A responsabilidade de uma família que adota uma criança é igual à que tem com os seus filhos biológicos, mas acrescenta-se uma outra. Esta família não conhece o passado da criança que vai fazer parte do seu agregado familiar.
A família acompanhou os seus filhos biológicos e conhece os seus sentires e comportamentos.
Mas e a Lara (nome fictício)?
As crianças adotadas, porque certamente tiveram um percurso de vida doloroso, criam mecanismos de defesa para se sentirem mais seguras. Não sejam estes como os outros, se eu chorar não me vão dar colinho…
Têm representações negativas dos adultos que conviveram com elas e, por isso, estão na expectativa do que poderá acontecer. Porque foi que estes me quiseram e os outros não?
É bom que a família que adota uma criança saiba o que esta criança sofreu e porque foi dada para a adoção, só assim pode compreender os seus comportamentos.
Em determinadas alturas, a nova família considera-se incapaz para lhe dar uma vida feliz porque ela é diferente, em termos comportamentais, dos seus filhos.
O que a criança adotada precisa é de se sentir amada para poder modificar algumas das suas atitudes, mas quantas vezes ela própria desafia os novos pais para saber se gostam mesmo dela.
Esta criança poderá sofrer de falta de regulação emocional, de agressividade, de ansiedade, de comportamentos anti sociais, de perturbações de vinculação, de zangas e de birras.
Muitas vezes dizem que ela se porta mal, mas não é verdade, apenas está sem saber como se deve comportar.
A criança deve sentir-se bem na sua própria pele, saber porque foi adotada, não ter vergonha de o dizer, gosta de perguntar pelo seu passado de má memória quando já estabeleceu um vínculo de confiança com todos os elementos da sua nova família.
Porque foi que a minha mãe me deu para adoção? Ela não gostava de mim? E o meu pai?
Dói responder a estas dúvidas! Mas é possível para o bem de todos.
“A tua mãe gostava de ti, mas um dia o teu pai foi-se embora e não quis mais voltar. A tua mãe não sabia o que havia de fazer, não tinha trabalho, onde ia arranjar dinheiro para ela e para ti? Ela dormia de dia, tu ficavas sozinho, trabalhava de noite e assim conseguia algum dinheiro, mas pouco.
Tu choravas e quem tomava conta de ti era uma vizinha.
As crianças quando nascem são para serem amadas, não para serem infelizes. A tua vizinha não podia ficar contigo. Alguém falou com a tua mãe e ela achou melhor, para o teu bem, encontrar uma família que te pudesse amar como se tu fosses filho dessa família. E assim foi.”
É difícil para uma criança saber esta realidade e, por isso, muitas vezes, tem momentos de solidão e de rebeldia, a nova família só tem de a compreender e que a aconchegar nessas alturas partilhando com ela a sua dor. Esta família quer que a criança que adotaram seja feliz e que se sinta amada.
Este é o propósito da adoção.
Segundo o Relatório Casa, da Segurança Social, em 2022, das 570 mil crianças e jovens (até aos 24 anos) em Lisboa, 1299 estão em acolhimento, tendo a capital uma taxa de incidência de 0,23%.
Dessas 1299 crianças, 15.7% têm entre os 0 e 5 anos, 17.7% vão dos 6 aos 11 anos, 44.8% têm entre 12 e 17 anos e, por último, 21.6% têm mais de 18 anos. Apesar da tendência de acolhimento de crianças e jovens a nível nacional ser de decréscimo nos últimos 15 anos (menos 48% de crianças e jovens acolhidos), a percentagem de saída do acolhimento é menos 20%.
Em Lisboa, o número de crianças no último ano que cessaram acolhimento (351) é maior do que as que iniciaram (277), no entanto existem cada vez mais crianças numa faixa etária “indesejável” para adoção.
É difícil a adoção, por isso, e pela luta pelo Superior Interesse da Criança foram criados serviços para colmatarem o melhor possível a nova vida de adotantes e adotados, assim:
O IAC lançou, no dia 16 de dezembro de 2023, a Linha SOS Família-Adoção, um serviço pioneiro em Portugal, destinado a apoiar as crianças adotadas e as famílias adotivas, bem como os profissionais implicados numa situação de adoção.
Pretende promover o bem-estar da criança e a sua integração familiar, dar suporte emocional e aconselhamento especializado às famílias adotivas, escutar as dúvidas e receios da criança e do jovem sobre questões relacionadas com a adoção e dar aconselhamento especializado e consultoria independente a todos os profissionais implicados numa situação de adoção.
Esta linha gratuita, anónima e confidencial está disponível através do número 800 210 555 e WhatsApp 924 134 760.
O Instituto de Apoio à Criança editou um pequeno, grande, manual intitulado “ Desafios das Crianças Adotadas”, orientado pela Drª Fernanda Salvaterra.
Não posso deixar de congratular todos os que contribuíram para que este trabalho fosse possível.
Em nome das crianças e das famílias de adoção e de todos os que se interessam por esta difícil realidade, os meus parabéns.
Este texto foi baseado em alguma da minha experiência como professora, também, de crianças adotadas, pelas mais variadas razões; neste manual, e alguma informação via online.