ocorrido para alterar a magnitude do agregado, podia haver mudanças aparentes devido apenas à alteração na medição, devido ao facto de a medição ser feita em termos de valor e os valores relativos terem sido alterados em resultado de uma mudança na repartição entre salários e lucros. Isto é particularmente evidente no caso extremo em que o agregado é composto pelas mesmas mercadorias, nas mesmas quantidades e, apesar disso, a sua magnitude parecerá ter mudado quando medida em valor. (Sraffa, 1951, p. xlviii)

Neste caso, o papel de uma medida “invariável” consiste em assegurar que o montante global da produção líquida se mantém constante quando esta é repartida em diferentes proporções. Este é um problema lógico e tem uma solução lógica na “Mercadoria Padrão” de Sraffa (1960)[1]. Argumentarei, no entanto, que Ricardo não estava necessariamente preocupado com a mudança “aparente” no montante total do produto líquido enquanto tal, mas sim com as mudanças aparentes nos valores das mercadorias devido a mudanças na repartição. Parece acreditar que o impacto nominal das alterações na repartição sobre os preços se deve apenas à falta de uma “medida invariável de valor” na natureza; e se fosse possível ter-se uma “medida invariável”, então poder-se-ia demonstrar que o impacto das alterações na repartição sobre os valores das mercadorias ou preços naturais é apenas aparente e não real.

Apesar de a interpretação de Sraffa se ter tornado ortodoxa, há vários outros estudiosos de Ricardo que, ao longo dos anos, têm vindo a discordar [2]. Um ponto comum a todos os críticos de Sraffa sobre esta questão tem sido o argumento de que Ricardo procurou estabelecer uma relação inversa salário-lucro no contexto de rendimentos decrescentes da terra e, portanto, toda a ideia de um determinado tamanho total do bolo ser repartido em diferentes proporções não ser simplesmente relevante para a argumentação de Ricardo. Como escreve Peach (1993): “O intuito de Ricardo era sancionar a utilização da teoria do trabalho na demonstração da sua tese “agrícola”: a prova de que devem ocorrer reduções “permanentes” na lucratividade geral quando um aumento do output da produção de milho exige um aumento proporcional mais importante do input de mão-de-obra. As perspetivas analíticas de Sraffa não teriam qualquer relevância neste contexto Ricardiano.” (p. 290)

Embora seja verdade que Ricardo se preocupou principalmente com o impacto das alterações na repartição sobre os valores relativos das mercadorias no contexto dos rendimentos decrescentes da terra, seria incorreto sugerir que este era o único contexto da sua procura de uma “medida invariável de valor” e que não separou o problema do contexto do crescimento e dos rendimentos decrescentes da terra. Note-se que Ricardo introduz o problema da “medida invariável do valor” no capítulo I, antes da introdução das teorias da renda e dos salários. Assim, a nível formal, o problema causado pelo efeito das alterações na repartição sobre os preços relativos é completamente independente do contexto do crescimento e dos rendimentos decrescentes da terra. Por exemplo, na secção III do capítulo I, Ricardo aborda a questão da subida e descida dos salários e o seu impacto nos preços relativos quando se assume que a “estrutura temporal dos capitais” é uniforme. Neste contexto, argumenta:

Em diferentes circunstâncias de abundância ou escassez do capital, em comparação com o trabalho, em diferentes circunstâncias de abundância ou escassez de alimentos e necessidades essenciais para o sustento dos homens, aqueles que forneceram um valor igual de capital para uma utilização ou para a outra, poderão ganhar metade, um quarto ou um oitavo do produto total obtido, sendo o restante pago como salário àqueles que forneceram o trabalho; no entanto, essa repartição não poderia afetar o valor relativo dessas mercadorias, quer fosse de 50, 20 ou 10 por cento. Ou, quer os salários do trabalho fossem altos ou baixos, atuariam de forma igual em ambas as utilizações” (p. 24)

Claramente, Ricardo está aqui a contemplar o caso de um aumento ou uma diminuição dos salários reais, sem alteração das técnicas de produção. Se a variação dos salários fosse contemplada com base numa mudança das técnicas de produção dos bens salariais, então, com base na “teoria do valor trabalho”, Ricardo não poderia ter mantido constantes os valores relativos. Mais adiante, Ricardo deixa claro que não contempla apenas a subida ou descida dos salários causada por rendimentos decrescentes da terra, mas também devido à alteração das circunstâncias no mercado de trabalho: “Um aumento dos salários, devido à circunstância de o trabalhador ser recompensado mais liberalmente ou devido à dificuldade de produzir os bens necessários em que os salários são gastos, não produz, exceto em alguns casos, o efeito de aumentar os preços, mas tem um grande efeito em baixar os lucros” (Works I, p. 48-49, ênfase nossa). Este ponto é reiterado nas suas “Notas sobre Malthus“:

Tenho insistido invariavelmente que lucros altos ou baixos dependem de salários baixos ou altos, como é que se pode dizer de mim que a única causa que reconheci para lucros altos ou baixos é a facilidade ou dificuldade de proporcionar alimentação ao trabalhador. Afirmo que também reconheci a outra causa, a quantidade relativa de população em relação ao capital, que é outro dos grandes reguladores dos salários. (Works II, p. 264-5)

De seguida, apresentamos a nossa interpretação alternativa do problema de Ricardo sobre a “medida invariável do valor”, que, na nossa opinião, estava intrinsecamente relacionada com a sua forte crença na teoria do valor do trabalho.

 

2. O problema

Numa carta a Mill, de 30 de Dezembro de 1815 (Works VI, 348), Ricardo sublinhou “a assunção da invariabilidade dos metais preciosos como padrão de valor” como parte da sua âncora na qual todas as suas proposições foram escoradas. No entanto, nos “Princípios”, não consegue encontrar as condições teóricas que tornariam o seu padrão de medida “invariável”. Refugiou-se nas questões práticos, propondo-se ignorar o efeito das variações salariais sobre o padrão de medida, declarando-o pouco significativo. Mas isso não era, de modo algum, satisfatório em termos teóricos. Ricardo estava bem ciente disso e, na sua última obra teórica inacabada, intitulada “Valor Absoluto e Valor de Troca [Um Esboço Rudimentar] “ que escreveu apenas algumas semanas antes da sua morte prematura, a 11 de Setembro de 1823, reconhece: “… mas a dificuldade ou facilidade de produção não é absolutamente a única causa de variação de valor, há uma outra, a subida ou descida dos salários que, embora comparativamente de pouco efeito e de ocorrência mais rara, afeta o valor das mercadorias e não deve ser omitida nesta importante investigação” (Works IV, p. 368)[3]. A questão é: qual era o problema que Ricardo achava que a “medida invariável de valor” poderia resolver? Suponhamos que existe uma mercadoria que permanece invariável face às variações dos salários ou da taxa de lucro. Partindo do princípio de que o tempo de trabalho incorporado nesta mercadoria permanece constante, poder-se-ia determinar qual a mercadoria que mudou de valor comparando-a com esta mercadoria específica em dois momentos do tempo. No entanto, não se poderia ainda dizer se a mercadoria mudou de valor devido a alterações no seu conteúdo de trabalho ou devido a alterações nos salários ou em ambas. Uma vez que Ricardo tinha identificado a sua teoria do valor com a procura da(s) causa(s) da variação do seu valor, é evidente que a sua “medida invariável do valor”, enquanto tal, não é aqui de grande ajuda [4].

A pista para o problema pode ser encontrada na carta de Ricardo a McCulloch, de 13 de Junho de 1820, onde escreveu: “Por vezes penso que, se voltasse a escrever o capítulo sobre o valor que está no meu livro, deveria reconhecer que o valor relativo das mercadorias era regulado por duas causas em vez de uma, nomeadamente, pela quantidade relativa de trabalho necessária para produzir as mercadorias em questão e pela taxa de lucro durante o tempo em que o capital permanecia imobilizado e até as mercadorias serem colocadas no mercado. Talvez eu encontrasse dificuldades quase tão grandes nessa visão do assunto quanto na visão que adotei” (Works VIII, p. 279-280). O que é enigmático na afirmação acima é o facto de, nas duas primeiras edições dos “Princípios”, Ricardo ter repetidamente afirmado que, “se o capital fixo e o capital circulante estivessem em proporções diferentes, ou se o capital fixo tivesse tempos diferentes de utilização, então o valor relativo das mercadorias produzidas seria alterado em consequência de um aumento dos salários” (1ª edição dos “Princípios”; Works I, p. 56). Então, o que poderia Ricardo querer dizer na sua carta ao sugerir que não reconhecia que os valores relativos das mercadorias eram regulados por duas causas? Sraffa (1951) salientou que se tratava apenas de um estado de espírito passageiro e que, rapidamente, Ricardo tinha chegado à conclusão de que “o meu primeiro capítulo não será absolutamente alterado – em princípio, penso que não será alterado de todo” (carta a Malthus, de 9 de Outubro de 1820; Works VIII, p. 280) e que “ao fixar a quantidade de trabalho incorporado nas mercadorias como a regra que rege o seu valor relativo, estamos no caminho certo” (carta a McCulloch, de 25 de Janeiro de 1821, Works VIII, p. 344). Assim, o problema é: como conciliar o facto de os primeiros capítulos de todas as três edições estarem repletos de afirmações explícitas reconhecendo a segunda causa da variação do valor relativo das mercadorias, que é a subida e descida dos salários e da taxa de lucros, com a sua afirmação na carta a McCulloch de que, aparentemente, não a tinha reconhecido ? [5]

 

3. A Solução

A solução para este enigma reside no facto de Ricardo ter aparentemente separado a natureza das duas causas. Embora a primeira causa, ou seja, a variação do conteúdo de trabalho da mercadoria, fosse considerada a causa real, a segunda causa, ou seja, a variação dos salários ou da taxa de lucro, era considerada apenas uma causa aparente e não real. Ricardo parece pensar que as variações nos valores relativos das mercadorias provocadas por alterações nos salários ou na taxa de lucro se deviam exclusivamente à ausência de “uma medida invariável de valor” na natureza.

Como escreve nas suas notas sobre “Valor Absoluto e Valor de Troca”: “Se a mercadoria escolhida para a medida padrão de Ricardo, cujo valor confessamente consiste em lucros e trabalho, fosse dividida na proporção de 90 para o trabalho e 10 para o lucro – é manifesto que, cada aumento de 1 por cento no trabalho, faria uma mercadoria produzida apenas pelo trabalho aumentar um por cento. Se a medida fosse perfeita, não deveria variar de todo” (Works IV, p. 373; sublinhado nosso).

Novamente, algumas páginas depois, escreve: “Para mim, parece ser uma contradição dizer que uma coisa aumentou em valor natural enquanto continua a ser produzida precisamente nas mesmas circunstâncias que antes” (Works IV, p. 375). É neste contexto que podemos entender a afirmação de Ricardo sobre as alterações nas proporções de capital e trabalho devido a alterações na repartição: “As duas mercadorias mudam em valor relativo. … Pode dizer-se que as proporções de capital que empregamos são de alguma forma alteradas? Ou as proporções de trabalho? Certamente que não, nada se alterou a não ser a taxa de repartição entre empregador e empregado… – esta e apenas esta é a razão pela qual se alteram em valor relativo” (rascunho de carta a McCulloch, 15 de Agosto de 1823, Works IX, p. 355-6). O que Ricardo quer dizer aqui é que as alterações nas proporções de capital induzidas por alterações na repartição são apenas mudanças nominais e não “reais”; e que, se houvesse uma “medida invariável de valor”, então poder-se-ia mostrar que tais mudanças não ocorrem. Este ponto é ainda mais enfatizado na defesa da sua seleção da mercadoria monetária a ser produzida pela composição “média” do capital: “… e a média, na maioria dos casos, dará um desvio muito menor da realidade do que se qualquer um dos extremos fosse usado como medida.” (Works IV, p. 405, ênfase adicionada). A realidade, é claro, representa um desvio zero! Assim, quando Ricardo fala de alterações no valor “real” ou “absoluto”, refere-se às alterações de valor causadas apenas pelas alterações no seu conteúdo de trabalho, como numa carta a Trower, datada de 22 de Agosto de 1821, Ricardo tinha escrito: “Ao falar de valor de troca, não tem qualquer ideia de valor real na sua mente – eu tenho-o invariavelmente. … O valor de troca de uma mercadoria não pode alterar-se, digo eu, a menos que o seu valor real, ou o valor real das coisas pelas quais é trocada, se alterem. Isto é incontestável.” [6] (Works IX, p. 38)

Mas, evidentemente, Ricardo estava errado ao assumir que as mudanças na repartição não teriam qualquer efeito sobre os valores relativos se estes fossem medidos em relação a uma “medida invariável de valor”, pela simples razão de que as mudanças na repartição afetam os valores relativos das mercadorias e, portanto, logicamente, não pode haver uma qualquer mercadoria em relação à qual os valores relativos das mercadorias pudessem permanecer constantes face a mudanças na repartição.

É interessante que Sraffa (1951) tinha notado este aspeto do problema de Ricardo: “Nesta tentativa de alargar a aplicação do valor absoluto ao segundo problema (o de distinguir os dois tipos de variações do valor de troca), Ricardo viu-se confrontado com o seguinte dilema: enquanto a primeira aplicação pressupõe uma proporcionalidade exata entre o valor relativo e o valor absoluto, a segunda implica um desvio variável do valor de troca em relação ao valor absoluto para cada mercadoria. Esta contradição Ricardo nunca conseguiu resolvê-la completamente, como se depreende do seu último trabalho.” (Sraffa 1951, p. xlvii). Apesar de tudo, Sraffa preferiu realçar o problema relacionado com a repartição de um dado output total líquido.

 

4. Uma crítica da interpretação de Sraffa

Sraffa não fornece nenhuma evidência direta no sentido de que “no decorrer daquela investigação [da repartição do produto nacional entre as classes] ele [Ricardo] ficou preocupado com o facto de o tamanho desse produto parecer mudar quando a repartição se altera”. A sua tese apoia-se em dois pilares: (1) por valor absoluto ou real, Ricardo significa o valor de uma mercadoria medida através da “medida invariável do valor”, e (2) Ricardo identifica a busca por uma “medida invariável” com a busca pela própria teoria correta do valor.

Sobre a questão do valor absoluto ou real em Ricardo, Sraffa escreve:

A ideia de uma “medida invariável” tem para Ricardo o seu complemento necessário na medida do “valor absoluto”. Este conceito aparece primeiro nos “Princípios” (na 1ª edição) como “valor absoluto”, depois (na 3ª edição) como “valor real”, e aparece de vez em quando nas suas cartas, tomando uma forma mais definida no seu último texto sobre “Valor Absoluto e Valor de Troca”. Num dos rascunhos desse texto, ele escreve: ‘Ninguém pode duvidar de que seria um grande desiderato em Economia política ter uma tal medida de valor absoluto para nos permitir saber [,] quando as mercadorias mudaram em valor de troca [,] em qual é que ocorreu a alteração de valor”. (Works I, p. xlvi)

No entanto, Sraffa acrescenta imediatamente:

Num outro rascunho, ele [Ricardo] explica o que entende por teste para saber se uma mercadoria mudou de valor: “Podem perguntar-me o que quero dizer com a palavra valor e por qual critério julgaria se uma mercadoria mudou ou não de valor. Eu respondo, não conheço outro critério para uma coisa ser cara ou barata, a não ser pelos sacrifícios de trabalho feitos para obtê-la. (Works I, p. xlvi)

Assim, o segundo rascunho (na verdade o anterior) deixa claro que a mudança real no valor para Ricardo significa sempre mudança apenas no seu conteúdo em trabalho. Ora, quando juntamos as duas posições, ou seja: (a) uma mudança no “valor absoluto” ou “valor real” é a mudança medida através do “padrão invariável” e (b) uma mudança no “valor absoluto” é uma mudança do seu conteúdo em trabalho, chegamos à conclusão incontornável de que as mudanças no valor de qualquer mercadoria causadas por mudanças na repartição devem desaparecer (tornar-se zero) quando medidas através do “padrão invariável”. Esta é a propriedade da “medida invariável” que Ricardo procurava.

Vejamos agora a segunda peça do argumento de Sraffa. Sraffa argumenta:

A busca pelo que se convencionou chamar de “a quimera de um padrão de valor invariável” ocupou Ricardo até ao fim da sua vida. No entanto, o problema que mais o interessava não era encontrar uma mercadoria real que medisse com precisão o valor do milho ou da prata em diferentes épocas e lugares; mas sim o de encontrar as condições que uma mercadoria teria de satisfazer para ser invariável em valor – e com isso quase que identificou o problema de uma medida do valor com o da lei do valor. “Não ficará claro, então, que, desde que estejamos na posse do conhecimento das circunstâncias que determinam o valor das mercadorias, sejamos capazes de dizer o que é necessário para obtermos uma medida invariável de valor?” (Ricardo para McCulloch, 21 agosto 1823).” (Works I, p. xl-xli)

 

Ora, fica claro que Ricardo estava bastante preocupado com a sua incapacidade de encontrar a “medida invariável”, mas não parece que ele tenha mantido por muito tempo a posição que expressa na carta acima citada a McCulloch. Pois, a posição acima citada implica que se Ricardo chegou à conclusão de que a “medida invariável de valor” era uma quimera, então ele teria que concluir que uma teoria correta do valor ou a lei do valor também era uma quimera. No entanto, como vimos acima, Ricardo, no primeiro rascunho do “Valor Absoluto e Valor de Troca”, não só estava bastante confiante sobre o que entendia por “valor” e sobre a causa da sua alteração, mas, apenas um dia depois de escrever a carta acima citada a McCulloch, encontramo-lo a escrever a Trower, com bastante segurança que “o valor de troca de uma mercadoria não pode alterar-se, digo eu, a menos que se altere o seu valor real, ou o valor real das coisas pelas quais é trocada. Isso é incontestável.” Tudo isto quando Ricardo chegou à conclusão de que talvez a “medida invariável de valor” fosse realmente uma quimera, como escreveu a Mill, em 5 de setembro de 1823: “Tenho pensado muito sobre esse assunto ultimamente, mas sem muitos avanços – vejo as mesmas dificuldades de antes e estou mais convencido do que nunca que, estritamente falando, não há na natureza nenhuma medida correta de valor, nem qualquer engenho pode sugerir uma, pois o que constitui uma medida correta para algumas coisas é uma razão pela qual ela não pode ser uma medida correto para outras” (Works IX, p. 372). O leitor deve notar que o ponto de Ricardo de que “o que constitui uma medida correta para algumas coisas” se refere àquelas coisas com proporções iguais de trabalho em relação aos meios de produção. Nesses casos, quando uma mercadoria é usada como padrão de medida em relação a outra, o impacto nos respetivos preços devido a mudanças na repartição seria zero. Além disso, a ideia de que “uma medida correta” poderia ser encontrada para um subconjunto de mercadorias mostra claramente que a “medida correta” de Ricardo não era sobre manter constante o valor do agregado do output líquido.

No final, pode ser útil lembrarmo-nos do reconhecimento de Sraffa (1960, p. 93) de que: “Talvez seja conveniente precisarmos que foi apenas quando o sistema Padrão e a distinção entre bens básicos e não básicos emergiram no decorrer da presente investigação é que surgiu como uma consequência natural a interpretação acima citada do [modelo do milho] da teoria de Ricardo”.

 

5. Conclusão

Neste artigo, apresentámos uma alternativa às interpretações e críticas de Sraffa sobre a natureza da busca de Ricardo por uma “medida invariável de valor”. Recapitulemos a cadeia dos nossos argumentos:

  • Ricardo percebeu que os valores relativos das mercadorias podem mudar devido a duas causas: uma alteração do conteúdo de trabalho de uma ou ambas as mercadorias e uma mudança na repartição do rendimento.
  • A evidência sugere que Ricardo também considerou mudanças na repartição independentemente das mudanças nas técnicas de produção em uso e, portanto, não necessariamente como um efeito de rendimentos decrescentes da terra, o que elimina os fundamentos da posição crítica de Sraffa.
  • A evidência sugere que Ricardo separou a natureza das duas causas: ele considerou a alteração no valor causada pela alteração do conteúdo do trabalho como a mudança real, enquanto a mudança no valor causada pela mudança na repartição como apenas uma mudança aparente, que era, em sua opinião, unicamente devida à natureza arbitrária da unidade monetária.
  • Ricardo acreditava que todas essas alterações aparentes desapareceriam se os valores de todas as mercadorias pudessem ser medidos por uma ‘medida invariável de valor’.
  • Sraffa, por outro lado, argumentou que Ricardo estava intrigado com o facto de o total do output líquido, quando medido por uma unidade monetária arbitrária, parecer mudar quando é repartido em diferentes proporções e que, portanto, ele procurou um “padrão invariável” através do qual o total do output líquido permaneceria constante quando repartido em várias proporções.
  • A posição de Sraffa assenta em dois pilares: (i) Ricardo sustentava que uma mudança no valor “real” ou “absoluto” é uma mudança medida através do “padrão invariável” ou uma mudança devido ao conteúdo em trabalho; e (ii) Ricardo identificou a busca por um “padrão invariável” com a busca por uma verdadeira lei do valor.
  • A proposição de Sraffa (i) e as evidências fornecidas em apoio dela levam à conclusão óbvia de que Ricardo sustentou que a alteração dos valores relativos devido à mudança na repartição deve desaparecer completamente quando o “padrão invariável” for usado como unidade monetária.
  • A evidência sugere que Ricardo não manteve por muito tempo o argumento de que a busca por um “padrão invariável” era idêntica à busca por uma verdadeira teoria do valor. Ele parece ter-se reconciliado com o facto de que o “padrão invariável” era uma quimera, mas ainda mantinha fé na sua teoria do valor.
  • A afirmação de Ricardo de que um “padrão invariável” é possível para um subconjunto de mercadorias, mas não para todas as mercadorias, é prova de que ele não considerou o problema da constância do total do output líquido ser como o principal problema relativo à sua busca por uma “medida invariável de valor”.

 


Notas

[1] Sraffa (1960, p.22) mostrou que se a mercadoria Padrão for usada como unidade monetária e os salários forem expressos em termos da mercadoria Padrão, então existirá uma relação diretamente inversa entre a taxa de salários e a taxa de lucro para qualquer sistema empírico. Esta relação é dada pela equação r=R(1-w), em que r, R e w são, respetivamente, a taxa de lucro, o máximo da taxa de lucro do sistema e a taxa de salários expressa em mercadoria Padrão. Isto prova que quando a mercadoria Padrão é usada como unidade monetária, então o valor do output líquido total mantém-se constante quando a taxa de lucro assume os valores de zero até ao seu máximo R.

[2] Ver, por exemplo, Caravale e Tosato (1980), Ong (1983), Caravale (1985) e Peach (1983)

[3] Numa carta a McCulloch, de 19 de Março de 1822, Ricardo escreveu: “Se 1000 tijolos variam em valor relativo em relação a uma certa quantidade de tecido, produzidos com a ajuda de maquinaria adequada, isso pode ser devido a uma de duas causas: mais ou menos trabalho que seja exigido para produzir uma delas; ou que os salários tenham subido ou baixado em geral. No que respeita à primeira ser uma causa da variação, concordo inteiramente, mas você parece não admitir que embora sejam utilizadas as mesmas quantidades de mão-de-obra, respetivamente, nos tijolos e no tecido, que os seus valores relativos possam variar apenas porque o valor do trabalho sobe ou desce; e, no entanto, este facto parece inegável. Àquela segunda causa eu não atribuo, nem de longe nem de perto, tanta importância como o fazem Mr. Malthus e outros, mas não posso fechar completamente os olhos a isso.” (Works IX, p. 178)

[4] “É um grande desiderato em Política Económica ter uma medida perfeita do valor absoluto a fim de ser possível determinar qual a relação que as mercadorias estabelecem umas com as outras em períodos diferentes.” (Ricardo, Works IV, p. 396)

[5] Peach (1993, p. 197) também considera “enigmática” a afirmação de Ricardo e acrescenta: “Em todo o caso, Ricardo tinha admitido uma “alteração considerável” na teoria “pura” do trabalho nas versões publicadas do seu primeiro capítulo e, nessa medida, as “duas causas”, já tinham sido reconhecidas. Posso apenas sugerir que ele pensava que deveria ser ainda mais explícito em termos do novo enquadramento do “perfil do trabalho” adotado, embora esta minha sugestão seja confessamente tentativa”. É claro que isto é, simplesmente, uma não-conclusão. É estranho que, embora Peach tenha notado que “Todas as alterações de preços induzidas pela repartição passaram a ser indicativas de um “defeito do padrão de medida” (p.198), e ele (Ricardo) falhou aqui em juntar dois mais dois”. Samuel Hollander (1979, p. 221), por outro lado, sugere que Ricardo esteja a sugerir uma nova causa da alteração dos preços, designadamente, alterações exógenas do período de investimento. Contudo, ele reconhece que isto não foi introduzido na terceira edição nem em qualquer correspondência subsequente. Tanto Hollander como Peach não souberam que numa carta para McCulloch, em 25 de janeiro de 1821, Ricardo reverteu a sua posição, indicando apenas uma causa de alteração, ao referir que “ao fixar na quantidade de trabalho incorporado nas mercadorias como a regra que rege os seus valores relativos, estamos no caminho certo”.

[6] Sraffa (1951) escreve: “por outro lado, Ricardo não estava interessado, por si só, no problema de porque duas mercadorias produzidas pelas mesmas quantidades de trabalho não têm o mesmo valor de troca. Ele estava preocupado com isso apenas na medida em que, assim, os valores relativos são afetados por mudanças nos salários. Os dois pontos de vista da diferença e da mudança estão intimamente ligados; no entanto, a busca de uma medida invariável de valor, que está tanto no centro do sistema de Ricardo, surge exclusivamente do segundo e não teria contrapartida em uma investigação do primeiro” (P. xlix). Ver também Meek (1956).

 


Referências

Caravale, Giovanni A. (1985), “Diminishing Returns and Accumulation in Ricardo”, in The Legacy of Ricardo, (ed.) G.A. Caravale, New York: Basil Blackwell.

Caravale, Giovanni A. and Domenico A. Tosato (1980), Ricardo and the Theory of Value, Distribution and Growth, London: Routledge and Kegan Paul.

Hollander, Samuel (1979), The Economics of David Ricardo, Toronto: University of Toronto Press.

Meek, R.L. (1956) Studies in Labour Theory of Value (Second Edition), New York: Monthly Review Press.

Ong, Nai-Pew (1983), “Ricardo’s invariable measure of Value and Sraffa’s ‘standard commodity’”, History of Political Economy, 15(2), p. 207-227.

Peach, Terry (1993), Interpreting Ricardo, Cambridge: Cambridge University Press.

Ricardo, David (1951-52), The Works and Correspondence of David Ricardo, (ed.) Piero Sraffa, vols. I-II, IV, VI-IX, Cambridge: Cambridge University Press.

Sraffa, Piero (1951) “Introduction”, TheWorks and Correspondence of David Ricardo, vol. I, Cambridge: Cambridge University Press. — (1960), Production of Commodities by Means of Commodities, Cambridge: Cambridge University Press.


O autor: Ajit Sinha doutorado pela SUNY-Buffalo, onde trabalhou com Paul Zarembka na solução do “problema da transformação” na análise de Marx, estudando a teoria do preço de Sraffa. Ele publicou um livro intitulado Teorias do Valor de Adam Smith a Piero Sraffa que lida com problemas semelhantes. O Dr. Sinha também editou vários volumes e publicou trabalhos de investigação em revistas como o Cambridge Journal of Economics, Journal of Economic Behavior and Organization, Metroeconomica e European Journal of the History of Economic Thought. Lecionou na SUNY-Buffalo, nos Estados Unidos, na York University, no Canadá, na University of Newcastle, na Austrália, na LBS National Academy of Administration, na Índia, no Gokhale Institute of Economics and Politics, na Índia (do qual também foi diretor por um ano e meio), no College de France, na França, e no Indira Gandhi Institute of Development Research, na Índia. Foi investigador convidado na Delhi School of Economics e na Universidade Jawarharlal Nehru, na Índia, e na Open University, no Reino Unido, e Professor Visitante na Universidade de Paris 1 (Sorbonne), em França. (fonte: Institute for New Economic Thinking)

 

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