Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Nota de editor:
Devido à extensão do presente texto, o mesmo é publicado em duas partes, hoje a segunda.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
14 min de leitura
Parte B: Texto 13 – Piero Sraffa. Capítulo 5: A mercadoria padrão (2/2)
Edição
(ver aqui)
5.3 O problema específico de Sraffa e a sua solução
À luz das críticas de Bailey e das observações adicionais de Marx, podemos avaliar a solução de Sraffa para o problema do padrão invariável do valor de Ricardo. Comecemos por ilustrar a construção da mercadoria‑padrão de Sraffa e as suas principais características.
Sraffa define a mercadoria-padrão como aquela que, qualquer que seja a taxa de lucro, ocupa uma posição no ponto médio (o “separador de águas”) entre as mercadorias produzidas pelas indústrias que perdem se os preços não se alterarem em consequência de uma mudança na repartição e as das indústrias que ganham com essa mudança. É evidente que o preço deste produto específico varia, relativamente a outros produtos, sempre que a repartição se altera. A este respeito, a objeção de Bailey, acima citada, parece justificada. No entanto, o problema que Sraffa resolve com a mercadoria-padrão é bastante diferente uma vez que se refere à identificação de uma mercadoria em que uma variação dos salários seria compensada por uma variação igual e no sentido oposto dos lucros. O preço da mercadoria-padrão seria, assim, invariante relativamente ao dos meios de produção com exceção do trabalho, de modo que uma alteração do seu preço comparativamente ao de qualquer outra mercadoria “teria origem exclusivamente nas peculiaridades da produção da mercadoria que estivesse a ser comparada com ela e não nela própria” (Sraffa 1960: 18). No entanto, isto só é possível quando a indústria que produz a mercadoria utiliza meios de produção que são fisicamente homogéneos com o produto obtido. Em todos os outros casos, como salienta Sraffa (1960: 13), os preços relativos variam quando se regista uma alteração na repartição do rendimento [11].
Deixando de lado a possibilidade de existir um sistema com apenas uma mercadoria de base (nomeadamente um sistema em que um dos sectores utiliza apenas a sua própria produção e mão-de-obra como meios de produção, que é direta ou indiretamente necessária como meio de produção em todos os outros sectores como no “modelo do milho”), não pode existir uma mercadoria individual que satisfaça o requisito de Sraffa de estar no ponto médio (ou no ponto de viragem) de todas as outras mercadorias. De facto, partindo do pressuposto de que existem vários produtos de base, cada sector necessitará de outros produtos para além da sua própria produção e o preço do produto de qualquer sector deve variar relativamente ao dos seus meios de produção quando a repartição muda.
A solução frequentemente, embora erradamente, atribuída a Ricardo e a Marx [12] que exige que a mercadoria de base (mercadoria média) seja produzida por um sector em que a proporção entre o trabalho e o valor dos meios de produção seja igual à média social, não é, portanto, aceitável. A proporção entre o trabalho e o valor dos meios de produção de qualquer indústria particular inicialmente igual à média social deixa de o ser quando se verifica uma alteração na repartição do rendimento pois o agregado dos meios de produção dessa indústria varia de preço relativamente ao agregado dos meios de produção utilizados em todo o sistema [13]. Esta dificuldade só pode ser evitada no caso de os dois agregados serem fisicamente homogéneos, isto é, compostos pelas mesmas mercadorias e nas mesmas proporções. Mas, neste caso, a mercadoria única produzida no sector deve ser obtida por meio de uma técnica equivalente à utilizada para produzir todo o produto líquido. Ou seja, a mercadoria única deve ser tecnicamente indistinguível do produto líquido e, neste caso, estar-se-ia numa situação similar à acima descrita – a de um sistema com uma única mercadoria de base.
É, pois, necessário utilizar uma mercadoria compósita. Esta mercadoria corresponde ao produto líquido de um sistema que Sraffa designa por sistema padrão e que é, de facto, uma construção imaginária derivada do sistema real através de modificações adequadas nos níveis de atividade das várias indústrias. O sistema padrão – que, como se verá adiante, tem uma certa semelhança com o sistema de crescimento proporcional de von Neumann – não é mais do que uma construção auxiliar na análise de Sraffa, deduzida das propriedades atribuídas à mercadoria padrão. Nele, tanto os meios de produção como os produtos são compostos pelas mesmas mercadorias nas mesmas proporções.
Sraffa mostra que, quando tal mercadoria compósita é adotada como unidade de medida em que o salário é medido, estabelece-se uma relação linear entre o salário e a taxa de lucro; esta relação existe tanto no sistema padrão que produz a mercadoria padrão, como no sistema real do qual o sistema padrão é derivado. No sistema-padrão, esta relação significa simplesmente um aspeto da propriedade atribuída por definição à indústria “de base”.
| Nota do tradutor:
Para estar de acordo com a nomenclatura utilizada quando explicámos a dedução da mercadoria padrão (ver “De Bortkiewicz a Sraffa” aqui) optámos pela nossa formalização nesta nota pessoal e não pela de Roncaglia: No modelo de Sraffa, como vimos antes quando apresentámos a medida padrão, tínhamos o produto líquido do sistema padrão igual à unidade e com a mesma estrutura ou composição que o capital utilizado no sistema padrão, pelo que o rácio do produto líquido sobre o valor dos bens de capital era igual a R e era constante, ou seja, no sistema padrão o valor do capital é independente da repartição. Neste caso, rK + LW = PL = 1 = L onde PL representa o produto líquido padrão; L é a quantidade de trabalho vivo utilizado para criar o produto líquido padrão; r a taxa de lucro; K o capital utilizado, que é constante pois K é invariável com a repartição; L a quantidade de trabalho vivo utilizado na produção da mercadoria padrão e igual a 1, igualmente dada; e W a parte dos salários no produto líquido padrão. Sublinhe-se a relação PL = 1 = L que, na nossa opinião, valida a teoria do valor de que resulta a dedução dos preços de produção de acordo com o modelo de Sraffa e a que se dá o nome de neovalores. Admitamos que a repartição se altera. Neste caso, de rK + LW = PL = 1 = L, obtém-se Kdr + LdW = 0 uma vez que K e L são fixos. Daqui se tira Kdr = -LdW Como L = 1, tem-se Kdr = -dW; ou seja, (dr/dW) = -(1/K) = Constante o que significa que a relação entre salários e lucros é linear. O sinal negativo nesta última igualdade diz-nos que quando o montante total de salários aumenta (diminui) de dW, o de lucros decresce (aumenta) no mesmo montante, de Kdr. Assim, o sinal negativo nesta igualdade significa que r e W evoluem de forma simétrica e linearmente. |
No sistema padrão, K [14] não varia quando a repartição se altera uma vez que é apenas uma quantidade diferente da mercadoria compósita que é obtida como produção. Assim, a variação da taxa de lucro, r, é proporcional à variação dos salários, W [15].
Tanto o sistema padrão como o sistema real de que deriva são compostos pelas mesmas equações, embora com proporções diferentes; por conseguinte, as suas soluções são as mesmas e, para qualquer salário dado, a taxa de lucro deve ser a mesma.
Assim, se a mercadoria padrão é utilizada como padrão de medida do salário, deduz-se que existe também uma relação linear entre o salário e a taxa de lucro para o sistema real do qual o sistema padrão é derivado. Sraffa (1960: 23) é assim levado a concluir que “as proporções particulares, como as da mercadoria padrão, podem dar transparência a um sistema e tornar visível o que estava escondido, mas não podem alterar as propriedades matemáticas” do sistema.
Assim, Sraffa separa os dois problemas que Ricardo tentou resolver simultaneamente. O primeiro é a procura de um padrão de valor invariante às mudanças na tecnologia; o segundo, a determinação de um padrão de valor invariante às alterações na repartição do rendimento. Sraffa escolhe a mercadoria-tipo simplesmente como ponto de referência para o estudo das variações dos preços relativos que resultam das mudanças na repartição, em consequência de o trabalho e os meios de produção serem utilizados em proporções diferentes nos processos de produção das várias mercadorias. As proporções particulares da mercadoria-padrão e as suas propriedades especiais acima descritas ajudam a compreender a relação que existe entre as variações na repartição do rendimento e o sistema de preços relativos. Quando o papel da mercadoria-padrão se limita a este objetivo, deixa de estar sujeito às críticas formuladas por Bailey.
Como se viu acima, Ricardo tenta, sem sucesso, estabelecer um padrão de medida que, ao mesmo tempo, cumpra a dupla função de ser invariável às alterações nas técnicas de produção e na repartição do rendimento. Sraffa mostra que o problema só pode ser resolvido se as duas funções forem separadas, concentrando-se na segunda de forma isolada. A mercadoria padrão é invariável (no sentido específico acima referido) no que se refere às alterações na repartição do rendimento, partindo do pressuposto de uma tecnologia dada. No entanto, o produto padrão altera-se com a evolução das técnicas de produção nos sectores de base.
Assim, um dos problemas das relações de troca pode ser resolvido e a solução mostra claramente como é totalmente diferente do problema metafísico sobre a natureza do valor, ou valor “absoluto”. O contributo de Sraffa deste ponto de vista é o de clarificar a relação exata pretendida por Ricardo bem como os limites da solução do dilema de Ricardo e, implicitamente, a diferença entre esta questão – que é suscetível de tratamento analítico e tem uma solução bem definida – e a questão abordada por Marx na sua teoria do valor trabalho [16].
5.4 A mercadoria-padrão, o trabalho comandado e o sistema de von Neumann
Um outro problema relacionado com a mercadoria padrão é uma curiosidade na história da análise económica que é apontado pelo próprio Sraffa (1960: 94) nas suas “Referências de literatura”: nomeadamente o facto de a mercadoria padrão, identificada na análise de um problema “ricardiano”, ter uma forte ligação com o trabalho comandado, ou seja, o padrão de medida proposto por Smith e fortemente combatido pelo próprio Ricardo.
O aspeto curioso é aqui referido não só pela sua importância intrínseca, mas também como ilustração de uma questão mais geral, nomeadamente o perigo de se atribuir uma importância decisiva a semelhanças meramente formais sem atender a eventuais diferenças substanciais entre os problemas em análise. Utilizar mecanicamente os instrumentos matemáticos derivados de uma teoria originalmente concebida para a resolução de um problema na abordagem de um problema diferente pode camuflar dificuldades conceptuais básicas.
A semelhança analítica entre a mercadoria padrão e o “trabalho comandado” de Smith, apontada por Sraffa, não é em si mesma muito surpreendente e a demonstração que ele dá é muito simples. Como Sraffa sugere, podemos substituir o produto líquido padrão como unidade de medida pela “quantidade de trabalho que pode ser adquirida utilizando o produto líquido padrão”. O seu montante “variará inversamente com o salário padrão e diretamente com a taxa de lucro”, mas “de acordo com uma regra simples que é independente dos preços”. Trata-se, por definição, de uma medida equivalente ao produto líquido padrão, ou seja, a uma certa quantidade da mercadoria padrão e, evidentemente, tem as mesmas propriedades; em particular, existe uma relação linear entre a taxa de lucro e o salário quando este é medido em termos dessa medida [17].
O que é “surpreendente” é o facto de Sraffa, na tentativa de encontrar uma solução para um problema ricardiano associado às relações de troca, apresentar uma norma sobre o valor semelhante à que tinha sido proposta por Smith pela sua utilidade para tratar um problema diferente, o do crescimento económico. Este facto pode, de facto, ser considerado como indicativo das ligações existentes entre os diferentes problemas, embora estes só possam ser resolvidos separadamente.
Para além da similitude entre os dois padrões de medida – a mercadoria padrão de Sraffa e o “trabalho comandado” de Smith – existe uma semelhança paralela entre o sistema padrão de Sraffa e o sistema de crescimento proporcional desenvolvido por von Neumann [18]. Em ambos os casos, a produção e os meios de produção são compostos pelas mesmas mercadorias nas mesmas proporções. No entanto, esta semelhança superficial entre o sistema padrão de Sraffa e o sistema de crescimento proporcional de von Neumann esconde uma diferença muito substancial sobre o objetivo que as duas construções teóricas pretendem atingir. O sistema de Sraffa inscreve-se na procura de um padrão de medida dotado de propriedades particulares. O sistema de Von Neumann relaciona-se com a procura de uma trajetória de crescimento de equilíbrio com a maior taxa de crescimento possível para um sistema económico sem progresso técnico e com rendimentos constantes à escala. O sistema de Sraffa está ligado ao estudo dos preços relativos; o de Von Neumann tem sobretudo a ver com o estudo dos níveis de atividade [19]. O ponto em que os dois sistemas diferem de forma mais evidente diz respeito ao tratamento das mercadorias salariais, cuja produção, no sistema de von Neumann, deve expandir-se ao mesmo ritmo que o de todas as outras mercadorias. Pelo contrário, como vimos no capítulo anterior, no sistema de Sraffa os bens salariais só aparecem na mercadoria padrão na medida em que são também bens tecnologicamente básicos e, portanto, independentemente do seu papel como bens salariais.
5.5 A relação entre a mercadoria padrão e a mercadoria média
Finalmente, outro aspeto interessante (que Sraffa, no entanto, não discute) é a semelhança, como vimos acima, entre a mercadoria padrão e a “mercadoria média” de Ricardo e Marx. A comparação das abordagens dos três autores permite uma melhor compreensão da transformação que Sraffa efetua nas proposições originais ricardianas relativas ao padrão de medida, bem como dos objetivos diferentes prosseguidos nas análises de Marx e Sraffa. Esta comparação pode também servir de salvaguarda contra a tentação de alargar a aplicação da norma da mercadoria padrão a problemas que apresentam uma semelhança apenas formal com os analisados por Sraffa.
O conceito de mercadoria média, tal como utilizado por Ricardo, oferece um ponto de partida útil para esta comparação. O quadro analítico de Ricardo levou-o a procurar um padrão de medida que pudesse constituir um ponto de referência relativamente às alterações tanto na repartição do rendimento nacional como nas técnicas de produção. A procura de tal medida conduziu a um beco sem saída. O próprio Ricardo se apercebeu deste facto e, perto do fim da sua vida, admitiu abertamente que “é preciso confessar que não existe na natureza uma medida perfeita do valor”[20]. Assim, com plena consciência, Ricardo desistiu de procurar uma solução para o problema da medida perfeita do valor. Considerou a mercadoria média que se propunha adotar como padrão de medida simplesmente como uma solução imperfeita que proporcionava uma melhor aproximação à realidade do que o recurso a casos extremos [21]:
Parece-me muito claro que devemos escolher uma medida produzida por trabalho empregado durante um certo período e que supõe sempre um adiantamento de capital porque […] uma mercadoria produzida por trabalho empregado durante um ano é uma média entre os extremos de mercadorias produzidas, por um lado, por trabalho e adiantamentos por muito mais de um ano e, por outro, por trabalho empregado apenas por um dia sem qualquer adiantamento; a média dará, na maioria dos casos, um desvio muito menor relativamente à verdade do que se qualquer dos extremos fosse usado como medida.
Consideremos agora o problema colocado por Marx e verifiquemos como também difere do levantado por Sraffa. Na segunda secção do volume 3 de O Capital, Marx discute os atributos da esfera particular de produção em que a composição orgânica do capital (nomeadamente a razão entre o valor dos meios de produção e o trabalho) é assumida como igual à média social. Fá-lo no decurso da discussão da relação entre valores e preços (o chamado problema da transformação). De facto, Marx defende à partida que os resultados obtidos na troca segundo o valor do trabalho não se alteram quando se consideram as trocas segundo os preços de produção. Com efeito, de acordo com Marx, a passagem do valor do trabalho para os preços de produção implica apenas uma redistribuição da mais-valia entre os capitalistas nos vários sectores produtivos. No primeiro caso – relações de troca segundo valores de trabalho iguais – a mais-valia é distribuída entre os sectores na proporção do trabalho diretamente empregado em cada sector (capital variável). No segundo caso – as trocas feitas segundo os preços de produção – os lucros são distribuídos na proporção do valor total (calculado a preços de produção) do capital adiantado (capital variável mais capital constante). Marx argumenta, além disso, que o preço da produção agregada (total) é igual ao valor total produzido e que a mais-valia total (ou, por outras palavras, o valor do produto excedente expresso pela quantidade de trabalho direta ou indiretamente necessária para a sua produção) permanece igual à massa dos lucros. Esta mesma propriedade de equivalência deveria ser encontrada, na sua opinião, numa determinada esfera de produção: aquela com a composição orgânica média do capital, pois nesse sector o preço de produção do produto seria igual ao seu valor e os lucros seriam iguais à mais-valia.
Ora, a massa dos lucros pode ser igual à massa da mais-valia, se esta igualdade for escolhida como restrição para a determinação do padrão de medida [22]. Neste caso, porém, a condição de igualdade entre o valor e o preço do produto total não pode ser imposta simultaneamente sem que o sistema seja sobredeterminado. As duas condições são compatíveis conjuntamente apenas se o sistema considerado corresponder ao sistema padrão de Sraffa. Neste caso, de facto, os meios de produção, a produção e o excedente são simplesmente quantidades diferentes de uma única mercadoria compósita. Além disso, só nessa condição pode existir uma mercadoria compósita com a composição orgânica do capital igual à média social para qualquer nível da taxa de lucro e só nesse caso as duas condições de equivalência acima referidas podem ser simultaneamente satisfeitas. Mas, mais uma vez, isso implica que a produção e os meios de produção do sistema como um todo sejam quantidades diferentes da mesma mercadoria compósita (média).
De qualquer modo, um sistema real que coincide com o seu sistema padrão deve ser considerado como uma situação muito especial: de facto, é algo que só poderia ocorrer por mero acaso. A simples possibilidade da existência deste caso particular não pode, portanto, ser utilizada como base para a tentativa marxiana de fornecer uma prova geral da igualdade simultânea entre o valor da produção e o seu preço de produção e entre a mais-valia total e os lucros totais, quer para o sistema como um todo quer para qualquer mercadoria particular que possa ser considerada representativa, no sentido de ser a “média” das relações que ocorrem no sistema considerado como um todo.
No entanto, independentemente da validade de qualquer tese particular apresentada por Marx, parece evidente que o objetivo que ele perseguia com a sua investigação sobre a mercadoria média não era o mesmo que o de Ricardo. No caso de Marx, a importância da mercadoria média está subordinada à propriedade de equivalência entre os lucros e a mais-valia e entre o valor (do trabalho) e o preço da produção, que ele considerava válida tanto para o sector que produzia a mercadoria média como para o sistema no seu conjunto. As relações analíticas estudadas por Marx inscrevem-se assim numa procura de uma ponte entre o sistema de valores do trabalho e o sistema de preços de produção. No caso de Ricardo, a mercadoria média é uma simples aproximação ao padrão teórico desejado que deveria constituir o ponto de referência perfeito para o estudo da relação entre as mudanças nos preços relativos, as variações na repartição e as alterações da tecnologia [23]. Sraffa resolve o problema de Ricardo com o conceito de mercadoria-padrão ou, mais precisamente, resolve apenas a primeira metade do problema de Ricardo pois, como já foi referido, a mercadoria-padrão não é, em si mesma, invariável com as mudanças de tecnologia.
Só uma confusão entre os problemas específicos abordados por Sraffa e por Marx poderia levar à conclusão de que a mercadoria-tipo de Sraffa tem uma utilidade ou um significado particular na resolução do problema estudado por Marx. Por exemplo, é possível estabelecer uma relação linear entre a taxa de exploração (avaliada em termos de valores do trabalho) e a taxa de lucro se a mercadoria-tipo for utilizada como padrão de medida e os salários forem pagos ou consumidos em termos da mercadoria-padrão. Mas assumir que os salários são pagos desta forma contradiz um ou o outro dos dois pontos fundamentais da análise de Marx. Ou (a) o pressuposto de que os salários são pagos em termos da mercadoria-padrão contradiz a teoria marxiana da moeda, uma vez que Marx a vê como uma mercadoria que é escolhida pelo processo histórico e não pelas suas características particulares no processo produtivo [24]; ou (b) o pressuposto de que o cabaz de consumo dos trabalhadores tem exatamente as mesmas proporções que a mercadoria-padrão ignora a distinção qualitativa – que Marx sublinha repetidamente – entre bens de salário e bens de capital.
A mercadoria-tipo de Sraffa tem um papel decisivo na solução do problema de Marx por Medio (1972). Ele demonstra que, para a indústria que produz a mercadoria padrão de Sraffa (nomeadamente o sistema padrão), a igualdade entre o preço de produção e o valor da produção implica também a igualdade entre o lucro e a mais-valia. A sua análise não pode, contudo, demonstrar esta dupla equivalência para o sistema real. Mas é exatamente isso que seria necessário para que a mercadoria média pudesse desempenhar o papel que Marx lhe atribuiu, como representante média do sistema real, para o qual a relação entre o capital constante e o capital variável deveria ser a mesma que para o sistema real no seu conjunto. A mercadoria padrão de Sraffa é uma “média” apenas em relação ao sistema padrão, mas não, em geral, em relação ao sistema real; assim, não pode exibir as propriedades que Marx atribui à sua conceção de uma “média”. Para Marx, o funcionamento de um sistema imaginário com proporções diferentes das do sistema real não teria qualquer relevância ou interesse particular.
Em conclusão, sublinhemos que a mercadoria-padrão – um “ponto particular” e não uma “proposição central” na análise de Sraffa – não pode ser vista como a unidade de medida “perfeita” a não ser de um ponto de vista específico, o estudo das mudanças nos preços relativos quando a repartição do rendimento se altera, sob o pressuposto de uma tecnologia dada. Por conseguinte, é apenas uma solução parcial para a procura de um padrão de valor invariável por parte de Ricardo. Também não constitui uma solução para Marx que procurava uma mercadoria média como ponte entre o mundo dos valores do trabalho e o mundo dos preços de produção. No entanto, as suas propriedades, quando especificadas e investigadas com exatidão, são notáveis e, como vimos, acabam por ter uma certa relevância para a análise de outras questões que dizem respeito, de uma forma ou de outra, à estrutura tecnológica da economia.
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Notas
[11] É óbvio que se deve excluir o caso (muito específico e praticamente impossível de se verificar) de igual proporção da mão de obra e (o valor) dos meios de produção em todos os sectores, em que os preços relativos não se alteram com as variações da repartição. No que se segue, partir-se-á do princípio de que não é esse o caso.
[12] Erradamente porque os dois autores (sobretudo Ricardo) estavam conscientes dos limites de tal solução e porque eles (sobretudo Marx) lhe deram uma interpretação diferente da mercadoria padrão de Sraffa. Este ponto será desenvolvido mais detalhadamente um pouco mais à frente, no ponto 5.5.
[13] E em que o período de produção é também igual à média social. Este, por hipótese, é dado no esquema de Sraffa porque se supõe que o período de produção é o mesmo para todos os sectores. Este pressuposto foi discutido anteriormente<e no ponto 3.5.
[14] Os outros símbolos são os utilizados por Sraffa: r é a taxa de lucro; W a taxa de salário; e L a quantidade de mão de obra utilizada no sistema.
[15] A relação entre a utilização por Ricardo de uma única variável para medir os lucros e o capital avançado (milho ou trabalho necessário para a produção) e a utilização da mercadoria padrão de Sraffa pode agora ser vista mais claramente. No sector que produz o produto padrão, os lucros e o capital avançado podem ser comparados quando o salário é expresso em termos da mercadoria-tipo, pois trata-se simplesmente de quantidades diferentes desta mesma mercadoria. A taxa de lucro pode então ser expressa como um rácio de quantidades físicas similares. Em relação ao problema de Ricardo, a mercadoria-padrão adquire assim o significado de um “análogo físico” na determinação da taxa de lucro. Este ponto é salientado com particular ênfase por Eatwell (1974, 1975b).
[16] O primeiro a referir que a conceção de Sraffa da função da unidade de medida é notavelmente mais restritiva do que a conceção ricardiana original foi Napoleoni (1961: 109-12). No entanto, ele dá uma explicação diferente e um juízo (negativo) diverso do que aqui é proposto. Uma explicação semelhante à apresentada aqui é dada por Meldolesi (1966). A necessidade de especificar melhor o problema de Ricardo, discutida por Sraffa (1951), é investigada analiticamente, como vimos acima, por Garegnani 1960. No ponto 5.5 serão discutidas as diferenças entre a mercadoria padrão e a “mercadoria média” de Ricardo e Marx.
[17] Sraffa (1960: 32), cf. também a demonstração apresentada por Gilibert (1972).
[18] von Neumann, (1945-6). Este é talvez o mais importante dos casos a que Sraffa no seu Prefácio alude: “Outros têm, de tempos a tempos, assumido independentemente pontos de vista semelhantes a um ou outro dos adotados neste texto e desenvolveram-nos ou seguiram em direções diferentes das seguidas aqui” (Sraffa 1960: vi). O outro caso de grande interesse é o quadro input-output de Leontief, que apresenta certas semelhanças com o sistema de Sraffa. Cf. (Pasinetti 1975).
[19] Do ponto de vista da análise dos preços relativos, o sistema de von Neumann é equivalente ao primeiro sistema de Sraffa com excedente no qual o salário é dado como um cabaz de mercadorias. Não é, portanto, mais do que um primeiro passo para a resolução do problema levantado por Sraffa – o da influência das mudanças na repartição sobre a estrutura dos preços relativos. Além disso, há que ter em conta que, ao contrário de Sraffa, von Neumann assume rendimentos constantes à escala (cf. ponto 7.1).
[20] No manuscrito sobre “Valor Absoluto e Valor de Troca”: Ricardo (1951-5, vol. IV: 404). Para compreender o significado da procura de um padrão de medida “natural” por parte de Ricardo, deve ter-se em mente a importância, naquele período, das tentativas de unificação das medidas físicas em cada país. No caso do metro, introduzido em França em 1793, o fundamento natural para a definição do padrão foi encontrado no comprimento de um arco de meridiano a uma dada latitude. Cf. Roncaglia (2001: 192n); mais genericamente, sobre a importância, a dificuldade e o gradualismo na introdução dos padrões de medida comuns a todos os países, cf. Kula (1970).
[21] Ricardo (1951–5, vol. 4: 405).
[22] Que é o que Sraffa considera ao admitir o salário de subsistência como sendo incluído nos meios de produção ou igual a zero e, desta forma, torna a quantidade total de trabalho empregue no sistema igual a 1 (estabelecendo assim uma unidade física de medida para o tempo de trabalho) e fixa o preço de produção do conjunto das mercadorias que constituem o excedente ou o produto líquido igual à unidade (estabelecendo assim uma unidade de medida para os preços). Cf. Sraffa (1960: 10-11)..
[23] Marx (1894: 202-3) também afirma, em relação à “mercadoria de composição média” que “uma subida ou descida dos salários não alteraria o preço de produção, k + p (“custo de produção mais lucro”), tal como não alteraria o valor das mercadorias e apenas efetuaria um movimento [no sentido] oposto correspondente [a] uma queda ou um aumento na taxa de lucro”. Mas parece evidente que Marx considera os dois problemas como distintos e que, dos dois, é atribuída apenas uma importância secundária por Marx ao problema que Ricardo tinha em mente. Sobre este ponto, ver também Marx (1905-10, vol. 2: 180).
[24] As características qualitativas particulares da mercadoria escolhida podem ser relevantes (o seu “valor de uso”) nomeadamente a divisibilidade, a durabilidade, etc., mas não a sua utilização como meio de produção.
O autor: Alessandro Roncaglia [1947-] foi professor catedrático de Economia Política na Faculdade de Ciências Estatísticas da Universidade de Roma La Sapienza (1981-2017), sócio correspondente da Academia dei Lincei, diretor das revistas Moneta e credito e PSL Quarterly Review e presidente da Sociedade Italiana de Economistas. Autor de Breve História do Pensamento Económico, Economistas que se Equivocam, As raízes culturais da crise (2015), A era da desagregação: história do pensamento económico contemporâneo, A riqueza das ideias, Uma história do pensamento económico (2005), Economistas Clássicos, O mito da mão invisível (2011), Sraffa e a teoria dos preços (1978), Piero Sraffa, his life, thought and cultural heritage (2000).



