

Estou a escrever no sábado, antes da se saberem os resultados das eleições de três dias na Rússia, mas a contar com a falta de candidatos que se pudessem opor ao czar daquele espaço de um só dono, por terem sido suicidados ou lhes ter acontecido um qualquer acidente (com ou sem veneno), não me custa ‘adivinhar’ que ele será eleito por números que ultrapassem largamente os 90% dos eleitores.
Um problema complicado nestes tempos, tanto mais que a guerra desnecessária da Ucrânia, na opinião do historiador Orlando Figes, nasceu apenas dos mitos e das leituras simplistas que Putin fez da história do país, para documentar a ideia do perigo que os mitos representam, quando um ditador qualquer os quer adaptar às suas ambições.
E, ainda para Figes, a autocracia de Putin, foi sendo construída, lenta mas fortemente, sobre as ruinas das instituições, da justiça e dos direitos civis, pequenas coisas que por aqui damos por normais, como falar mal do governo nas redes sociais, mas que na Rússia, custam a prisão ou até a vida.
Não será fácil entender este problema (como não é fácil explicar os palhaços atrás do trump), mas socorro-me de Dostoievski na sua obra sobre os Karamazov, para notar, já naquela altura, não ser muito grande a diferença entre dois modos de estar no mundo ‘O liberalismo europeu e até mesmo o nosso diletantismo liberal russo, já há algum tempo, e com frequência, vem confundindo os fins concretos do socialismo com os do cristianismo’.
Mais longe vai Lev Tosltoi, nos ‘Últimos Escritos’, um conjunto das reflexões dos anos que antecederam a sua morte, em Novembro de 1910, onde aborda as questões fundamentais do povo russo, da religião, à arte, ao amor, à educação, à violência e à morte. E, salientando o mal do patriotismo, Tolstoi afirma, ‘O patriotismo como sentimento de um amor exclusivo ao seu povo e sobre a coragem do sacrifício da tranquilidade, dos bens e da própria vida, contra os massacres e violência dos inimigos, esse sentimento nocivo e antiquado, não só continua a existir, como se inflama cada vez mais’.
Será possível que uma sociedade entenda Dostoievski e Tolstoi, quando a História mostra, afirma também Figes, ‘Quando terminar o próximo mandato, Putin igualará Stalin em anos à frente do poder, transformando os russos que só conheceu gente assim no Kremlin, com o breve intervalo de Gorbatchev, levando-os a viver numa borbulha informativa que ele próprio montou’, mas a dividir o mundo entre os russos e os outros, onde estão (ou estavam) os conspiradores contra a pátria, como o ‘suicidado’ Navalni, ou o seu mais próximo ajudante Volkov, atacado à martelada na Estónia.
Mas, mesmo antes de saber os resultados, não tenho quaisquer dúvidas de que estas eleições serão uma ‘palmada nas costas’ para um Putin refastelado no poder, mesmo sem se saber quem lhe poderá suceder.
Também sei, como escreveu Viriato Soromenho Marques há meia dúzia de dias no DN, ‘O mundo está cada vez mais sombrio’; temos as guerras ‘grandes’ pelo espaço que ocupam nos noticiários, e as outras de que quase ninguém fala, por não aparecerem nos TikTok’s, as do Sudão, da Somália, do Mali, do Burkina Faso, da Nigéria, do Mianmar, do Iémen e tantos outros conflitos de menor dimensão (nos noticiários) mas não menos importantes, como os que envolvem climas, combustíveis fósseis ou plásticos, todos a deixar este planeta à beira da catástrofe global, a não ser que apareça um Gandalf que consiga amainar isto tudo.
Mas tenho receio, ao pensar nos dois fulanos que se perfilam a Leste e a Oeste, que a breve prazo se venha a verificar a veracidade de uma outra sentença de Dostoievski, ‘A tolerância chegará a tal ponto que as pessoas inteligentes serão impedidas de fazer qualquer reflexão, para não ofender os imbecis’.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
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