BRASIL DE FATO – BOLETIM PONTO – ABANDONAR O RETROVISOR – por LAURO ALLAN ALMEIDA DUVOISIN e MIGUEL ENRIQUE STÉDILE

 

Eleição em São Paulo será uma das prioridades de Lula, com chapa liderada por Guilherme Boulos (PSOL) – Foto: Ricardo Stuckert

2 de Fevereiro de 2024

“Lula pretende fazer menos viagens internacionais e mais roteiros pelo país, de olho nas eleições”

 

Olá! mais do que os problemas não resolvidos do passado, é a falta de horizonte futuro o que paralisa o governo.

Agora vai? Para 2024, o governo sabe que não vai ter mais que se preocupar com os problemas do ano passado, como o 8 de janeiro – a cargo do STF e da PF – e a reforma tributária, ainda que faltem medidas econômicas a serem aprovadas. As resoluções de ano novo do presidente Lula envolvem menos viagens internacionais e mais roteiros pelo país, de olho nas eleições municipais, apostando na polarização com o bolsonarismo e não necessariamente com protagonismo petista, especialmente em São Paulo e no Rio. O governo também espera que as eleições municipais atraiam a atenção do Legislativo e diminuam a chantagem por emendas. Este também é o desejo de Arthur Lira que não quer a antecipação da discussão sobre a sua sucessão na Casa, o que seria uma redução do seu próprio poder antes do final do mandato. Ainda assim, a Câmara já começa o ano mais uma vez se queixando de Alexandre Padilha, sempre um favorito para cair numa reforma ministerial, assim como Rui Costa, outro ministro que conjuga pouca capacidade de fazer amigos e influenciar pessoas. No Judiciário, a aliança com Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes segue firme, mas a relação com o STF pode azedar sob a presidência de Luís Roberto Barroso, costumaz defensor dos empresários contra os direitos trabalhistas, e que, como previsto, deve tirar as pautas “morais” da Corte, como o direito ao aborto, para evitar o tiroteio com o Legislativo, seja por evitar a bancada de extrema-direita, seja para não legislar por jurisprudência. O problema é que isso significa enfrentar temas em que não há consenso com o Executivo, como a revisão da vida toda, revisão do FGTS e nomeações nas estatais. Por sua vez, Lula conta com o reforço de Flávio Dino no STF e de Lewandowski na Justiça para mediar os futuros conflitos.

.Carnaval sem purpurina. Para alívio de Lula e Haddad, 2024 também chegou com boas notícias na economia. Num quadro internacional que não é lá muito otimista, o resultado brasileiro parece promissor com queda do desemprego, inflação controlada, redução de juros e expectativa de crescimento positivo. Tudo isso fez com que as tensões entre o governo e Banco Central ficassem para trás e o mercado financeiro também desse uma trégua. Mas a velha ladainha das preocupações fiscais deve continuar. Daí a insistência de Haddad em lembrar que o déficit de 2023 é culpa dos precatórios não pagos pelo governo anterior. No nível internacional, o otimismo brasileiro deu lugar à cautela não só pelo clima beligerante global, mas também pelo tratoraço na França que ameaça enterrar o acordo Mercosul-União Europeia. Com tudo isso, o maior problema do governo continua sendo mostrar a que veio para além de ser um bom zelador de condomínio. A pauta ambiental e energética é um exemplo. Embora os efeitos das mudanças climáticas tenham se tornado comuns no país – com inundações, secas e ondas de calor extremo -, o governo tenta equilibrar-se entre defender a transição energética e redobrar a aposta nos combustíveis fósseis. E as soluções para os problemas do país até o momento passam pelo reforço da iniciativa privada, não só no âmbito da infraestrutura, mas também dos serviços de abastecimento d’água e energia elétrica, que são estratégicos para mitigar os efeitos das crise climática no quotidiano da população. Além disso, se o tempo do negacionismo sanitário ficou pra trás, o aumento do número de casos de dengue e o insuficiente número de vacinas mostram que muitos problemas na área da saúde aguardam solução. Isso para não mencionar a paralisia do governo em enfrentar os problemas da educação, em especial, apresentar alguma solução para o fracassado novo Ensino Médio. Tudo isso deveria servir de alerta para mostrar que as coisas não estão bem, apesar do clima festivo de fevereiro.

.007 a serviço da Malandragem. Mal o ano começou e o bolsonarismo sentiu o cerco do Judiciário e da PF sobre a estrutura, hierarquia e o financiamento da extrema-direita. Além da Operação Lesa Pátria, que respingou no líder da oposição Carlos Jordy e financiadores do agronegócio, as investigações sobre a “Abin Paralela” se aproximaram de dois mentores intelectuais do bolsonarismo – se é possível usar o termo “intelectual” – Carlos Bolsonaro e General Augusto Heleno. O temor agora é que as investigações atinjam ainda Flávio Bolsonaro e, finalmente, o patriarca da gangue. Para completar, ainda podem trazer constrangimentos ao revelar quais aliados foram vigiados pelos próprios Bolsonaros. Resta saber quais ações foram tomadas pelos bolsonaristas a partir das informações capturadas ilegalmente. Mas a Abin não é um esqueleto só no armário do bolsonarismo. Criada em 1990 pelo governo FHC, a agência nunca deixou para trás o DNA do malfadado Sistema Nacional de Informações (SNI). Em outras palavras, continuou sob controle militar e sempre fez mais espionagem política do que Inteligência. Além disso, a generalidade de suas funções faz com que, volta e meia, a Abin e a PF entrem em rota de colisão. Não à toa, a PF está se lambuzando com os fiascos da agência-irmã, enquanto servidores da Abin reclamam que havia muitos policiais federais nos cargos de direção da Agência. No meio do tiroteio, o Exército se faz de desentendido – justo ele que moldou a Abin e é o maior cliente do software espião israelense – para propor mais um serviço de inteligência sob seu controle. Resta um abacaxi inteiro para Lula descascar. Até aqui, o presidente já devolveu a Abin para o controle civil, algo que só aconteceu no segundo governo Dilma, nomeou o maior número de mulheres para a direção da Agência e um novo número 2 favorável à desmilitarização do serviço. Mas a insistência de Lula na permanência de Luiz Fernando Corrêa no comando da Abin, alvo das investigações e avalista de dois dos diretores demitidos pelo escândalo, ainda é uma incógnita.

.Ponto Final: nossas recomendações.

 

.Os quatro cavaleiros da III Guerra. Joe Biden e seus assessores se movem pelo apetite pela guerra e desconhecimento do Oriente. Artigo de Chris Hedges.

.Sequestro de carbono não resolve o problema climático, apenas entra na lógica de quem o causou. Em entrevista para o Instituto Humanitas, o pesquisador Mário Soares demonstra a ineficácia do mercado de carbono.

.‘Invasão Zero’: quem está por trás do grupo investigado pela morte de Nega Pataxó. No Brasil de Fato, Murilo Pajolla descreve o surgimento e nacionalização da milícia rural alimentada pelo bolsonarismo.

.Sem consentimento, indústria farmacêutica vigia milhões de receitas médicas. Médicos e pacientes têm seus dados capturados pela indústria farmacêutica para influenciar a prescrição de receitas e vendas de medicamentos. No UOL.

.Brasil precisa de outro rumo. No Outras Palavras, a economista italiana Clara Mattei, estudiosa dos ajustes fiscais e fascismos, alerta que o problema da economia brasileira é a dívida pública, não os investimentos.

.Bolsonaro não matou Marielle, mas é amigo de quem mandou matar. No Intercept, João Filho relembra os vínculos dos Bolsonaros com os milicianos do Escritório do Crime.

.Garçom do TST descobre durante palestra que foi escravizado por 14 anos. Mauricio de Jesus Luz, garçom do Tribunal Superior do Trabalho, conta à Folha como descobriu ter sofrido trabalho escravo em fazendas no Maranhão.

.O carnaval pelo Brasil: do abadá de R$15,7 mil na Sapucaí à nova capital mineira da festa. A Piauí mapeia as tendências desse ano para o mundo da folia.

.Um defeito de cor. Inspirado em Luiza Mahin, Luiz Gama e no livro de Ana Maria Gonçalves, a Portela apresenta seu samba enredo para o carnaval deste ano.

 

* Ponto é editado por Lauro Allan Almeida Duvoisin e Miguel Enrique Stédile.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Edição: Nicolau Soares


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