Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 1 – Dos Clássicos a Sraffa, de Sraffa aos neo-ricardianos
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
15 min de leitura
Nota de editor: Este texto devido à sua extensão e nível de abstração é publicado em três partes. Hoje a terceira.
Significativamente, o economista italiano Giorgio Gilibert disse, em 1989, que Produção de Mercadorias por meio de Mercadorias, publicado simultaneamente em Cambridge e em Turim em 1960, é “um dos mais fascinantes livros da história da economia” (On the meaning of Sraffa’s Equations: Some Comments on Two Conferences, em Political Economy, volume 5, número 2, pág 181, 1989).
Nota prévia:
Considero este texto de Heinz D. Kurz muito bom, de que que pessoalmente não gosto. E não gosto porque acho que não tem sentido andar a escarafunchar toda uma obra, a de Marx, à procura de pequenas contradições em coisas que são depois irrelevantes tendo em conta as definições assumidas da maturidade de Marx, como é o caso do salário. De resto muito de Marx é decalcado de Ricardo e reafinado por ele. O texto faz isso com o objetivo de desligar Sraffa de Marx, desligando os parágrafos 10 e 12 de Sraffa na Produção de Mercadorias e privilegiando a mercadoria padrão sem a ligação ao trabalho.
É porém um texto importante porque nos mostra muito lucidamente que a questão da unidade de medida tem atravessado todas as gerações de pensadores, desde os gregos e por isso vale imenso a pena lê-lo.
Júlio Mota
Parte B: Texto 21 – Marx e a “Lei do valor”. Uma apreciação crítica por ocasião da comemoração do seu bicentenário (3/3)
Publicado por
em 26 de Junho de 2018 (original aqui)
Investigación económica, vol. LXXVII, nº 304, 2018. UNAM, Facultad de Economía
(conclusão)
6. O conceito de trabalho abstracto – um conceito significativo e útil?
A obra de Marx é composta por várias camadas, resultantes de diferentes períodos da sua atividade e reflectindo diferentes influências e preocupações. Não admira, portanto, que existam tensões e até contradições entre as suas diferentes partes. Isto aplica-se também ao conceito de trabalho abstrato ou “trabalho humano em geral”. Faccarello (1983) (ver também Faccarello, Gehrke e Kurz 2016) chamou a atenção para as definições diferentes e mutuamente incompatíveis que encontramos nos escritos de Marx. Aqui basta confrontar duas dessas definições, uma que trata todos os tipos de trabalho da mesma forma, a outra que segue os economistas clássicos, utilizando uma determinada estrutura de salários para tornar homogéneo o trabalho heterogéneo.
É conhecida a afirmação de Marx: “O trabalho [humano] (…) que constitui a substância do valor é trabalho humano homogéneo, dispêndio de uma força de trabalho uniforme” e, portanto, “um dispêndio produtivo de cérebros, nervos e músculos humanos” (Marx, 1954, pp. 46 e 51). A primeira parte desta definição pressupõe que o trabalho já foi, de uma forma ou de outra, tornado homogéneo, enquanto a segunda parte tem aparentemente por objetivo revelar como é que isso acontece. No entanto, o leitor é enviado de um conjunto de coisas heterogéneas (diferentes tipos de trabalho) para outro conjunto (cérebros, nervos, músculos humanos) [9]. Será que as proporções em que estas coisas muito diferentes são gastas produtivamente nos vários tipos de trabalho não desempenham qualquer papel? Será que faz muito sentido somar simplesmente as horas trabalhadas, independentemente do tipo de trabalho efectuado, do nível de qualificação envolvido, do tempo necessário para o adquirir, dos salários que os trabalhadores recebem, etc.? Como comparar, por exemplo, o dispêndio produtivo da força de trabalho de um bosquímano no deserto da Namíbia e de um especialista em informática em Silicon Valley, para não falar (seguindo os autores clássicos) do desempenho de máquinas artificialmente inteligentes?
A agregação dos tempos de trabalho de todos os trabalhadores tem sido amplamente utilizada para exprimir, nas palavras do próprio Marx, “a noção de igualdade humana [que] já adquiriu o carácter fixo de um preconceito popular”[10] . Isto recebe algum apoio da visão de Marx de que o tipo de progresso técnico adequado ao modo de produção capitalista tende a tornar supérfluo o trabalho qualificado e reduzi-lo a um trabalho simples que pode, em princípio, ser realizado mesmo por crianças.
No entanto, como já foi referido, existem outras definições de trabalho abstrato em Marx, uma das quais reflecte a “redução” dos economistas clássicos de diferentes tipos de trabalho a um único tipo através de taxas de salário relativas. Adam Smith, por exemplo, tinha proposto esta chave de conversão em A Riqueza (e.g. WN I.VI.3) e Ricardo tinha-a adotado em Os Princípios (Works I, p. 20). Os economistas clássicos eram também claros, por exemplo, quanto ao facto de, no caso do trabalho qualificado, a distinção entre trabalho e capital se esbater. Smith, por exemplo, via uma analogia estrita entre um bem de capital duradouro e a força de trabalho especializada e sublinhou, de forma célebre, que um homem instruído “pode ser comparado a uma dessas máquinas dispendiosas. O trabalho que ele aprende a realizar, para além dos salários habituais do trabalho comum, substituirá todo o custo da sua educação, pelo menos com os lucros normais de um capital igualmente durável” (WN I.x.b.6).). Para uma descrição sumária da posição clássica e da forma de abordar analiticamente os seus vários aspectos, ver Kurz e Salvadori (1995, cap. 11).
Curiosamente, Marx na mesma linha sublinhou ,por exemplo: “se o salário de um ourives é pago a uma taxa mais elevada do que a de um trabalhador diário, (…) o excedente de trabalho do primeiro produz também uma mais-valia correspondentemente maior do que a deste último ” (Marx, 1959, p. 264). Isso reflete a hipótese de Marx de que a taxa de mais-valia é uniforme em todas as esferas da produção, o que implica que as diferenças nos salários não impedem essa uniformidade. Para que isto seja válido, é necessária a conversão clássica de diferentes tipos de trabalho através da estrutura dos salários (ver também Kurz e Salvadori, 2010). Os salários mais elevados não reflectem, pelo menos até certo ponto, o custo de produção da qualidade particular do trabalho em causa e, portanto, reflectem o que hoje em dia é chamado de “capital humano” — um conceito há muito conhecido pelos economistas, como mostra a citação acima de Smith?
Podemos resumir brevemente o conceito clássico no caso do não excedente. Suponha que cada uma das três mercadorias nas equações [1] seja produzida por um tipo diferente de trabalho concreto e que cada tipo de trabalho receba um salário real diferente por ano. Suponha que o salário real na primeira indústria é dado pelo vetor wa e o número correspondente de trabalhadores empregados para produzir a produção bruta é dado por La; os vetores e escalares correspondentes em relação às outras duas indústrias são wb e Lb e wc e Lc, respectivamente. Quanto é que os três tipos de trabalho “contribuem” para os valores da produção bruta das três mercadorias?
Selecione o tipo (ou pacote) de trabalho(s) em termos dos quais deseja expressar trabalho abstracto. Suponha que seja o trabalho da indústria que produziu a mercadoria C. Resolva equações [1] para va e vb, tomando a mercadoria c como padrão de valor (vc = 1). Agora, calcule os valores dos salários reais dos trabalhos heterogéneos em termos desta norma. Isto dá:
Em seguida, agreguem-se essas quantidades em todas as indústrias, a fim de obter o valor agregado líquido do trabalho no sistema como um todo em termos de mercadoria c. Daqui se segue que as quantidades de trabalho abstracto calculadas são meramente derivadas dos dados físicos fornecidos. Não fornecem novas informações que ainda não estivessem disponíveis nestes dados. Portanto, eles não podem fornecer uma base, muito menos uma base independente, de análise de valor (ver também Steedman, 1977).
O que importa na teoria do valor e da distribuição, como salientaram os economistas clássicos, são os custos reais de produção, que reflectem, nomeadamente, os salários reais efectivamente pagos. Portanto, se o objetivo de um teórico é determinar a taxa geral de lucro e os preços de produção, como Marx claramente fez, ele ou ela deve ter em conta a estrutura salarial. Acasos à parte, partir de horas de trabalho ignorando taxas salariais diferentes e possivelmente muito diferentes, não pode conduzir a uma determinação correcta das grandezas pretendidas.
Não estando na posse de uma teoria do valor e da distribuição totalmente correcta, Ricardo usou a contabilidade baseada no valor do trabalho como uma solução improvisada, que, estava convencido, daria um resultado que se aproximasse do resultado correcto com suficiente precisão. Nesse sentido, efectuou comparações intertemporais em relação à mesma economia em épocas diferentes e comparações interespaciais de economias diferentes. Obviamente, a utilização da estrutura salarial como operador procurado só fazia sentido se, no primeiro caso, essa estrutura não mudasse muito ao longo do tempo e se, no segundo caso, fosse praticamente a mesma em diferentes economias. Se estas condições não fossem cumpridas ou se alguns tipos de trabalho fossem vítimas do progresso técnico e se entrassem no sistema de produção tipos de trabalho inteiramente novos, a famosa busca de Ricardo por uma “medida invariável de valor” voltaria a ocorrer sob a forma de uma busca por um tipo invariável de trabalho. É evidente que, se compararmos uma mesma economia em momentos distantes, ou economias distantes umas das outras no espaço, pode acontecer que não tenham em comum nenhum tipo particular de trabalho, muito menos o mesmo conjunto de trabalhos. Isso significaria uma preocupação para a abordagem do problema do valor das mercadorias pelo seu trabalho incorporado, incluindo, é claro, a abordagem de Marx, que seguiu os economistas clássicos a esse respeito em alguns dos seus trabalhos.
Parte da discussão aqui apresentada foi inspirada pelas reflexões de Piero Sraffa sobre problemas conexos mas diferentes da procura de uma medida última de valor pelos economistas clássicos e do conceito de “terceiro comum” de Marx, nos seus primeiros trabalhos, até agora não publicados, conservados no Trinity College, em Cambridge. É, pois, oportuno chamar a atenção do leitor para alguns deles.
7. Sraffa sobre o terceiro comum e o raciocínio baseado no valor do trabalho
Na primavera de 1928, Sraffa contemplou o famoso fragmento de Heraclito, segundo o qual “todas as coisas são trocadas pelo fogo e o fogo por todas as coisas, como são trocados os bens por ouro e ouro por bens”.
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Nota do revisor Isto é o fragmento 90 de Heraclito que é traduzido assim por Carlos Louro Fonseca: Todas as coisas são uma igual troca pelo fogo e o fogo por todas as coisas, como as mercadorias o são pelo ouro e o ouro pelas mercadorias. fr 90 Os filósofos pré-socráticos : história crítica com selecção de textos / G. S. Kirk, J. E. Raven, M. Schofield ; trad. Carlos Alberto Louro Fonseca. – 6ª ed. – Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2008 |
Sraffa aparentemente deparou-se com este fragmento ao ler a edição francesa do volume I do Capital (ver D3/12/10, p. 24). Ele insistiu que toda a confusão encontrada na literatura em relação à sua interpretação desaparece se alguém substitui “eletricidade” por fogo. Embora ele não o diga explicitamente, Sraffa propôs essa substituição com toda a probabilidade, porque nos tempos modernos a eletricidade é um insumo necessário na produção de toda e qualquer mercadoria e, portanto, pode ser considerada um terceiro comum ou “substância” comum” [11]. Alguns anos mais tarde, a interpretação de Sraffa poderia ter recebido algum apoio do eminente físico alemão Max Planck. Num livro sobre física moderna, que Sraffa tinha na sua biblioteca e tinha anotado, Planck escreveu: “Se compararmos a velha teoria com a nova, descobrimos que o processo de reduzir todas as distinções qualitativas a distinções quantitativas avançou muito consideravelmente”. Ele acrescentou: “De acordo com a visão moderna não há mais do que duas substâncias fundamentais, a saber, eletricidade positiva e negativa” (Planck, 1931, p. 16).
Sraffa voltou ao problema de uma substância comum às diversas mercadorias em 1940, depois de ter lido a reimpressão em inglês do volume I de Capital num campo de internamento da Ilha de Man onde ele e outros estrangeiros que viviam no Reino Unido foram colocados. Sraffa questionou-se: “qual é a força deste argumento” e respondeu: “este apela para algum princípio geralmente aceite, que deve ser declarado explicitamente. Algo como isto: se duas coisas são iguais em dado sentido, também o devem ser em algum outro sentido”. Ele chamou a atenção para o facto notável de que a ideia geral subjacente a essa visão também foi defendida pela teoria marginalista, que rejeitou, no entanto, a especificação de Marx e insistiu que a utilidade marginal era como a coisa “comum”.
No entanto, alguns críticos rejeitaram completamente a ideia, independentemente da forma que a esta foi dada. Estes incluíram Cassel (1925, especialmente pp. 62-67), que objetou: “Se dois objetos são de igual comprimento, porque é que eles devem ter qualquer outra propriedade em comum, além do mesmo comprimento?” Embora Sraffa concordasse com Cassel que Marx tinha colocado o problema de uma forma absurda, isso não significava que fosse sem significado. Sraffa explicou:
Agora, se uma medição é feita, e duas coisas são consideradas como iguais , diz-se que elas têm o mesmo comprimento, ou peso, ou força, etc. Isso pode ser uma mera reafirmação do resultado da medição noutros termos – que simplesmente dá a ilusão de que há uma substância (comprimento, força, etc.) que está por detrás da medição. Mas pode não ser. Se o comprimento, a força, etc. podem ser medidos (e, portanto, definidos) de forma independente, então a declaração é real, não é uma ilusão.
Assim, dizer que duas coisas se trocam entre si “porque têm o mesmo valor de troca” é tautológico, se trocadas, o valor não pode ser medido de outra forma que não seja ver como é que elas se trocam. Mas se for possível, a declaração é uma lei (itálico nosso).
Neste sentdo, ele acrescentou uma lista de “propriedades quantitativas”, incluindo, por exemplo, comprimento, peso, força e temperatura. Observe que todas as propriedades mencionadas são propriedades físicas. O raciocínio de Sraffa mostra que o tipo de argumento que Marx apresentou pode ser colocado de forma significativa (e não tautológica), mas não apoia a ideia de Marx da “substância do valor”.
Isso também se torna claro quando, especialmente no final da década de 1920 e no início da década de 1930, Sraffa comentou sobre o raciocínio baseado no valor-trabalho nos economistas clássicos e em Marx. Ele ressaltou, por exemplo, que “o erro fatal de Smith, Ricardo, Marx tem sido considerar ‘trabalho’ em quantidade, a ser medido em horas ou em quilowatts de energia humana, e assim medido em valor. (…) Todos os problemas parecem ter sido causados por pequenos erros iniciais, que se acumularam em deduções (e.g. alimento do trabalhador = quantidade de trabalho, é quase verdade)” (D3/12/11, p. 36). Num outro documento, composto em novembro de 1927, ele insistiu: “É todo o processo de produção que deve ser chamado de ‘trabalho humano’, e que assim gera todo o produto e todo o valor. Marx e Ricardo usaram ‘trabalho’ em dois sentidos diferentes: o sentido acima e o de um dos fatores de produção (‘horas de trabalho’ ou ‘quantidade de trabalho’ tem um significado apenas no segundo sentido)”. E Sraffa acrescentou: “É confundindo os dois sentidos que eles se confundiram e disseram que o valor é proporcional à quantidade de trabalho (o segundo sentido), enquanto eles deveriam ter dito que é devido ao trabalho humano (em primeiro sentido: Uma quantidade não mensurável, ou melhor, uma não quantidade)” (D3/12/11, p. 64; itálico nosso).
No seu exemplar de oito volumes da edição francesa de Theorien über den Mehrwert (Teorias da mais valia, Marx, 1924-1925), que Sraffa leu no verão de 1927, Sraffa observou cuidadosamente todas as passagens em que Marx se distanciou explicitamente de abordagens que se centram exclusivamente em termos de mercadorias ou “valores de uso”. Marx contesta, por exemplo, Petty, que tinha escolhido a comida, não o trabalho, como a medida do valor. Sraffa colocou uma linha ondulada, expressando desacordo, na margem da passagem em que Marx insistiu que nenhum insumo na produção pode ser uma imanente medida de valor. E na folha de resumo do volume VI escreveu: “Marx contra os custos físicos 122”.
No que diz respeito à principal diferença entre a abordagem pelos custos físicos reais que Sraffa aceitava seguindo os passos de Petty e os fisiocratas, e a abordagem baseada no valor-trabalho, ele esclareceu “que a primeira inclui , e a segunda não, as fontes naturais que são usadas no curso da produção (como carvão, ferro, exaustão da terra) -[Ar, água, etc., não são usados:tanto quanto há uma oferta ilimitada, nenhuma subtração pode ser feita]. Isso é fundamental porque elimina a ‘energia humana’ e tais coisas metafísicas” (D3/12/42, p. 33).
Isto leva-nos a regressar às observações feitas na seção 3 acima de que os autores clássicos não restringiram o conceito de trabalho apenas ao trabalho humano, mas incluiram igualmente neste conceito também o trabalho de animais e máquinas. Curiosamente, não só Marx, mas também Alfred Marshall no seu livro altamente influente Princípios de Economia (1977 [1890], p. 504) argumentaram que diferentes princípios se aplicam a “seres humanos livres”, por um lado, e máquinas, cavalos e escravos, por outro. Sraffa em torno de meados de 1928, embora não negando que havia diferenças entre os diferentes tipos de trabalho, insistiu que estes não importavam quanto à determinação do valor. O que importava eram os custos reais físicos ligados ao emprego de trabalhadores, cavalos ou máquinas. E Sraffa acrescentou: “É uma concepção puramente mística que atribui ao trabalho humano um dom especial de determinar o valor” (D3/12/9, p. 89; itálico adicionado).
A propósito, merece ser mencionado que as suas leituras de obras históricas, etnológicas e antropológicas confirmaram as dúvidas de Sraffa de que a lei do valor fosse aplicada de maneira direta nas economias primitivas e em desenvolvimento.
Na seção de conclusão, interrogamo-nos se o problema de um terceiro comum pode ser considerado ressoar no trabalho construtivo que Sraffa levou a cabo com a publicação de Produção de Mercadorias Através de Mercadorias (1960). O candidato óbvio a olhar a este respeito é o conceito da mercadoria padrão de Sraffa.
8. A mercadoria padrão: um terceiro comum compósito
Na sua tentativa de elaborar uma formulação coerente da teoria clássica do valor e da distribuição baseada no excedente, Sraffa teve que resolver o seguinte problema intrincado: Como é que os preços relativos para um determinado sistema de produção dependem da distribuição do rendimento, isto é, a taxa de salário real (ou a parte dos salários) e a taxa de lucros correspondente. Embora Smith, Ricardo e Marx tenham sido claros quanto ao facto de os preços relativos não refletirem apenas as condições técnicas de produção realmente existentes, mas também a repartição do produto entre os diferentes requerentes – trabalhadores, capitalistas e proprietários de terras – estes autores não conseguiram estabelecer rigidamente as propriedades matemáticas dessa relação. Claramente, quando a distribuição muda, os preços relativos também mudam, assim como o capital social empregado, a magnitude do produto social e assim por diante, dado o padrão de valor. Ricardo tinha-se questionado se havia uma mercadoria cujo preço seria invariante no que diz respeito a mudanças na distribuição de renda, porque com um aumento (diminuição) nos salários e a correspondente diminuição (aumento) na taxa de lucros, as forças contrárias que exercem um impacto sobre o preço apenas se compensariam umas às outras. Se tal mercadoria existisse e fosse escolhida como padrão de valor, então, teríamos uma “medida invariável de valor”. Se algum outro preço mudasse em relação à mercadoria padrão, seria claro que a causa da mudança residiria nas condições de produção da mercadoria em consideração e não na medida padrão.
Sraffa tinha a certeza de que não se podia esperar que uma única mercadoria satisfizesse a condição mencionada. No início da década de 1940, ele viu que um compositum mixtum de mercadorias poderia satisfazer a condição pretendida. A mercadoria composta perfeita, no entanto, teria que ser construída: seria a única “que consiste nas mesmas mercadorias produzidas (combinadas nas mesmas proporções) que o agregado dos seus próprios meios de produção – por outras palavras, tanto o produto final quanto os meios de produção utilizados nessa produção são quantidades da mesma mercadoria composta” (Sraffa, 1960, p. 19). Como é sabido, a mercadoria composta procurada seria obtida exclusivamente em termos das indústrias da economia que produzem produtos básicos. O sistema assim construído é o sistema padrão. Uma vez que “em qualquer sistema económico real há um sistema padrão em miniatura”, o sistema padrão expressa características salientes do sistema real, em particular a relação inversa entre a taxa real de lucros, r, e a participação dos salários (Ω). Com os salários pagos, temos:
onde R é a máxima taxa de lucro compatível com a hipotética taxa de salário nula.
Os produtos básicos, aprendemos acima, poderiam servir como as “coisas” comuns de todas as mercadorias, porque elas entram, direta ou indiretamente, na produção de todos os produtos, tanto básicos quanto não-básicos. A mercadoria padrão reune todos os bens básicos em tais proporções que a proporção do produto líquido relativamente aos meios de produção permanece a mesma quaisquer que sejam as variações que ocorrem na distribuição do produto líquido entre salários e lucros e quaisquer que sejam as mudanças associadas nos preços. Esta relação é a relação padrão e dá a taxa máxima de lucros, R.
9. Observações finais
Podemos resumir o argumento acima da seguinte maneira. O conceito de Marx da substância do valor que consiste no trabalho abstrato não pode, no geral, ser aceite. Ele forneceu definições contraditórias, cada uma com sérias dificuldades. Antes de Marx, os economistas clássicos tentaram lidar com o problema da heterogeneidade das mercadorias e a necessidade de torná-las comensuráveis e comparáveis em termos de uma medida do valor. O conceito de trabalho abstrato de Marx pode ser visto (também) como uma tentativa de fornecer uma resposta alternativa à resposta dada pelos economistas clássicos, que originalmente identificaram pão ou milho como a medida de referência. A atenção destes economistas estava centrada nos custos reais físicos incorridos na produção e, portanto, não é surpresa que as medidas que primeiro sugeriram fossem mercadorias ou valores de uso. Quando, num estágio posterior, o trabalho foi tomado como a unidade de medida de referência, isso obscureceu a origem do conceito de custo real físico. Também obscureceu o facto de que os economistas clássicos não limitavam o conceito de trabalho apenas ao trabalho humano, mas no conceito de trabalho incluíam também o trabalho de cavalos ou máquinas, por exemplo. Os valores das mercadorias, insistiam, dependem dos custos reais de produção, consistindo nos meios de produção e meios de subsistência (em apoio aos seres humanos, cavalos, etc.) produtivamente empregados e parcialmente esgotados, ou “destruídos”, no curso da produção. Marx rompeu fundamentalmente com esta tradição, limitando o conceito de trabalho apenas ao trabalho humano. Sraffa objetou que é uma “concepção puramente mística estar a atribuir ao trabalho humano um dom especial de determinar o valor”. Sraffa deve ser creditado por ter elaborado uma formulação consistente da abordagem clássica do excedente para a teoria do valor e da distribuição.
A procura de um terceiro comum, ou tertium comparationis , acabou não sendo completamente inútil. Primeiro, levou a uma investigação de sistemas de produção caracterizados por um fluxo circular de mercadorias e, assim, aumentou muito a nossa compreensão das propriedades matemáticas dos sistemas industriais modernos. Em segundo lugar, mostrou que uma série de proposições defendidas pela teoria económica convencional geralmente não podem ser sustentadas. Em particular, uma vez que a dotação em capital da economia não pode ser tomada como dada independentemente dos preços relativos e da taxa de lucro, esta não pode ser conceptualizada como refletindo a produtividade marginal do capital. A metáfora da escada de Wittgenstein aplica-se aqui: tendo-se alcançado um nível científico mais elevado, as teorias que acabaram por se mostrarem serem “sem sentido” devem ser deixadas para trás.
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Notas
[9] O original alemão da passagem citada refere também “mão”.
[10] Merece ser mencionado que, nas medidas atuais de produtividade do trabalho, o denominador ainda contém o número de trabalhadores ou horas de trabalho realizado. Ou seja, como em Marx, as coisas estão a ser somadas sem antes terem sido tornadas comensuráveis e, portanto, comparáveis.
[11] Isso não significa, é claro, que em sistemas com um excedente de mercadorias, as mercadorias se trocariam umas contra as outras em função da quantidade de eletricidade necessária direta e indiretamente na sua produção.
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Heinz D. Kurz [1946-] é um economista alemão, professor emérito no Centro Schumpeter da Universidade de Graz, tendo também lecionado em universidades no estrangeiro (v.g Roma, Manchester, Paris, México, Leicester, Nice, Pisa, Tóquio). É doutorado pela universidade de Kiel. Publicou numerosos artigos em jornais, e vários livros, entre os quais se destaca The Theory of Production (em co-autoria com Neri Salvadori). É co-fundador e editor-chefe do European Journal of the History of Economic Thought (Londres: Routledge) desde a sua fundação em 1993 (desde 2005 a revista é abrangida pela SSCI). Editor geral dos trabalhos não publicados e correspondência de Piero Sraffa, uma tarefa realizada em nome da Cambridge University Press e do Trinity College, Cambridge (três vols. com cerca de 2.000 págs). (para mais detalhe ver aqui)


