A NOSSA DÁDIVA DE SOL por Luísa Lobão Moniz

A noite é a nossa dádiva de sol
aos que vivem do outro lado da Terra.
CARLOS DE OLIVEIRA, in ‘Trabalho Poético’

 

QUE FORÇA É ESSA

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr´ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p´ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força p´ra pouco dinheiro

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compr´endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr´endes

(Que força…)

(Vi-te a trabalhar…)

Que força é essa
que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

                                                           Sérgio Godinho, 1975, Álbum “ Os Sobreviventes”

Esta força, de tantos milhares de trabalhadores, não se pode estagnar na constatação de um facto, tem que ser interiorizada, refletida e voltar-se contra os exploradores.

Esta força não desaparece, não se acomoda à realidade dos factos, esta força pode e deve mudar de rumo, até que o elevador social não pare a meio do caminho. Já muitas famílias e pessoas acreditaram que é possível uma vida melhor e entraram no elevador e mudaram a sua vida para uma vida de melhor viver. Conheço vários.

Todos nós temos o dever de espalhar o sucesso de alguns e que a revolta tem que se exprimir, com a auto estima bem alta, porque vamos vencer esta exploração paralisante nos braços de quem trabalha e só obedece.

Somos os sobreviventes de uma Revolução que deu lições ao mundo, durante 1974 e 1976 o Povo foi quem mais ordenou nas fábricas, algumas em autogestão, outras em Assembleias Gerais e Sindicatos; os trabalhadores rurais assumiram “a terra a quem a trabalha”.; os professores empenharam-se em atividades em prol de uma escola para todos, em utilizar pedagogias renovadoras, como Paulo Freire autor da “Pedagogia do Oprimido”; Piaget estudioso e autor da “teoria dos estágios” para contrapor ao ensino tradicional, autoritário, em que “o professor dita e o aluno copia e repete” ; Freinet para quem a democracia de amanhã é preparada na democracia da escola, hoje.

Muitos mais profissionais de outras áreas caminharam para o mesmo objetivo, dar voz a quem tinha estado em silêncio e homenagear os que tiveram a convicção e a coragem de enfrentar o regime fascista.

As gerações que viveram a Revolução dos Cravos são não só sobreviventes como viventes de ideais democráticos, livres, que respeitam a igualdade entre mulheres e homens, a proteção das crianças, enfim os Direitos Humanos e da Natureza.

O ideal do 25 de Abril de 1974 ainda não foi cumprido, muitos têm sido os obstáculos de movimentos, politicamente, de direita e hoje em dia de extrema direita.

Todos temos força para os combater se a sociedade não se amedrontar com os alarmistas e populistas dessa direita.

 

CANCIÓN DEL GITANO APALEADO

Veinticuatro bofetadas.
Veinticinco bofetadas;
después, mi madre, a la noche,
me pondrá en papel de plata.

Guardia civil caminera,
dadme unos sorbitos de agua.
Agua con peces y barcos.
Agua, agua, agua, agua.

¡Ay, mandor de los civiles
que estás arriba en tu sala!
¡No habrá pañuelos de seda
para limpiarme la cara!

Federico García Lorca

Frederico Garcia Lorca escreveu o poema Vientecuatro bofetadas, em 1920 e em 1971 foi publicado, em disco, na América do Norte e com o nome 24 WHO SING THE REVOLUTION.

Porquê este poema? Para Lorca o cigano pertence a uma etnia marginalizada pelas sociedades em que vivem. Lorca declarou “Yo seré partidario de los que no tienen nada y hasta la nada se les niega”.

Vientecuatro bofetadas foi cantada por Antonio Portanet, em 1975, no Álbum “Muertes”.

António Portanet participou como canta autor na “Revolução dos Cravos”, em inúmeros concertos celebrados em Lisboa e outras cidades de Portugal.

Participou em Março de 2014 no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no concerto comemorativo “Cantar Grândola 40 Anos Depois”, com outros canta autores portugueses.

Como contributo para as comemorações da Revolução dos Cravos, A editorial Teodolito publicou A Escola e os Cravos que foi considerado por Maria Teresa Horta como um livro de resistência que ensina aos mais novos, como alguns professores, e os estudantes a compreenderem a necessidade da Revolução dos Cravos.

A editora Teodolito, a autora Luísa Lobão Moniz e ilustradora Rita Moniz sentem-se viventes do 25 de Abril, da democracia.

 

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