CARTA DE BRAGA – “do traje e do viver” por António Oliveira

Continua a morrer-se violenta e dramaticamente bombardeado em Gaza e no Líbano, continua a morrer-se no Sudão, assim como vemos, lemos e sabemos que se continua a assobiar para o lado, em todos os lugares onde se podiam tomar decisões exceptuam-se o secretário-geral da ONU e o Papa Francisco, como se continuam a massacrar povos para garantir convicções pessoais, e a maioria da gente deste mundo maltratado, nem sabe quem são os mandantes, nem se têm pouco ou muito cabelo, artística ou habilmente despenteado, mas tenho a impressão que vamos amargar dolorosamente aquele assobiar para o lado.

Há mais de 10.000 pessoas a viver na rua no nosso país, a maioria com mais de 45 anos e até com trabalho! Há quem peça mais ambição, quando a maioria só queria ter um tecto. Ambição de quem? Ambição de quê? Se calhar por isso, ainda me vem por vezes à lembrança, apesar de já lá irem muitos anos, como nós, garotada ou mesmo mais granditos, nos divertíamos a tentar adivinhar a profissão das pessoas, pela roupa que usavam, para imaginar como seríamos nós algum dia. Não era muito difícil naquele tempo, por as maiores diferenças serem entre os operários, os trabalhadores das pouquíssimas indústrias que por lá havia e os do comércio, dos bancos, finanças e restantes empregos públicos, onde imperavam os colarinhos, as gravatas e os sapatos bem engraxados e, era essa, a dificuldade maior.

Também era vulgar, naquele tempo, vermos atravessar a rua, a caminho do café, de uma repartição, ou de qualquer outra porta aberta, algum ‘manga de alpaca’ mais apressado ou sem tempo para tirar os manguitos, aquelas meias mangas, do cotovelo até ao pulso, para proteger o casaco, mas a mostrar uma vida sentada a tratar da escrita, das colunas do Deve e do Haver, ou conferir ‘o rol das contas para o fim do mês’ que, até sabíamos bem, era então uma instituição necessária e muito respeitável.

Vim a aprender mais tarde, com Roland Barthes, que o traje tem uma função semântica, por distintiva, de acordo com a profissão, a autoridade ou a classe. Naquela altura até nem era complicado por aí além, porque a autoridade vestia sempre farda, só o não faziam os tipos da pide, mas esses vestiam sempre de escuro, não falavam com ninguém e também ninguém falava com eles, e ainda havia os fiscais dos isqueiros, e esses sabíamos bem quem eram, até tinha um como vizinho tudo a constituir uma espécie de abc do vestuário, que nos servia ainda para poder mudar de passeio ou disfarçar, se a conversa tinha mais ouvidos do que desejávamos.

Vantagens de viver numa cidade pequena, ou mesmo num bairro, em tempos em que as modas não tinham a importância de hoje (ainda não havia ecrãs para monopolizar e comandar o povoléu, como se nota agora muito bem), nem os bancários ou os funcionários das instituições mais prestigiadas, usavam, como fazem hoje, aqueles fatos esterlicadinhos, um número abaixo do que seria aconselhável, com calças estreitas, curtas e de peúgos à mostra.

Naquele tempo era bem verdade que o vestuário servia para as pessoas se expressarem, até por terem de viver a condizer, adaptando-se, à ‘linguagem’ usada, ou então a abordar temas a exigir respeito e aplicação das normas linguísticas, também de acordo com a vestimenta.

Parecerá ridículo tudo isto, mas eram tempos em que comunicando se aparentava uma situação, por haver muita gente com dificuldade em compreender, aliás o exemplo prático da ‘teoria do iceberg’, que Hemingway tão bem definiu, em que uma narrativa (ou a vestimenta), até será o que tem menos importância, porque o resto caberá descobrir ou imaginar ao leitor, ou a um possível investigador.

E, desta vez, tudo começou por ter relido em Saint Exupéry, ‘Somos da infância como somos de um país’, mesmo sabendo que a vida é apenas um longo passeio entre encontros e desencontros, quase sempre comandados por uma outra quase sentença, que também usávamos naqueles tempos, se nos tratarem sempre bem, também temos necessidade de experimentar qualquer coisa diferente, só pelo desejo de conseguirmos ultrapassar os nossos limites, apesar de haver alguns mais atrevidos, corajosos ou sei lá o quê, que ainda acrescentavam até pode ser qualquer coisa má, mas é só por curiosidade!

Hoje, olhando para estas coisas com um misto de saudade e melancolia, apesar de não andarem muito longe uma da outra, não consigo deixar de evocar algumas páginas de Cesare Pavese, ‘Viver é um ofício e ninguém no lo ensina’, sem nunca ter deixado de descrever a generosidade e a beleza do mundo, pelo prazer da companhia e das palavras da gente simples com quem se encontrava todos os dias, sem nunca dizer uma só a mostrar inveja, pela fortuna ou sorte de outros.

E, também li um dia, em qualquer lado (não sei se serão estas as palavras exactas!), ‘Na antiga Roma, quando um general entrava vitorioso e o passeavam com a inevitável coroa de louros, levava sempre ao lado um personagem que lhe ia repetindo és humano, és estúpido (sábia instituição), por sermos apenas um projecto em evolução. Quem só quer acumular riqueza é também escravo de um tremendo mau gosto’.

Mas sei de bastante gente (no activo ou não), a quem daria muito jeito ter sempre ao lado aquela tão sábia instituição, até por ser sempre demasiada, toda a que gosta de grandes aparatos, mesmo em cerimónias simples e corriqueiras; basta olhar selfies e ecrãs!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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