Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 2 — Texto 10. Evoluções e contradições na macroeconomia dominante: o caso Olivier Blanchard (1/2), por Emiliano Brancaccio e Francesco Saraceno

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 2 – De Sraffa à necessidade de romper com o pensamento económico dominante. As grandes questões da macroeconomia

 

Nota de editor: devido à extensão deste texto, o mesmo será publicado em duas partes. Hoje a primeira.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Texto 10 – Evoluções e contradições na macroeconomia dominante: o caso Olivier Blanchard (1/2)

Por Emiliano Brancaccio e   Francesco Saraceno

Publicado em Review of Political Economy, 29, 3, em 13 de Junho de 2017 (ver aqui)

 

Resumo

Este artigo traça o complexo percurso intelectual de Olivier Blanchard, uma personificação da controversa evolução da investigação macroeconómica ao longo das últimas três décadas. Depois de ter contribuído para consolidar o núcleo da macroeconomia dominante, Blanchard sugeriu recentemente “repensar” alguns dos seus aspetos-chave, para tentar fazer um balanço das lições da Grande Recessão de 2008, que testemunhou a partir da sua posição como economista chefe do FMI. Esta discussão muito bem-vinda, que segundo Blanchard deveria abrir a macroeconomia dominante ao pensamento heterodoxo, produziu até agora uma síntese que é certamente interessante, mas teoricamente contraditória. As consequências em termos de política são, até agora, limitadas. O aspeto mais paradigmático deste repensar da macroeconomia é representado pelo abandono da oferta e procura agregadas no ensino, em favor de um renascimento do velho modelo IS-LM complementado pela curva de Phillips. Embora esta mudança de perspetiva permita realçar a instabilidade do equilíbrio “natural”, numa leitura mais aprofundada pode revelar-se dificilmente compatível com os fundamentos neoclássicos da abordagem dominante.

 

1. Introdução

Embora não tenha levado a uma revolução de ideias na teoria económica, a “Grande Recessão” (Fundo Monetário Internacional (FMI) 2012) gerou de facto um debate interessante entre os representantes da abordagem macroeconómica dominante. Alguns economistas que durante anos se tinham movido ao longo do sulco do paradigma dominante, mostram hoje uma intolerância crescente em relação às suas capacidades heurísticas. Uma tese influente, entre eles, é que os modelos macroeconómicos padrão falharam, em todos os testes mais importantes da teoria científica: não previram que a crise financeira iria acontecer, e depois subestimaram os seus efeitos (Stiglitz 2011).

Outros estudiosos, no entanto, sugerem que a abordagem dominante da macroeconomia já aborda os fracassos típicos de uma economia de mercado como causas de instabilidade e recessão: os economistas devem, portanto, ser capazes de corrigir os erros de previsão e sugerir soluções para a crise, recorrendo a estudos existentes na literatura predominante (Tabellini 2009). De acordo com este ponto de vista, não é necessário perturbar o que Olivier Blanchard chama o “núcleo” da teoria macroeconómica dominante, e por isso não há necessidade de reescrever os livros de texto em que esse núcleo se baseia (Blanchard 2000; Blanchard, Amighini, Giavazzi 2010).

O debate que se tem desenvolvido entre os representantes da abordagem geral tem várias áreas de interesse. O debate, embora muitas vezes contraditório, varia entre as tentativas de ultrapassar alguns pilares teóricos do paradigma prevalecente, e a defesa enérgica da sua estrutura de suporte. Uma forma de explorar este debate é examinar criticamente o percurso intelectual de Olivier Blanchard, o economista dominante que pode estar mais do que qualquer outro colega na encruzilhada entre a fronteira da investigação académica, o ensino da macroeconomia e a implementação de políticas macroeconómicas. As recentes reviravoltas no pensamento de Blanchard, como veremos, salientam algumas limitações relativas às possibilidades efetivas da evolução da abordagem dominante na macroeconomia, e a oportunidade conexa de revitalizar um debate frutuoso com escolas alternativas de pensamento económico.

 

2. Construir o ‘núcleo’ da macroeconomia dominante

“Em 1968, como muitos estudantes da minha geração, quis mudar o mundo … e pensei que, das ciências sociais, a economia era a disciplina com maior probabilidade de ser diretamente útil”. (Blanchard 2014).

Com estas palavras, Blanchard recordou a sua decisão de estudar economia na Universidade de Paris Dauphine. Algumas décadas mais tarde, Blanchard está sem dúvida entre os mais citados e influentes economistas atualmente ativos. É mais discutível se os seus objetivos originais foram alcançados. A sua prolífica atividade de investigação raramente ultrapassou os limites da abordagem dominante da teoria económica: uma visão que moldou sem dúvida as políticas económicas e a evolução das nossas sociedades nas últimas quatro décadas, mas possivelmente numa direção diferente da que Blanchard previu na sua juventude.

Nascido em 1948 em Amiens, França, Blanchard obteve o seu doutoramento no Massachusetts Institute of Technology (MIT), Boston, Estados Unidos, após estudos de licenciatura em Paris. Depois de um período de ensino na Universidade de Harvard, regressou ao MIT em 1982. Os mais de cem artigos que publicou em revistas académicas abrangem vários campos da economia contemporânea, tais como a instabilidade dos mercados financeiros, os determinantes do desemprego, o funcionamento das políticas monetárias e orçamentais, e a transição dos antigos países socialistas para economias de mercado. Blanchard também escreveu dois livros de texto que foram traduzidos para várias línguas e adotados em centenas de currículos de licenciatura e de mestrado em todo o mundo: Palestras sobre Macroeconomia, escritas com Stanley Fischer, um livro-texto avançado que ajudou a formar  várias gerações de estudantes graduados (Blanchard e Fischer 1989); e Macroeconomia, um manual intermédio cuja versão europeia foi escrita em colaboração com Alessia Amighini e Francesco Giavazzi (Blanchard 2000 e 2017; Blanchard, Amighini, Giavazzi 2010 e 2018).

Ao longo dos anos, Blanchard tem contribuído significativamente para a construção de um consenso em torno da teoria e política económica dominante, ajudando a delinear e sistematizar o que ele chamou o ‘núcleo’ do paradigma dominante na macroeconomia (Blanchard 2000, cap. 30). As principais proposições deste núcleo podem ser resumidas nas tomadas de posição que se seguem.

Em primeiro lugar, assume-se que numa economia de mercado livre de imperfeições, rigidezes e assimetrias, todas as variáveis macroeconómicas estão ancoradas num equilíbrio ‘natural’ de eficiência à Pareto e de pleno emprego determinado pelos ‘fundamentais’ da economia: gostos, desenvolvimento tecnológico, a força de trabalho existente, e o stock de capital disponível. Contudo, é igualmente indicado que no mundo real o equilíbrio natural está longe de ser uma situação de pleno emprego de recursos no sentido de Pareto devido a assimetrias e imperfeições que têm como origem diversas causas, incluindo instituições sociais, tais como o poder de mercado das empresas e os sindicatos de trabalhadores.

Em segundo lugar, provocando uma queda na procura, uma crise pode causar desvios temporários da produção, do emprego e dos salários reais em relação aos seus respetivos níveis naturais. As forças do mercado irão então trazer espontaneamente a economia de regresso ao seu equilíbrio natural: mais especificamente, o desemprego para além da sua taxa natural desencadeará um declínio nos salários e preços nominais de modo a apoiar a procura agregada, a produção e a recuperação do emprego. No entanto, as forças do mercado, por si só, podem não conseguir trazer a economia de regresso ao equilíbrio de forma suficientemente rápida. Neste caso, a política tem um papel a desempenhar. Enquanto os desfasamentos e enviesamentos ligados ao processo político tornam a utilização da política orçamental problemática, a abordagem principal realça a capacidade da política monetária para gerir a procura agregada, a fim de acelerar a convergência da produção e do emprego para o equilíbrio natural.

Em terceiro lugar, o papel principal da política económica não é a gestão da procura agregada destinada a estabilizar a economia em torno do seu equilíbrio natural. Pelo contrário, o papel mais importante da política económica é a eliminação, através das chamadas “reformas estruturais”, de todos os obstáculos e rigidezes que possam impedir o funcionamento das forças do mercado livre e de se manter o equilíbrio natural em situação de pleno emprego de mão-de-obra e de outros recursos produtivos e numa situação de eficiência à Pareto.

É importante notar que o núcleo macroeconómico principal para o qual Blanchard contribuiu de forma crucial está intimamente relacionado com a teoria económica neoclássica. O equilíbrio natural de Blanchard é uma versão particular do típico equilíbrio geral intertemporal neo-Walrasiano exclusivamente determinado pelos chamados “fundamentais” da economia: gostos, desenvolvimento tecnológico e dotação inicial de recursos tais como a mão-de-obra disponível e o stock de capital. Numa economia de mercado ideal e livre de assimetrias e imperfeições, quando este equilíbrio geral neoclássico é alcançado não há desemprego involuntário, o trabalho e outros fatores de produção são plenamente empregados e os preços representam índices da relativa escassez de bens e fatores de produção em relação às suas exigências.

É verdade que dentro dos modelos macroeconómicos dominantes uma crise de procura efetiva pode, de facto, reduzir o emprego abaixo do seu nível máximo; mas este é considerado um fenómeno temporário, que deverá ser reabsorvido quando se permitir que a flexibilidade de preços e salários funcione plenamente. É também verdade que o equilíbrio natural da própria macroeconomia dominante, devido a imperfeições do mercado, é assumido como sendo caracterizado por desemprego involuntário. Mais especificamente, no mercado de trabalho as assimetrias e rigidezes podem impedir que os salários atinjam o nível que corresponde a um equilíbrio geral neoclássico de pleno emprego, medindo assim a relativa escassez de trabalho em relação a outros fatores de produção. Mas esse equilíbrio geral, para a macroeconomia dominante, continua a ser o atrativo para o qual a economia deveria convergir se as imperfeições e assimetrias fossem removidas.

Neste sentido, Blanchard argumentou que os modelos neoclássicos de equilíbrio geral sem imperfeições e as suas versões macro como os modelos Solow e Ramsey, não deveriam necessariamente ser interpretados como representações diretas da realidade, mas sim como pontos de referência “normativos” em direção aos quais o sistema económico deveria idealmente esforçar-se (Blanchard e Fischer 1989, Ch. 10). Noutras circunstâncias Blanchard foi mais longe, utilizando a lógica típica dos modelos de crescimento neoclássicos não só para fins normativos, mas também para sugerir uma análise, embora aproximada, das tendências a longo prazo das economias reais. Um exemplo interessante, neste sentido, é a interpretação de Blanchard da parábola política soviética. Blanchard (2000) observou que ao longo de 70 anos a URSS atingiu taxas de crescimento em média mais elevadas do que as das economias capitalistas. Acrescentou, contudo, que este resultado foi alcançado devido a taxas de investimento extremamente elevadas, o que na sua opinião deveria ter implicado logicamente, seguindo uma lógica solowiana, uma contracção no consumo. Isto foi, por sua vez, segundo Blanchard, uma possível fonte da crise do consenso político no seio do bloco soviético.

A mera possibilidade de problemas de procura agregada é, por conseguinte, insuficiente para diferenciar a macroeconomia corrente dominante do paradigma neoclássico tradicional. Blanchard situou, de facto, a abordagem dominante atual dentro da chamada síntese neoclássica (Blanchard 2008), que reduz as deficiências da procura efetiva keynesiana a um caso de equilíbrio neoclássico de curto prazo e que é considerada como uma versão simplificada dos modelos de equilíbrio temporário de Hicks (Hicks 1939). A síntese neoclássica também incorpora o modelo AS-AD, uma peça central, na opinião de Blanchard, do ensino da macroeconomia.

 

3. Entre a crítica e a defesa da macroeconomia dominante

À luz da discussão anterior, Blanchard deve ser considerado como estando entre os principais estudiosos envolvidos no desenvolvimento e consolidação de um “consenso” em torno de uma visão macroeconómica ancorada na teoria económica neoclássica.

No entanto, notamos que a sua relação com tal herança intelectual não tem sido passiva: de facto, as contribuições de Blanchard muitas vezes desafiaram a tradição estabelecida e aceite. Um exemplo famoso no início da sua carreira é a elaboração do conceito de “bolhas racionais”: mesmo sob a hipótese extrema de expectativas racionais, é possível mostrar que os mercados financeiros podem estar sujeitos a bolhas, ou seja, aos auges e quedas dos preços dos ativos que são completamente independentes dos chamados fundamentais da economia (Blanchard e Watson 1982). Na altura, esta foi uma conclusão considerada herege e muitos tentaram minar a sua importância. Mas a ideia de bolhas racionais era, e ainda hoje é, logicamente inconsistente com a correspondência ortodoxa postulada entre os preços de mercados estabelecidos pela bolsa de valores e os retornos naturais do capital na situação de equilíbrio natural.

Numa outra contribuição amplamente citada, Blanchard (1985) mostra como a introdução de horizontes finitos num modelo povoado por agentes racionais e virados para o futuro é suficiente para produzir a não neutralidade da política macroeconómica: a política orçamental e o perfil temporal da tributação têm um impacto no equilíbrio natural, mesmo sem fricções de mercado.

Blanchard expressou mais tarde ceticismo em relação a outras pedras angulares da macroeconomia dominante, tais como a relação inversa entre taxas de juro e investimento: uma relação muitas vezes tomada como certa, e no entanto não apoiada por provas empíricas sólidas. Como Blanchard (1986, p. 153) escreveu, para que as taxas de juro – ou os custos de utilização – “apareçam de todo na equação de investimento, é preciso exibir mais do que o habitual engenho econométrico, por recurso na maior parte do tempo à escolha de uma especificação que simplesmente força o efeito a estar lá”.

Estas dúvidas levaram-no à beira de uma crítica geral sobre a separação geral entre as flutuações cíclicas e o equilíbrio natural a longo prazo. Num trabalho pioneiro escrito com Larry Summers, Blanchard contemplou a possibilidade de um choque de procura poder causar “histerese”, ou seja, um efeito persistente no desemprego que poderia eventualmente levar a um desvio permanente do equilíbrio natural (Blanchard e Summers 1986). Na altura, a possibilidade de histerese estava ligada à ação dos sindicatos, o que poderia impedir a deflação salarial necessária para restabelecer o equilíbrio. Mais tarde, Blanchard (2006) adotou uma visão mais matizada sobre um tal mecanismo. Nos debates sobre o poder negocial dos sindicatos, a rigidez dos contratos de trabalho e o desempenho das variáveis macroeconómicas, reforçando a visão dominante de que contratos de trabalho mais flexíveis se correlacionam com a diminuição do desemprego, Blanchard reconheceu claramente que as duas magnitudes da literatura empírica não estavam em grande medida relacionadas (ibid.).

Assim, em muitos casos Blanchard expressou o seu desencanto, por vezes com uma certa ironia, acerca da robustez dos fundamentos teóricos da corrente dominante. Estas dúvidas, no entanto, nunca foram centrais no seu trabalho académico, e mais importante, nunca foram explicitadas nas suas contribuições pedagógicas: nos seus manuais escolares, Blanchard nunca questionou a relação muito crítica noutros lugares entre taxa de juro e investimento (Blanchard 2000).

Nem as suas dúvidas intelectuais o levaram a desafiar as conclusões políticas dominantes; antes pelo contrário. Até há pouco tempo, a defesa de Blanchard das posições políticas dominantes era frequentemente “radical”. Um bom argumento é representado pelo problema duradouro dos desequilíbrios externos dos países da zona euro. Juntamente com Giavazzi, Blanchard argumentou que estes desequilíbrios eram o sintoma virtuoso de uma integração económica bem sucedida, eram benéficos para os países periféricos, e como tal não precisavam de ser corrigidos (Blanchard e Giavazzi 2002). Além disso, quando acabou por reconhecer que os fluxos de capital tinham conduzido a posições externas insustentáveis na zona Euro, a sua receita política era consistente com as receitas correntes: deflação salarial e de preços destinada a restaurar a competitividade (Blanchard 2007). Na altura, Blanchard não parecia preocupado com a deflação da dívida ou outros possíveis efeitos perversos de uma redução dos preços. Esta posição é ainda mais confusa se se considerar que entra em conflito com alguns dos seus trabalhos anteriores, onde manifestou um forte ceticismo sobre a capacidade dos processos de deflação para absorver os desequilíbrios entre países pertencentes a uma união monetária (Blanchard e Katz 1992). Para resumir: pelo menos até à última crise económica, o exercício da dúvida estava contido nos cantos escuros da torre de marfim da academia, não influenciou as esferas cruciais do ensino e da elaboração de políticas e não levou Blanchard a aventurar-se para além das fronteiras da teoria económica dominante. Poderíamos dizer que Olivier Blanchard usava as roupas de um arcebispo dominante; uma função que cumpria com um sentido crítico, e com um certo hábito aristocrático de cultivar a dúvida, mas apenas com o objetivo de reforçar o paradigma dominante. A sua observação inoportuna de que, apesar de algumas inegáveis fraquezas teóricas e empíricas, houve “convergência substancial” em torno da abordagem mainstream e que o estado da macroeconomia acabou por ser “bom” (Blanchard 2009, p. 210).

 

4. O ponto de viragem da Grande Recessão

O aparecimento da “Grande Recessão”, contudo, marca uma verdadeira viragem no pensamento de Blanchard, e coincide com uma importante mudança de carreira: em Setembro de 2008, o economista franco-americano suspende a sua carreira académica e substitui Simon Johnson como chefe do departamento de investigação do FMI. Isto acontece num momento crucial, poucos dias antes do colapso do Lehman Brothers e do início da crise económica internacional.

A recessão é dura, e muitos comentadores salientam as semelhanças com a Grande Depressão da década de 1930. A crise desafia o consenso precisamente quando Blanchard passa de uma posição académica para uma posição em que o aparelho teórico é continuamente testado através das suas aplicações políticas. É portanto nesta posição que Blanchard pode avaliar mais facilmente se o seu trabalho conseguiu mudar o mundo, como pretendia fazer em 1968.

Na sua nova função como Economista Chefe do FMI, Blanchard fala imediatamente a duas vozes: uma que argumenta, embora de passagem, que “a política orçamental tem de desempenhar aqui um papel central. Na altura deste escrito, a maioria dos países está a desenvolver pacotes orçamentais, destinados a aumentar diretamente a procura e a diminuir a perceção do risco de outra Grande Depressão”. (Blanchard 2009, p. 19); e outro em que se refere à necessidade de um “aumento temporário do emprego no sector público associado a alguns dos novos programas e políticas” (Spilimbergo, Symansky, Blanchard, Cottarelli 2008; p. 5).

Este é o início de uma longa série de intervenções públicas, entre as quais se pode citar o conhecido documento escrito com Daniel Leigh, onde se argumenta que a subestimação da crise pelo FMI e outras instituições de previsão pode ter sido causada por estimativas excessivamente baixas do multiplicador keynesiano de despesas autónomas (FMI 2012, p. 41; Blanchard e Leigh 2013). No entanto, as políticas macroeconómicas não são a única área em que Blanchard sugeriu “inovações”. As suas propostas também influenciaram a questão das instituições que regulam os mercados, tais como as relacionadas com a recuperação dos controlos de capital (Blanchard 2016c).

Olivier Blanchard parece também ter tido um impacto profundo nas políticas do FMI. Assim que chega a Washington, e com a aprovação do então chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn, Blanchard tenta sensibilizar o FMI para a gravidade da crise, e encoraja o pessoal a pensar para além das respostas políticas tradicionais. A sua tarefa é, evidentemente, facilitada pela situação excecional da economia internacional. Mesmo antes da sua chegada, o World Economic Outlook (WEO) de Outubro de 2008 continha uma secção dedicada a políticas orçamentais discricionárias em que cautelosamente era sugerido   que estas poderiam ser utilizadas para combater a recessão (FMI 2008a).

Blanchard empurra ainda mais nesta direção, e a atualização de Novembro do WEO (FMI 2008b) apela explicitamente a políticas orçamentais e monetárias expansionistas, mesmo que limitadas a países que tenham algum – embora não definido com precisão – “espaço orçamental”. O economista francês é também creditado com a publicação do já mencionado “mea culpa” do FMI sobre a subestimação dos multiplicadores fiscais. Ainda mais importante, sob a sua liderança, o FMI alarga o seu âmbito de investigação para abranger uma série de questões que nos corredores da instituição muitos ainda consideram como sendo hereges. Por exemplo: a possibilidade de que o investimento público financiado pelo défice resulte num crescimento a longo prazo e eventualmente numa redução dos rácios da dívida (FMI 2014); ou o reconhecimento de que, em alguns casos, a livre circulação de capitais pode fazer mais mal do que bem (FMI 2013), ou, de novo, reconhecendo que pode existir uma ligação entre a crescente desigualdade e um crescimento mais baixo. Este último tópico ilustra o impacto do “método de Blanchard” no trabalho do FMI. O FMI já tinha certificado, antes da chegada deste economista francês, o aumento global da desigualdade (FMI 2007). É apenas sob a impulso de Blanchard que o FMI percorre a milha extra e promove uma reflexão mais geral sobre a interacção entre maior desigualdade e menor crescimento, o que por sua vez leva à conclusão algo pouco ortodoxa de que a distribuição de rendimentos pode ter um impacto na eficiência e no crescimento (IMF-ILO 2009; Ostry et al 2014).

A influência de Blanchard sobre o FMI não se limita ao debate sobre a política económica. Ele trabalha ativamente para abrir canais de comunicação entre o mundo da política pública e as fronteiras da investigação académica. Isto conduz, em março de 2011, à primeira de uma série de conferências intituladas “Repensar a Política Macroeconómica”, com a participação de muitos dos principais expoentes da análise económica dominante contemporânea. O evento é precedido por um documento no qual Blanchard e outros enumeram algumas limitações do pensamento dominante na situação de pré-crise, incluindo a confiança excessiva na regulação baseada no mercado do sistema financeiro, e uma perigosa subestimação do potencial impacto recessivo das políticas deflacionistas (Blanchard et al, 2010).

 

(continua)

 


Os autores

Emiliano Brancaccio [1971-], economista italiano, professor associado de Política Económica e Economia internacional na Universidade del Sannio, habilitado como professor titular de economia política e política económica. Publicou artigos em várias revistas académicas internacionais, incluindo o Cambridge Journal of Economics, Structural Change and Economic Dynamics, Review of Political Economy. É o autor do livro “Anti-Blanchard Macroeconomics” publicado por Edward Elgar e do volume “The Discourse of Power”. Il premio Nobel per l’economia tra scienza, ideologia e politica” publicado por Saggiatore. No campo da divulgação tem colaborado com várias revistas e jornais, incluindo l’Espresso e Il Sole 24 Ore. Promoveu o “aviso dos economistas” contra as políticas de austeridade europeias (Financial Times, 23 de Setembro de 2013) e o apelo dos economistas italianos a um “plano anti-vírus” (Financial Times, 13 de Março de 2020). (para mais detalhe ver wikipedia aqui e Emiliano Brancaccio aqui)

Francesco Saraceno, é director adjunto do Departamento da OFCE-Sciences Po, Paris. É Doutor em Economia pela Universidade de Columbia e pela Universidade La Sapienza de Roma. Os seus principais interesses de investigação incluem a relação entre desigualdade e desempenho macroeconómico, as políticas macroeconómicas europeias e a interacção entre reformas estruturais, políticas fiscais e monetárias. Publicou em várias revistas internacionais, como Journal of Public Economic Theory, Journal of Economic Behavior and Organization, Journal of Economic Dynamics and Control, Scottish Journal of Political Economy, Journal of Post-Keynesian Economics, Journal of Evolutionary Economics, Journal of Financial Stability. Em 2000, tornou-se membro do Conselho de assessores económicos do Gabinete do primeiro-ministro italiano. Em 2002, mudou-se para Paris para trabalhar no Observatório Francês das condições económicas (Observatoire Français des Conjonctures Économiques), o centro de Investigação em Economia das Ciências-Po. É responsável pelo temas Concentração económica do Mestrado em Assuntos Europeus da Sciences-Po Paris, onde leciona macroeconomia internacional e europeia. Leciona também no Mestrado em Relações Públicas e é Director Académico do programa Sciences Po-Northwestern European Affairs. Ele administra a área de Economia da Escola de Governo e Políticas Públicas de Jacarta. É membro do Conselho Científico da LUISS School of European Political Economy (SEP), onde também leciona macroeconomia. Mantém um blogue sobre questões europeias e intervém regularmente no debate público sobre a economia da UE.

 

 

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