A manhã acordou chuvosa, o dia clareou e vieram muitos amigos, de longe e de perto, da cidade e do campo, do sítio ONDE A ÁGUA CANTA E A SAUDADE CHORA, privando-se do legítimo lazer após uma semana de trabalho. Só a amizade os poderia mover, porque é mesmo de amigas e de amigos que se trata. Adultos, jovens e até crianças marcaram presença. Pessoas das ciências, das artes e das letras, pessoas de diferentes saberes, unidas pelo sentimento, pelo humanismo e pela fruição de um momento cultural.
A velha casa de pedra da UNICEPE estava cheia, respirando memórias de muitos nomes, de muitos tempos e de muitos livros. Uma mesa e três cadeiras, frente a uma janela que deixava ver, como pano de fundo, a antiga Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, tida outrora como a mais difícil da Europa. Uma caixinha de música com bombons e um cálice de Porto à espera do final. Muitas palavras sábias, palavras de carinho e afecto. Tenho de realçar, porém, o papel da apresentadora, Drª Cristina Marques, a minha distinta ex-aluna Cristina, brilhante pedagoga e prestigiada académica. A sua apresentação do livro, trabalho de excelência, revelou um conhecimento profundo e uma rara sensibilidade de análise, o que a todos nos deixou deslumbrados. Um dos assistentes, médico, disse ter sido a melhor apresentação de um livro a que assistiu na UNICEPE.
Toda a arte é difícil e a arte literária não fica atrás. Além disso é aquela que menos recursos tem. O escritor não se pode valer da cor, da forma, do som e do movimento. Tem apenas um papel em branco, uma caneta e a mente. A palavra é uma abstracção que se concretiza quando escrita ou falada. Por isso, é tão difícil transpor para o papel o sentimento e a vivência de qualquer momento. Escrever é uma coisa, fazer arte literária é outra. Descrever ou relatar poderá ser fácil, mas fazer sentir a quem lê, as emoções e sentimentos de quem escreve, pode ser difícil e doloroso. Por vezes consegue-se, e a arte abre-se aos olhos como o desabrochar de uma flor, outras vezes tudo fica dentro de nós porque as palavras se recusam a sair. Tudo isto, para dizer que ontem senti na apresentação da Cristina um encontro perfeito, uma irmandade de pensamento, sentimento e cumplicidade que entrou dentro do livro e o encarnou, como se fosse ela a autora. Comovi-me e senti que se inverteram os papéis neste fim de vida. Era eu a aluna e ela a mestra. E orgulhei-me de ter sido sua professora.
Para finalizar este momento único na UNICEPE, um bebé de poucos meses, pelas mãos do pai, vem à mesa saudar-me, com a sua boquita aberta, ainda sem dentes, e com um sorriso tão doce e luminoso que só podia ser entendido como um silencioso hino à amizade.