Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 2 – De Sraffa à necessidade de romper com o pensamento económico dominante. As grandes questões da macroeconomia
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
6 min de leitura
Texto 2 – O que é que matou a Macroeconomia?
Publicado por
em 4 de dezembro de 2021 (ver aqui)
Para além do refinamento matemático, a economia está de volta ao que era há um século: o estudo da afetação de determinados recursos, mais a teoria da quantidade de dinheiro. A macroeconomia – a teoria da produção como um todo, que foi inventada por John Maynard Keynes – praticamente desapareceu, apesar do reaparecimento de ferramentas-chave quando as crises eclodiram.
LONDRES – O problema que há com a flexibilização quantitativa (QE), ironizou o então Presidente da Reserva Federal dos EUA Ben Bernanke em 2014 sobre o programa de compra de títulos do Fed, “é que funciona na prática mas não funciona em teoria”.
Poder-se-ia dizer o mesmo sobre a política macroeconómica em geral, no sentido de que não existe uma teoria robusta por detrás dela.
Os governos “estimulam” rotineiramente a economia para “combater” o desemprego, mas com uma teoria que nega a existência de qualquer desemprego a combater.
À parte o refinamento matemático, a economia voltou ao que era há um século: o estudo da afetação de determinados recursos, mais a teoria da quantidade de moeda.
A macroeconomia – a teoria da produção como um todo, que foi inventada por John Maynard Keynes – praticamente desapareceu.
Por exemplo, o que é que causa desemprego?
A resposta padrão dos manuais é “rigidez dos salários à baixa”.
Um cabeleireiro que pede um salário de 14 dólares por hora, mas que só pode ser empregado de maneira rentável ao máximo de 13 dólares por hora, está a optar por não ser empregado.
Essa escolha é assim voluntária, refletindo uma preferência pelo lazer, ou uma decisão de não ser cabeleireiro.
O mesmo se aplica a todos os trabalhadores de uma economia.
Nesta perspetiva, aquilo a que se chama desemprego é uma escolha em não trabalhar.
O pressuposto-chave aqui é que todos otimizam: escolhem a melhor opção disponível para si próprios.
Existe sempre trabalho disponível a algum preço.
Portanto, o desemprego é a situação ótima para o desempregado, é a opção feita por quem fica desempregado.
Dada a hipótese de que há sempre trabalho disponível a algum salário, a lógica da afirmação anterior é inatacável.
Assim, se o governo expandir a oferta de dinheiro num esforço para aumentar o emprego, o único resultado será a inflação, porque a expansão monetária nada faz para aumentar a oferta de mão-de-obra disposta a trabalhar.
A política monetária deve assim preocupar-se apenas com o objetivo da estabilidade de preços, e é melhor confiar esta política a um banco central independente e livre de tentações políticas.
A maioria dos economistas mais sensatos tem cedido perante a lógica dos seus próprios pressupostos.
Assim, no seu recente livro Macroeconomia, Daron Acemoglu do MIT, David Laibson da Universidade de Harvard, e John List da Universidade de Chicago identificam três categorias de desemprego “não voluntário”: friccional, estrutural e cíclico.
O desemprego friccional surge porque a procura de emprego leva tempo.
O desemprego estrutural surge porque a rigidez salarial impede que a quantidade de mão-de-obra exigida corresponda à quantidade fornecida.
O desemprego cíclico – ou de curto prazo – ocorre devido a “choques tecnológicos, mudança de sentimentos, e fatores monetários/financeiros”, e é “amplificado pela rigidez salarial à baixa e pelos multiplicadores”.
O multiplicador, uma fórmula precisa para calcular o efeito amplificado de qualquer mudança no sentido da alta ou da baixa nas despesas, é a peça de maquinaria macroeconómica que sobreviveu à morte das políticas keynesianas de gestão da procura.
Mesmo esta ferramenta tinha caído em grande parte em desuso – os multiplicadores foram assumidos como sendo zero – antes do choque financeiro e económico de 2008-09 a ter ressuscitado.
A teoria económica moderna sustenta que os obstáculos ao pleno emprego não são inerentes, mas contingentes.
Assim, podem ser minimizados por reformas do mercado de trabalho concebidas para “retirar rigidez” aos salários e por uma melhor regulamentação dos bancos.
Numa recessão cíclica – um estado de desequilíbrio – a maioria dos economistas permite agora, com relutância, que a política expansionista possa aumentar a procura de trabalho a curto prazo, mesmo à taxa salarial vigente.
Esta foi a contribuição de Keynes.
Como o economista laureado com o Nobel Robert Lucas observou em 2009, “Acho que na toca da raposa todos nós somos Keynesianos “.
Como sugere a formulação de Lucas, a política macroeconómica hoje em dia está reservada aos choques.
Mas como não existe um modelo de choques – que são inesperados por definição – as políticas de relançamento da economia são desprovidas de teoria.
Tais políticas podem ser tanto monetárias como orçamentais. Os bancos centrais podem aumentar a oferta de dinheiro a empresas privadas para aumentar o seu incentivo à contratação de mais trabalhadores, ou os governos podem assumir ter défices orçamentais nesse sentido.
O “Keynesianismo Monetarista” (sob a forma de QE) foi a principal resposta à Grande Recessão de 2008-09.
O “Keynesianismo Monetarista” (sob a forma de QE) foi a principal resposta à Grande Recessão de 2008-09.
Isto foi o que Bernanke disse que funcionou na prática, mas não em teoria.
Na realidade, também não funcionou na prática.
Os defensores da QE argumentam que as coisas teriam sido ainda piores sem ela.
Isso é impossível de provar ou refutar.
O facto é que a recuperação do choque financeiro de 2008-09 estava longe de ter chegado ao fim quando o novo choque da COVID-19 ocorreu em 2020, porque muito dinheiro de QE foi acumulado e atesorado, não gasto.
A pandemia da COVID-19 levou os governos a recorrerem ao “keynesianismo orçamental”, porque não havia maneira de o simples aumento da quantidade de moeda poder levar à reabertura de empresas que estavam impedidas por lei de fazê-lo.
O keynesianismo fiscal no grande confinamento significava o pagamento pelo Tesouro a pessoas impedidas de ir trabalhar.
Mas agora que a economia reabriu, a lógica prática para a expansão monetária e fiscal desapareceu.
Os principais comentadores financeiros acreditam que a economia irá recuperar como se nada tivesse acontecido.
Apesar de tudo, as economias não caem nas tocas das raposas com mais frequência do que os indivíduos normalmente caem.
Portanto, chegou o momento de apertar o cinto tanto pela política monetária como pela política orçamental, porque a expansão contínua de uma ou de ambas conduzirá apenas a um “aumento da inflação”.
Todos podemos respirar de alívio; o trauma acabou, e a vida normal sem desemprego será retomada.
A relação entre teoria e prática não é, portanto, como Bernanke a viu.
A política monetária funciona na teoria mas não na prática; a política orçamental funciona na prática mas não na teoria.
O keynesianismo orçamental continua a ser uma política à procura de uma teoria.
Acemoglu, Laibson e List fornecem uma parte da teoria em falta quando notam que os choques são “difíceis de prever”.
Keynes teria dito que são impossíveis de prever, razão pela qual rejeitou a visão dominante na época (N.T. e esta continua a ser dominante) de que as economias são ciclicamente estáveis na ausência de choques (o que é tão inútil como dizer que as folhas não tremem na ausência de vento).
Os modelos de oferta e procura que são ensinados aos estudantes de economia do primeiro ano podem iluminar o caminho do equilíbrio do ramo dos cabeleireiros, mas não da economia como um todo.
A macroeconomia é a filha da incerteza.
A menos que os economistas reconheçam a existência de uma incerteza inescapável, não pode haver teoria macroeconómica, apenas respostas prudenciais às emergências.
Robert Skidelsky [1939-] é membro da Câmara dos Lordes Britânica e professor emérito de economia política da Universidade de Warwick, Inglaterra. É autor de uma biografia premiada em três volumes do economista britânico John Maynard Keynes (1883-1946). Começou a sua carreira política no partido Trabalhista, tornou-se porta-voz do Partido Conservador para os assuntos do Tesouro na Câmara dos Lordes. Finalmente foi demitido do Partido conservador pela sua oposição à intervenção da NATO no Kosovo em 1999. (para mais informação ver wikipedia aqui)



