Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio
Capítulo 2 – De Sraffa à necessidade de romper com o pensamento económico dominante. As grandes questões da macroeconomia
Nota de editor: devido à extensão deste texto, o mesmo será publicado em três partes. Hoje a primeira.
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
12 min de leitura
Texto 11 – Crise e Revolução na Teoria e na Política Económica: Um Debate (1/3)
Olivier Blanchard,
Emiliano Brancaccio
Cahiers d’économie politique 2020/2 (nº 78), págs. 243 a 270 (original aqui ou aqui)
Resumo
O texto seguinte é a transcrição de um debate, intitulado “Pensar uma alternativa”, entre Olivier Blanchard, do Instituto Peterson, antigo Economista-Chefe do Fundo Monetário Internacional e expoente máximo do pensamento macroeconómico dominante, e Emiliano Brancaccio, da Universidade de Sannio, autor do livro Anti-Blanchard e defensor do ‘Aviso dos Economistas’ contra as políticas deflacionistas europeias. O debate analisa, a partir de duas perspetivas teóricas diferentes, a grande recessão global, a crise da Zona Euro, os efeitos da austeridade e da deflação, o aumento das desigualdades social e os conflitos políticos que alimentam. O debate teve lugar na Fundação Giangiacomo Feltrinelli, em Milão, Itália, a 19 de Dezembro de 2018, e foi moderado pelo jornalista Pietro Raitano.
As actas do debate já foram publicadas em italiano no magazine Micromega (2/2019). Agradecemos a Olivier Blanchard, a Emiliano Brancaccio, à Fundação Feltrinelli e Micromega por terem autorizado a republicação deste texto, que se baseia no texto em inglês revisto pelos dois autores e publicado em O. Blanchard e E. Brancaccio (2019), “Crise e Revolução na Teoria e Política Económica: um debate”
– Review of Political Economy; 38 (2) [1]
Pietro Raitano: Boa noite a todos. Agradeço ao público pela sua presença, à Fundação Giangiacomo Feltrinelli pela organização deste evento, e aos oradores, a quem teremos o prazer de ouvir falar de assuntos importantes que, no presente momento histórico, todos nós precisamos de compreender e confrontar.
Trabalho numa revista mensal, Altreconomia, que há duas décadas subscreve a opinião de que o quadro económico que moldou esta era da “globalização” não só é incapaz de resolver qualquer dos problemas mais importantes que afligem a sociedade à escala global – tais como a desigualdade ou os desafios ambientais – como é, em alguns aspetos, responsável por estes problemas e, portanto, que o pensamento académico que acompanha este quadro precisa de ser reconsiderado.
Decorreram dez anos desde a erupção da crise económica e financeira de 2008, e hoje vemos sinais de que o espectro de outra crise pode estar no horizonte. Neste sentido, o debate de posições distantes – diria mesmo, antitéticas – como as que se confrontam esta noite, pode realmente ajudar-nos a compreender como a política pode lidar com este tempo e como pode ser mais eficaz do que no passado.
Por conseguinte, saúdo os nossos oradores, Emiliano Brancaccio e Olivier Blanchard. Dou a palavra a Emiliano Brancaccio, Professor de Política Económica na Universidade de Sannio e promotor do “The Economists’ Warning” [2] contra as políticas de austeridade europeias que foi publicado no Financial Times em 2013. É também autor de um manual macroeconómico com o eloquente título Anti-Blanchard (Brancaccio 2017; Brancaccio e Califano 2018); este livro oferece ferramentas diferentes daquelas que se encontram no livro didático amplamente utilizado pelo Professor Blanchard, Macroeconomia, através do qual muitos de nós fomos formados (Blanchard 2016; ver também Blanchard, Amighini, e Giavazzi 2017).
Emiliano Brancaccio: Muito obrigado por me receberem. Permitam-me algumas citações preliminares sobre os livros ‘Anti’. O Anticato de Júlio César foi a representação literária de uma transição de uma época a outra, uma que em pouco mais de uma década traria o fim da República e o início do Império Romano. O próprio Anticato parece ter inspirado Friedrich Engels, autor de Anti-Duhring, um livro que, por sua vez, marcou uma fase crucial no choque entre duas filosofias opostas da ciência: o idealismo e o materialismo.
De uma maneira certamente mais modesta, inspirei-me, de certa forma, nestes grandes exemplos. O Anti-Blanchard é, em pequena escala, uma experiência que se limita à estreita esfera da crítica da macroeconomia. Mas é também um livro que, embora o seu título se refira a uma pessoa em particular, o livro tenta de facto trazer à luz uma disputa de um carácter muito mais amplo – ouso dizer coletivo. Diz respeito ao diferendo, agora submerso e quase esquecido, entre a abordagem dominante da teoria e da política económica e uma visão ou paradigma económico alternativo. O Anti-Blanchard é, afinal, a razão pela qual propusemos à Fundação Feltrinelli que organizasse este debate. Agradecemos à Fundação por ter aceite a nossa proposta. E, claro, agradecemos também a Olivier Blanchard por ter aceitado este convite.
Agora, porquê Anti-Blanchard? Porque não ‘Anti-Lucas’, ‘Anti-Prescott’, ou ‘Anti-Sargent’? Primeiro, a relevância da experiência institucional de Olivier Blanchard transcende a sua pessoa como indivíduo. Na minha opinião, isto é mais verdadeiro para ele do que para qualquer outro economista vivo. O Professor Blanchard foi nomeado Economista Principal do Fundo Monetário Internacional a 1 de setembro de 2008., ou seja, apenas duas semanas antes de o Lehman Brothers declarar falência ao abrigo do Capítulo Onze, provocando a crise global. Por uma extraordinária confluência de circunstâncias, o tempo de Blanchard no FMI correspondeu exatamente ao período tempestuoso da Grande Recessão, a primeira crise da Zona Euro, e o início das novas tendências protecionistas do mundo, muito antes do advento do Trump na Casa Branca. Escusado será dizer que a gestão da investigação do Fundo por parte de Blanchard não passou despercebida. Sob a sua liderança, assistimos a uma mudança significativa na análise e, até certo ponto, também nas propostas políticas do Fundo Monetário Internacional. Tenho em mente o “mea culpa” do Fundo relativamente à subestimação dos multiplicadores fiscais; a expansão do investimento público financiado pelo défice como instrumento de crescimento económico; a consideração de certas formas de controlo dos movimentos de capitais; o reconhecimento de uma ligação inversa entre desigualdade e desenvolvimento económico; e assim por diante.
No entanto, para além do papel institucional de Olivier, uma razão mais profunda levou-me a escrever Anti-Blanchard e depois a publicar uma edição internacional com a ajuda de Andrea Califano (Brancaccio 2017; Brancaccio e Califano 2018). Esta razão diz respeito à abordagem teórica de Blanchard e à estrutura dos seus modelos analíticos. O paradigma dominante da teoria e da política económica – aquilo a que normalmente chamamos o “mainstream”, do qual Olivier Blanchard é um dos principais expoentes mundiais – pertence afinal de contas à tradição do equilíbrio geral intertemporal neoclássico. Uma característica fundamental desta abordagem é a presunção de que as forças espontâneas do mercado, as forças da procura e da oferta, irão gerar os níveis da taxa de juro, da taxa de lucro, e do salário real necessário para trazer a economia para um “equilíbrio natural”, ou seja, um equilíbrio que corresponde a níveis eficientes de produção e emprego de mão-de-obra e outros recursos escassos sob determinadas restrições institucionais.
Portanto, de acordo com a abordagem prevalecente, o livre jogo das forças de mercado, pelo menos em princípio, trará a distribuição única de rendimentos entre salários, lucros e juros que, dadas as dotações de recursos escassos e outros constrangimentos relevantes, garante níveis eficientes de produção e emprego. A produção e a distribuição estão então ligadas entre si por um fio duplo, de acordo com uma lei inexorável de eficiência. Isto significa, entre outras coisas, que, na opinião da corrente dominante, os esforços para aumentar os salários para além do nível determinado pelo equilíbrio do mercado conduzirão necessariamente a uma queda no emprego e na produção. Por outras palavras, o conflito social só pode causar danos.
Ora, é possível provar que em várias ocasiões, no seu livro didático, mas sobretudo em algumas das suas importantes publicações académicas, Blanchard desviou-se um pouco da ortodoxia neoclássica, ou pelo menos forneceu a base para se desviar dela. Por exemplo, no seu livro de texto cuja edição europeia foi escrita com Alessia Amighini e Francesco Giavazzi, Olivier Blanchard assume que a distribuição do rendimento entre salários e lucros é uma variável substancialmente exógena, ou seja, uma variável externa ao núcleo da sua análise (Blanchard 2016; Blanchard, Amighini, e Giavazzi 2017). Noutros casos, por exemplo, nos seus famosos modelos de histerese, Blanchard foi ainda mais longe, admitindo que a distribuição dos rendimentos não só é externa à análise, como nem sequer tem qualquer ligação única com a tendência da produção e do emprego. Mais precisamente, nestes modelos, sob certas condições particulares, o salário real pode ser considerado uma variável dada, enquanto os níveis de produção e emprego são determinados pela relação entre o salário monetário e a quantidade de dinheiro (Blanchard e Summers 1986). A presença de Franco Modigliani, e um forte cheiro do MIT, pode ser sentida neste aparelho teórico.
Agora, poderia dar muitos mais exemplos deste tipo, e poderia entrar em detalhes sobre as hipóteses particulares que conduzem a tais resultados. Contudo, em todos esses casos, a minha tese básica é a seguinte: Quando os modelos de Blanchard assumem que a distribuição do rendimento entre salários e lucros é uma variável externa à análise, e quando os seus modelos, além disso, assumem que a distribuição não está exclusivamente ligada a um nível específico de produção e emprego, chegamos a uma implicação teórica significativa: Os modelos de Blanchard podem adaptar-se a abordagens teóricas alternativas; ou seja, estão abertos a interpretações baseadas nas várias tradições “heréticas” de John von Neumann, Wassily Leontief, Piero Sraffa, Nicholas Kaldor, Luigi Pasinetti, Pierangelo Garegnani, Joan Robinson, Hyman Minsky, Paolo Sylos Labini, Augusto Graziani, e muitos outros. Esta tradição de esquemas alternativos pode admitir várias relações possíveis entre a produção e a distribuição, nenhuma das quais tem nada a ver com o conceito neoclássico de utilização ótima de recursos escassos. Já não existem taxas salariais, taxas de lucro ou taxas de juro que, como tal, garantam a máxima produção e emprego, dadas as restrições existentes. Nestes modelos alternativos, a ligação neoclássica típica entre a produção e a distribuição de rendimentos desvanece-se. A relação entre estas variáveis torna-se mais complicada, perde a sua aura de neutralidade técnica, e cai no âmbito do conflito social e político.
Em geral, é útil ter em mente que o que acaba de ser descrito é uma linha de demarcação teórica geral que se aplica a todas as abordagens existentes. Quanto à ligação entre produção e distribuição de rendimentos, todas as teorias mais ou menos explicitamente formuladas, sejam elas antigas ou novas, devem logicamente situar-se de um lado ou do outro dessa linha “althusseriana” que separa o mainstream neoclássico da visão alternativa que acaba de ser descrita. Nem sempre é explicitado de que lado da linha de demarcação deve ser colocada uma determinada teoria. É o caso, por exemplo, da Modelação Baseada em Agentes, uma das abordagens não convencionais que goza hoje de algum sucesso. Por outras palavras, nenhuma nova teoria pode escapar à necessidade de tomar uma posição sobre se deve explicar os preços relativos e a distribuição em termos neoclássicos convencionais, ou rejeitar esse quadro e, portanto, comprometer-se com uma alternativa explícita.
Voltando ao nosso caso específico, essa mesma linha de demarcação realça um facto surpreendente: os modelos de Blanchard que estão abertos a teorias alternativas podem ser levados para lá dessa linha de demarcação teórica e, de facto, podem tornar-se abertos ao conflito sobre a distribuição do produto social. Utilizando uma linguagem antiga mas não obsoleta, poder-se-ia ir ao ponto de dizer que de tempos a tempos, mais ou menos conscientemente, Blanchard abre os seus modelos ao conceito de luta de classes de Marx.
Olivier discordará, naturalmente, da minha interpretação. Ele pode argumentar que estes desvios teóricos, estas pequenas fendas lógicas que permitem interpretações tão arrojadas dos seus modelos, são meramente o resultado de simplificações provisórias que podem então ser facilmente removidas em fases mais avançadas de análise e substituídas por outras que estão mais alinhadas com a tradição dominante. Mas penso que a verdade é diferente. A verdade é que os modelos económicos são um pouco como as crianças: a certa altura, assumem uma personalidade própria que, em muitos aspetos, é independente das aspirações dos seus pais.
Parece-me que este é precisamente o caso de Blanchard. Ao contrário dos modelos de Robert Lucas, Thomas Sargent, ou Edward Prescott, mas análogos a muitos exemplos da tradição do MIT a que ele pertence, os modelos de Blanchard podem ser invertidos e transformados. Podem tornar-se modelos alternativos, mesmo para resolver algumas contradições internas (Brancaccio e Saraceno 2017). Ao adotar técnicas semelhantes, o grande teórico e polemista Frank Hahn (1982) tinha uma vez tentado transformar o modelo de Sraffa num “caso especial” da teoria do equilíbrio geral neoclássico; ao fazê-lo, porém, cometeu graves erros teóricos. Estes incluíam, entre outros, a afirmação paradoxal de determinar “o passado como uma função do futuro” (Brancaccio 2010; para uma síntese veja-se ver Kurz e Salvadori 1995, cap. 14). Aqui poderíamos dizer que estamos a tornar Blanchard um pouco marxista através de uma inversão que, neste caso, resiste ao teste da lógica. Afinal, se não fosse esta possibilidade de inverter teoricamente os modelos de Olivier, o livro Anti-Blanchard nunca teria nascido e não estaríamos aqui hoje para discutir o assunto.
Poderíamos acrescentar que esta inversão teórica é precisamente o que cria a possibilidade de relançar uma comparação e uma competição, no sentido lakatosiano, entre os diferentes paradigmas existentes. A comparação que propomos entre os modelos de Blanchard e as interpretações heréticas dos mesmos facilita a tarefa de escolher entre eles com bases científicas, ou seja, com base na relevância histórica, na consistência lógica e na evidência empírica.
Mesmo com base em fundamentos empíricos, a abordagem dominante parece estar frequentemente em dificuldades. Aqui, a visão alternativa está numa posição muito mais forte para satisfazer o padrão de prova com base nos dados. Um exemplo típico, neste sentido, é a análise da relação entre a chamada “flexibilidade” do mercado de trabalho, por um lado, e a dinâmica dos salários reais e do emprego, por outro. Como Olivier tinha observado há algum tempo (Blanchard 2006), e como vários relatórios do FMI, OCDE, e Banco Mundial reconheceram recentemente, a tese prevalecente de que uma maior flexibilidade laboral reduz o desemprego não parece ser apoiada pela evidência empírica. Em contrapartida, de acordo com os dados existentes, a tese alternativa parece antes mais robusta: o único efeito tangível da flexibilidade é reduzir o poder de negociação dos trabalhadores e, consequentemente, o peso dos salários (para uma resenha e um estudo de provas empíricas, ver Brancaccio, Garbellini, e Giammetti 2018). Por outras palavras, a maior parte do impacto das políticas destinadas a aumentar a flexibilidade do mercado de trabalho não recai sobre a eficiência produtiva, mas sim sobre o conflito distributivo.
Quais são, então, as implicações gerais deste debate, em termos de política económica? Eu penso que são significativas. Num artigo recente escrito com Larry Summers, Olivier Blanchard evocou a possibilidade de uma “evolução”, talvez mesmo uma “revolução”, da política económica num futuro próximo (Blanchard e Summers 2017). Um ponto-chave da ‘revolução’ evocada por Blanchard e Summers diz respeito à possibilidade de apoiar e estabilizar os níveis de emprego através da despesa pública em investimento. Em geral, isto sustenta a política de expansão do orçamento público de forma mais sistemática e incisiva do que no passado. De acordo com Blanchard e Summers, “revolução” significa, portanto, entre outras coisas, um papel renovado para as políticas orçamentais estatais no apoio ao desenvolvimento económico e ao emprego. Uma tal posição no seio da corrente dominante é um desenvolvimento importante.
No entanto, é de salientar que a “revolução” da política económica sugerida por Blanchard e Summers assenta no pressuposto de que no futuro a taxa de juro se situará consistentemente abaixo da taxa de crescimento económico. Uma taxa de juro inferior à taxa de crescimento da economia é importante por várias razões. Ela contribui para a redução das desigualdades, reduz o peso da dívida e promove a intervenção pública na economia. Pois só se as taxas de juro forem inferiores às taxas de crescimento é que a dívida pode ser sustentável face aos défices primários do governo, e mais geralmente face ao aumento da despesa pública. Curiosamente, em edições anteriores do seu manual, Blanchard argumentou que uma taxa de juro inferior à taxa de crescimento era um caso “exótico”, improvável e, no final, pouco relevante. Hoje, porém, Blanchard e Summers reconhecem que uma taxa de juro consistentemente abaixo da taxa de crescimento é uma possibilidade real.
Blanchard e Summers, no entanto, parecem justificar este novo cenário como uma espécie de fenómeno de mercado espontâneo, que eles interpretam por vezes atualizando o antigo conceito de “estagnação secular” de Alvin Hansen (ver Hansen 1939). Por outras palavras, uma taxa de juro inferior à taxa de crescimento seria normalmente o resultado de um aumento espontâneo da poupança em relação ao investimento e uma consequente redução da taxa de juro “natural”, o que presumivelmente os equilibraria. Mais uma vez, pensemos nisso: esta é a ideia dominante de que existem níveis ‘naturais’ das variáveis de distribuição que correspondem ao nível de equilíbrio da produção. É mais uma vez a típica ideia neoclássica de uma ligação eficiente entre a produção e a distribuição de rendimentos.
No entanto, sabemos que modelos teóricos alternativos ensinam que esta ligação eficiente não existe e que, portanto, o conceito neoclássico de uma taxa de juro ‘natural’ também é ilegítimo. Isto implica que nos modelos alternativos uma taxa de juro persistentemente abaixo da taxa de crescimento nunca pode ser apenas um acontecimento espontâneo do mercado, nem mesmo em situações de “estagnação secular”. Assim, uma taxa de juro inferior ao crescimento económico só pode ser o resultado de um ato político deliberado.
Mais especificamente, são necessárias decisões precisas de política económica para manter as taxas de juro abaixo do crescimento. Em primeiro lugar, é necessária uma política monetária não vinculada por uma regra anti-inflacionista de Taylor. Os dados indicam que este tipo de regras, que têm sido amplamente adotadas nas últimas décadas, são totalmente inadequadas para estabilizar o ciclo económico e a inflação. Pelo contrário, correm o risco de provocar taxas de juro relativamente elevadas, que podem ter um efeito potencialmente destrutivo para a solvência do sistema económico e podem, em última análise, acelerar o que Marx tinha identificado como a tendência para a centralização do capital em cada vez menos mãos (Brancaccio e Fontana 2016; Brancaccio et al. 2018). Além disso, manter a taxa de juro abaixo da taxa de crescimento requer uma política de controlo dos movimentos de capitais, de modo a que a taxa de juro possa ser reduzida sem correr o risco de fuga de capitais para o estrangeiro. Mas acima de tudo, manter a taxa de juro abaixo da taxa de crescimento requer uma política de combate à deflação salarial e de preços, ou seja, uma política que evite que os salários e os preços caiam. A deflação dos salários e dos preços deve ser evitada, uma vez que aumenta as taxas de juro reais e o rácio entre o serviço da dívida e os rendimentos e, portanto, corre o risco de tornar o peso da dívida insustentável. A deflação dos salários e dos preços é um ponto delicado. Blanchard expressou várias posições sobre este assunto, que avaliou caso a caso. No que diz respeito à crise da Zona Euro em particular, quando Blanchard considerou os casos da Grécia e dos países do Sul da Europa, apoiou repetidamente uma política de deflação salarial com a esperança de ver a competitividade melhorar para níveis que estimulem as exportações, reduzam as importações, e assim reabsorvam os pesados défices comerciais acumulados por estes países (Blanchard 2012; Blanchard e Verões 2017).
Aqui devo dizer que discordo fortemente. Acima de tudo, antes de discutir como remediar estes desequilíbrios comerciais, penso que devemos primeiro perguntar-nos porque surgiram. Deveríamos estudar especialmente em profundidade a razão pela qual o mercado financeiro alimentou durante muito tempo os desequilíbrios dentro da zona euro, para mais tarde descobrir, de repente, que estes desequilíbrios eram insustentáveis. Durante muitos anos, grandes fluxos de financiamento tinham permitido a muitos países importar mais do que exportar; depois, de repente, esses fluxos secaram: este carrossel louco minou a estabilidade do euro muito mais do que qualquer desequilíbrio das finanças públicas. Permitam-me lembrar que, juntamente com Francesco Giavazzi, Blanchard foi durante muito tempo substancialmente otimista quanto à possibilidade de o mercado estar a funcionar corretamente, o que significava que os desequilíbrios externos dos países do Sul da Europa podiam ser compensados relativamente depressa através de aumentos de produtividade e produção (Blanchard e Giavazzi 2002). Posteriormente, quando se tornou claro que esses desequilíbrios eram insustentáveis, também eles mudaram de ideias. Isto é uma mudança positiva de perspetiva. No entanto, continuamos a enfrentar um problema por resolver: um mercado financeiro que fomenta desequilíbrios que acabam por se revelar totalmente insustentáveis é intrinsecamente ineficiente e pode ser uma fonte de tensões graves nas relações internacionais. Este problema toca numa questão-chave do capitalismo contemporâneo que, para todos os efeitos práticos, ainda está por resolver. Trata-se de uma ameaça completamente não resolvida que poderá reaparecer a qualquer momento.
Em segundo lugar, passando das causas para os remédios, penso, contrariamente a Blanchard, que a deflação salarial nunca é uma boa solução. Mesmo quando confrontados com desequilíbrios externos significativos, a política de deflação salarial e de preços deve ser evitada e outros caminhos devem ser procurados. Desejo ser claro sobre este ponto: se pensamos que a zona euro precisa de contar com a deflação para tentar remediar os seus desequilíbrios internos e sobreviver, então não só suspeito que não sobreviverá, como acredito que não é sequer apropriado esperar pela sua sobrevivência.
Porque insisto tão fortemente neste ponto? Porque a história ensina-nos que uma solução baseada na deflação salarial é perigosa e pode ter repercussões violentas na estrutura económica, bem como nas instituições sociais e políticas. Alguns têm argumentado que a deflação foi um dos fatores que levou à ascensão do nazismo. Claro, a história não se repete, mas lembrar-se dela pode ser útil nesta era de memória coletiva reprimida e assustadora.
Afinal de contas, a memória da deflação como motor da ascensão de Hitler foi uma das razões por detrás do “Aviso dos Economistas” que eu, Dani Rodrik, e muitos outros publicámos no Financial Times há alguns anos atrás, e que ainda consideramos atual (Brancaccio, Realfonzo, Rodrik et al 2013). Por conseguinte, digo: a deflação deve ser evitada, sempre e em qualquer situação. De facto, manter a deflação fora da caixa de ferramentas do economista foi um ensinamento básico da “revolução” mais significativa da política económica que alguma vez teve lugar sob o capitalismo: a “revolução” que leva o nome de Keynes.
Deixem-me, portanto, terminar com algumas palavras sobre Keynes. Em termos mais ou menos óbvios, Keynes é a inspiração por trás de Blanchard e Summers quando evocam a possibilidade de uma revolução na política económica. A este respeito, a questão que me tem incomodado um pouco, e que gostaria de partilhar convosco, é a seguinte: será uma “revolução” da política económica que de uma forma ou de outra se refere a Keynes viável hoje em dia? Blanchard e Summers acreditam que seria bom que uma tal “revolução” ocorresse, mas acrescentam que não estão de modo algum seguros de que isso venha a acontecer. Receio que a sua dúvida não esteja bem fundamentada. Conhecemos Keynes como um intelectual progressista, um homem de Bloomsbury, um defensor das liberdades civis, e um inimigo dos rentistas. No entanto, todas estas características provêm do facto de Keynes ter sido o produto de um tempo extraordinário marcado por um profundo conflito sistémico entre capitalismo e socialismo. O quadro de pensamento de Keynes foi claramente marcado pelo antagonismo entre esses dois grandes sistemas da vida social. As suas ideias foram modeladas a partir dessa colisão histórica, e o seu sucesso dependia, em certo sentido, do facto de ter tentado encarnar uma possível síntese dialética desse conflito. Nem todos os biógrafos realçam este aspeto, que na minha opinião é decisivo e levanta questões importantes para os dias de hoje.
Pois, como se vê, habituámo-nos a descartar a experiência do socialismo real como tendo sido um desastre. Obviamente, este juízo baseia-se em várias razões: sabemos que foi uma experiência colossal que acelerou definitivamente a transição de muitos países de uma fase de desenvolvimento que era pouco mais do que medieval para uma fase de industrialização moderna. Contudo, sabemos também que o socialismo soviético foi um laboratório político carregado de erros e manchado de horrores. Ao mesmo tempo, mesmo uma eliminação total do planeamento socialista do discurso político pode dar origem a consequências involuntárias. O problema, porém, é que quando a ameaça do “Grande Outro” socialista já não está presente, não podemos deixar de nos perguntar se as condições políticas para uma síntese keynesiana podem ser criadas num vazio dialético tão assustador.
Bem, receio que não. Receio que a síntese keynesiana do século XX tenha sido, em última análise, um resultado direto da ameaça socialista. Receio que, sem a provocação desse desafio socialista, seria extremamente difícil hoje em dia que surgisse outra síntese keynesiana. Afirmo que este é um problema aberto para qualquer pessoa que tente evocar Keynes hoje em dia. Por conseguinte, penso que é um problema aberto para muitos de nós, e também para Olivier Blanchard.
(continua)
Notas
[1] Os autores agradecem ao professor Massimo Amato que assegurou a revisão final do texto. Agradecimentos igualmente a Maria-Christina Feruglio pela sua colaboração na tradução.
[2] O texto, publicado sob a forma de carta aberta no Financial Times de 23 de setembro de 2013, foi assinado por mais de 100 economistas. Pode ser lido neste endereço: http://www.theeconomistswarning.com
Olivier Blanchard [1948 – ] é um economista francês, doutorado em Economia pela Universidade Paris-Nanterre e também doutorado em Economia pelo MIT.. Atualmente é investigador principal no Instituto Peterson de Economia Internacional. Foi economista chefe do FMI (2008/2015) e professor de economia na Universidade de Harvard e no MIT. Autor de numerosos trabalhos de investigação e livros de texto de macroeconomia, Blanchard é o expoente máximo do pensamento macroeconómico dominante. (para mais info ver aqui)
Emiliano Brancaccio [1971-], economista italiano, professor associado de Política Económica e Economia internacional na Universidade del Sannio, habilitado como professor titular de economia política e política económica. Publicou artigos em várias revistas académicas internacionais, incluindo o Cambridge Journal of Economics, Structural Change and Economic Dynamics, Review of Political Economy. É o autor do livro “Anti-Blanchard Macroeconomics” publicado por Edward Elgar e do volume “The Discourse of Power”. Il premio Nobel per l’economia tra scienza, ideologia e politica” publicado por Saggiatore. No campo da divulgação tem colaborado com várias revistas e jornais, incluindo l’Espresso e Il Sole 24 Ore. Promoveu o “aviso dos economistas” contra as políticas de austeridade europeias (Financial Times, 23 de Setembro de 2013) e o apelo dos economistas italianos a um “plano anti-vírus” (Financial Times, 13 de Março de 2020). (para mais detalhe ver wikipedia aqui e Emiliano Brancaccio aqui)

