Já estamos no segundo período do ano escolar. Mas só há poucas semanas foram conhecidos os resultados das provas de aferição, feitas já em Maio, e destinadas a avaliar o trabalho e metodologia dos professores, no desenvolvimento das matérias programáticas. De acordo com as notícias, os resultados dessa aferição, são desastrosos. Para o professor e investigador em História, Paulo Guinote, ‘Os fracos resultados devem-se ao facto de os alunos já conhecerem “os vícios do modelo”, saberem que as provas não servem para absolutamente nada no percurso escolar e, ao fazer vigilância de uma prova do 8.º ano, vi que metade dos alunos pouco mais fez do que assinar o nome; este modelo de aferição é inconsequente, e serve apenas para perder tempo e recursos’.
Nos states, mas noutro campo também ligado a este e, ainda de acordo com as notícias, os resultados parecem ser mais dramáticos, pois durante o ano escolar, foram proibidos 1.557 livros nas escolas públicas daquele país, ‘banindo’ autores como Margaret Atwood, Stephen King, Toni Morrison ou Aldous Huxley, e a organização criada para ali proteger a liberdade de expressão, Pen America, detectou quase 6.000 actos de censura, que levaram a que quase 3.000 títulos fossem retirados das escolas de 41 estados. ‘Dezasseis dos meus livros proibidos?’, perguntou-se, reagindo assim Stephen King, ‘Devo estar a fazer alguma coisa muito bem!’
Por outro lado, a diretora-geral adjunta de Educação da UNESCO, Stefania Giannini, garantiu, de acordo com o DN de 16 de Dezembro, ‘70% das crianças nos países mais pobres são incapazes de ler um texto simples aos dez anos’; e acrescentou ainda, ‘O maior obstáculo são os principais intervenientes que resistem à mudança. Trata-se de governos, bem como as próprias instituições educativas, distraídos por outras prioridades e lutando visivelmente para manter a educação no topo da agenda política. Os nossos dados mostram que existe um défice financeiro anual de quase 100 mil milhões de dólares por ano para que os países atinjam as suas metas educativas até 2030’.
O problema da educação, a começar pela escrita e pela leitura, foi sempre um problema político, desde aquele tempo em que a distância entre o ‘b’ e o ‘a’ era um drama para se conseguir escrever ‘ba’ direitinho, com as letrinhas iguais, a caber bem naquelas duas linhas de um caderno, feito para tal, que também usei; sabia-se bem que a escrita e a leitura favorecem o desenvolvimento motriz e neurológico das crianças e, nem toda a gente teria direito a isso –a escrita era património de algumas castas (burocráticas ou eclesiásticas)– com poder e domínio que só elas podiam abrir aos demais.
Vim a confirmar mais tarde, a importância da política no campo da escrita, quando todas as máquinas de escrever deste país, tinham de ter um teclado HCESAR em vez do QWERT, apenas por mera opção burocrática (?!?), porque aqui a eclesiástica não deveria ter qualquer importância, até porque o tal Cesar não seria mais que um ímpio imperador romano.
Mas foi assim que se manipulou gratuitamente e durante dezenas de anos, a politização da língua, a sua dessacralização, de modo a que se conseguisse, de qualquer maneira, o estrangulamento e a anulação dos projectos culturais, que fossem, até por uma qualquer remota hipótese, oposição ou contrários ao poder das ditas castas. Não podemos esquecer que a linguagem é limitativa na forma, mas expansiva no universo que pode levantar, não só pela semântica, mas também pelo sentido que a escrita –e ou– a representação, lhe podem e devem acrescentar, o que incomodava seriamente os lápis azuis da censura e quem os comandava e manejava.
Também é essa a função da escola, conseguir que o conjunto dos alunos seja maioritariamente formado por bons leitores, que lhe permitam vir a entrar tranquila e capazmente nos mundos da ciência, da cultura ou da literatura, preparando-os para uma vida académica onde possam agir como cidadãos críticos, pois a academia será o melhor caminho para se entrar numa qualquer comunidade, desde a do condomínio, à do clube, à social ou à do partido, sempre com noção própria e fundamentada do que se vai fazer.
É essa formação de um espírito crítico que permitirá compreender melhor como o mundo e as sociedades são objecto de desavenças, bem ou mal despenteadas, mas que procuram sempre, destruir ou anular realidades bem definidas, a ver por uns aforismos antigos do filósofo francês Jacques Derrida, ‘Não se podem dizer as coisas mais importantes da vida, só se podem escrever’, até porque ‘As produções de massa não treinam os leitores, mas sim pressupõem fantasmagicamente um leitor já programado’.
Amen!
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor