A Assembleia Geral da ONU proclamou o dia 18 de Junho como o Dia Internacional para Combater o Discurso de Ódio, com base na Estratégia e Plano de Ação da ONU sobre o Discurso de Ódio, lançados em 18 de junho de 2019.A resolução reconhece a necessidade de combater a discriminação, a xenofobia e o discurso de ódio, e apela a todos os intervenientes relevantes, incluindo os Estados, para que intensifiquem os seus esforços para enfrentar este fenómeno, em conformidade com o direito internacional dos direitos humanos.
O tema deste ano é “Combater o Discurso de Ódio: virar a maré”
O Discurso do Ódio está presente no nosso dia a dia. Entra-nos em casa pela televisão, pelos jornais, pela rádio e pelas redes sociais.
É mais fácil falar, escrever quando nos resguardamos por detrás de um papel, de um microfone, da Net…sabe-se que, porque vivemos em Democracia, o incitamento ao ódio, ao querer fazer do medo o veículo da repressão, é crime, relativamente aos Direitos Humanos.
Os políticos, da chamada extrema-direita e de alguma direita, aproveitam um direito conquistado à custa do sangue derramado aquando da ditadura de Salazar e Caetano. A liberdade de expressão do pensamento.
Com base nesse direito há quem já tenha defendido a pena de morte, a prisão perpétua, a proibição da interrupção voluntária da gravidez (tantas e tantas mulheres que sofreram a humilhação, as infeções e até a morte), por ser proibido no tempo da ditadura. Após a Revolução de Abril passou a ser legal.
O Discurso do Ódio é multifacetado, dirige-se aos diferentes na cor da pele, aos que têm uma língua materna diferente (quanto insucesso escolar tem provocado), aos diferentes pelas suas religiões, pela diferença de valores, pelo diferente vestuário, pelos hábitos alimentares, pelos seus rituais, pelas normas de conduta em diferentes sociedades.
É necessário desconstruir o Discurso do Ódio pelo Discurso da Paz, que não nega a existência de conflitos baseada na falta de reconhecimento positivo do eu e do outro e do outro e do eu.
Ser o eu ou ser o outro depende na sociedade em que vivemos e qual a maioria que regula essa sociedade.
O Discurso da Paz não foge da confrontação entre a diferença e a oportunidade de integração, sem que aquele que se integra perca as suas origens e os seus valores, mas que consiga refletir sobre as suas emoções e sentimentos, que muitas vezes são incompatíveis com os vigentes numa sociedade democrática. A sociedade democrática tem que arranjar soluções através da Educação das crianças, dos jovens e dos adultos.
A escola não serve só para aprender a ler, a interpretar serve também para refletir sobre o comportamento social, a vida dos adultos não se resume ao trabalho, mas também, ao longo da vida, à aprendizagem sócio cultural e comportamental, para reconhecimento das suas emoções e sentimentos.
Há que subtrair em cada um de nós os valores que se confrontam, e incorporar os valores que aproximam o eu e o outro.
Falamos de Ódio como se o Ódio fosse algo natural no ser Humano.
É importante referir que emoções e sentimentos interagem entre si, as emoções dão origem a sentimentos, contudo, um sentimento negativo gera mais emoções negativas.
As emoções nascem com o ser Humano, enquanto os sentimentos são aprendidos desde que nascemos.
Quando aparece perante nós um perigo, antes de qualquer outra coisa, mesmo da consciência, existe a emoção, o medo. Posteriormente surge o juízo “ tenho medo”, ”estou assustado” e isso é que são sentimentos.
“Nós não somos máquinas de pensar que sentem, somos máquinas de sentir que pensam.” (António Damásio) Cada vez mais, é importante ter consciência de que as nossas decisões começam a ser formadas, na maioria dos casos, pelas nossas reações emocionais e não por análises racionais – por mais que proclamemos que “pensamos pela nossa cabeça”.
Cada qual, sem prejuízo dos seus valores, precisa de encontrar soluções para auto regular as suas emoções e os seus sentimentos, de modo a poder refletir sobre as consequências em relação a si próprio e ao ambiente envolvente.
A confrontação e a procura de soluções justas para colmatar o Discurso do Ódio é o que se exige, nos tempos que correm, sob pena de a Humanidade se envolver em discriminações, em guerras, em repressões violentas dos mais fortes, e dos que se pensam com mais direitos de existência.
Se quisermos saber como se comportam as sociedades relativamente a decisões individuais, mas que se refletirão na sociedade como um todo, devemos primeiro saber o que sentem e depois o que pensam.
Os sentimentos são uma ideia sobre o corpo e/ou organismo, quando este é perturbado de alguma forma pelos processos emocionais, na sua essência, os sentimentos são ideias.
As emoções geram sentimentos como o amor, ódio, tristeza, alegria, vergonha e culpa, influenciando o comportamento, as escolhas e as tomadas de decisões, ditas racionais.
Mas e o ódio?
O Ódio é um sentimento aprendido, quem o pratica?
Aqueles que se sentem possuídos por uma verdade falsa que tantas repetidas se tornam numa verdade verdadeira.
Em todas as sociedades há pessoas, grupos descontentes como a sociedade é gerida. Todos querem viver melhor, quando aparece alguém que lhes promete que é possível viver com mais conforto, esse alguém faz saber que os dirigentes políticos vão tornar a vida pior devido à tomada de medidas que só servem alguns. Dizem o que os descontentes querem ouvir, mas que não são capazes de dizer com medo de sanções. O medo instala-se e acreditam que apareceu um salvador. O medo tolhe-lhe o pensamento crítico e faz-lhes sentir que o medo espreita a cada hora e só o ódio os pode “salvar” de uma democracia que ainda não atingiu todos os objetivos que lhes são devidos.
O Ódio torna-se a sua palavra de ordem.
Nas paredes da Escola António Damásio pode-se ler:
“Vão para a vossa terra”, “Querem-nos tirar os empregos” “ Fora com os pretos, nós somos uma escola branca”
“Temos tido uma excessiva tolerância com alguns grupos e minorias étnicas……os ciganos”, Julho 2017.
… não podemos dizer “entrem, usem e abusem”. Maio 2019, imigrantes.
… aquele tratamento químico garante que não haverá reincidência dos ímpetos sexuais para voltar a atacar.” Outubro de 2018, abusadores sexuais.
De todas as doenças do espírito humano, a fúria de dominar é a mais terrível – Voltaire

