Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 2 — Texto 14. Simpósio Crise e Revolução da teoria e da política económica: Introdução. Por Mauro Gallegati

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 2 – De Sraffa à necessidade de romper com o pensamento económico dominante. As grandes questões da macroeconomia

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Texto 14 – Simpósio Crise e Revolução da teoria e da política económica: Introdução

Por Mauro Gallegati

 vol. 72, nº 287 (setembro de 2019), Crises e Revoluções da teoria e da política económica: um simpósio (original aqui)

 

Resumo

Este número especial de Moneta e Crédito ( Nº 287 Setembro 2019, Crises e revoluções na teoria económica e política: um simpósio, editado por Emiliano Brancaccio e Fabiana De Cristofaro) recolhe as registos de um simpósio inspirado num diálogo entre Olivier Blanchard e Emiliano Brancaccio sobre crises e possíveis “revoluções” futuras na teoria económica e política. O simpósio destaca o potencial de uma comunicação renovada entre paradigmas concorrentes e uma crítica construtiva da abordagem dominante de hoje para um avanço renovado do conhecimento no campo económico.

 

Este número de Moneta e Credito publica os trabalhos relativos ao debate “Há (não há) alternativa: pensar uma alternativa”, com Olivier Blanchard e Emiliano Brancaccio, realizado em Milão a 19 de Dezembro de 2018 e organizado pela Fundação Giangiacomo Feltrinelli (Blanchard e Brancaccio, 2019). Antigo economista principal do Fundo Monetário Internacional durante os anos de crise e um dos principais expoentes da abordagem prevalecente da teoria e política económica, Blanchard demonstrou uma vontade crescente de rever alguns dos pilares da abordagem dominante. Nos últimos anos, também reconheceu a possibilidade de se inspirar em linhas de investigação heréticas, tais como as de Minsky, Kaldor e outras. A sua participação na iniciativa de Milão faz parte deste caminho. Nesta ocasião, Blanchard debateu com Emiliano Brancaccio, expoente das escolas críticas de pensamento económico, bem como o autor de Anti-Blanchard, um texto sobre macroeconomia comparativa que nos últimos anos tem suscitado um interesse generalizado não só entre os estudiosos heterodoxos, mas também nas fileiras da corrente académica dominante (Brancaccio, 2017; Brancaccio e Califano, 2018).

Em 1997, Blanchard publicou Macroeconomia, um livro destinado a ter um sucesso extraordinário, que apresentou da seguinte forma: “A minha esperança é que, como resultado, os leitores deste livro vejam a macroeconomia como um todo coerente e não como uma coleção de modelos desenhados a partir de um chapéu” (Blanchard, 1997). Desde então, o manual de Blanchard representa a versão mais avançada da nova síntese neoclássica (Blanchard, 2016). Como na melhor tradição pedagógica dos EUA, concentra-se no ‘núcleo’ da macroeconomia contemporânea e dá ao aluno a impressão de que a teoria económica segue um caminho de sentido  único e progressivo. Dos debates e das diferentes abordagens, não há qualquer vestígio. Isto parece confirmar a afirmação de Maffeo Pantaleoni de que existem apenas duas escolas em economia: as que a conhecem e as outras.

O modelo educacional de Blanchard baseia-se no conceito de “equilíbrio natural”, que é determinado pelo equilíbrio do mercado quando as curvas agregadas da oferta e da procura – ou curvas equivalentes – se encontram. De acordo com esta abordagem, as políticas de expansão da procura não podem alterar o equilíbrio natural. Isto só pode mudar atuando sobre os chamados ‘fundamentais’, por exemplo com políticas de oferta que removam os obstáculos à concorrência do mercado, o que acontece quando os mercados de trabalho se tornam mais flexíveis. A procura teria então apenas efeitos de curto prazo e a oferta efeitos de longo prazo.

2008 foi um ano difícil para todos. Embora os sinais da crise já se tivessem manifestado no ano anterior, em Outubro desse ano o PIB começou a entrar em colapso nas grandes economias. Alguns países recuperaram em poucos anos, enquanto outros ainda continuam a cambalear. Em Agosto desse ano, um mês antes de se tornar economista chefe do Fundo Monetário Internacional e um mês antes da falência do Lehman Brothers – Blanchard publicou um documento de trabalho do National Bureau of Economic Research com o título pouco profético: “O estado da macro é bom” (Blanchard, 2008). Teria sido fácil fazer humor a partir dessa afirmação precipitada. Brancaccio no seu Anti-Blanchard não o faz.

O livro Anti-Blanchard está estruturado como um pequeno ensaio com o objetivo de apresentar aos estudantes uma visão menos unilateral da evolução do pensamento económico. Neste sentido, não pretende substituir o manual de Blanchard, mas sim analisá-lo criticamente a fim de propor uma abordagem comparativa entre as abordagens mainstream e alternativas. O modelo agregado de oferta e procura de Blanchard e as suas derivações subsequentes são tomados como referência preliminar. Brancaccio salienta efetivamente as suas fragilidades, mostrando que pequenas alterações nos pressupostos tomados como axiomas levam a implicações analíticas e políticas bastante diferentes. Assim, por exemplo, enquanto os livros de texto dominantes assumem que a relação entre os salários, por um lado, e a procura e produção agregada é negativa, derivada dos axiomas de racionalidade e carácter exaustivo do mercado, Brancaccio mostra que na realidade esta relação pode ser positiva, e assim os resultados das políticas económicas prevalecentes podem ser invertidos: por exemplo, as políticas de flexibilidade laboral podem reduzir os salários e assim também a procura, a produção e o emprego, etc, etc.

Após a ‘Grande Moderação’, e talvez também por causa dela, a partir da segunda metade dos anos 90, o debate entre os economistas praticamente estagnou ao ponto de Lucas conseguir afirmar em 2003: ‘o problema central da prevenção da depressão foi resolvido, para todos os efeitos práticos, e foi de facto resolvido para muitas décadas’. Pessoalmente, como aluno de Hyman Minsky, devo confessar que as palavras de Lucas já me tinham parecido deslocadas, dada a crise bancária na Suécia, no início dos anos 90, e as crises financeiras asiáticas de 1997-98, e mais tarde na Rússia, Brasil e Argentina. Outros, ao mesmo tempo, também sentiram que o problema das depressões estava longe de ser evitado (Sylos Labini, 2003). Em qualquer caso, apenas quatro anos se passariam desde a declaração de Lucas e a realidade teria desmentido a teoria e revitalizado essa abordagem histórico-crítica da qual o Anti- Blanchard é um testemunho fértil.

A corrente dominante reagiu à crise de duas maneiras. Por um lado, um déjà-vu: enriquecendo o modelo dominante, primeiro introduzindo os bancos e depois o sistema financeiro, juntamente com várias rigidezes, até ao ponto de uma fraca heterogeneidade – sem interação – em qualquer caso sem questionar o núcleo axiomático da teoria, de uma forma que lembra de perto a “epiciclos” do sistema Ptolemaico. No entanto, esta prática visa reafirmar a sua autossuficiência teórica. Alguns anos antes da “grande recessão” Robert Barro (1997) apelou mesmo a uma política de “zero prisioneiros” entre os que não pertenciam ao mainstream. Mas mesmo recentemente, Christiano et al. descreveram aqueles que não utilizam modelos tradicionais de Equilíbrio Geral Estocástico Dinâmico (DSGE) como ‘amadores’ (Christiano et al., 2018). Por outro lado, há aqueles que estão – moderadamente – abertos a novas abordagens enquanto se persistir na adoção do núcleo neoclássico, o ‘paradigma da escassez’, em que neste paradigma os preços dos bens dependem da sua própria escassez. Brancaccio destaca, pelo contrário, a alternativa do ‘paradigma da reprodutibilidade’, segundo o qual os preços das mercadorias são determinados pelos custos e lucros, ou seja, pelas condições de reprodução do capital. Aqui, trata-se, obviamente, de uma mudança de paradigma. A questão de se saber se é necessário ou não, deve ser determinado por provas empíricas e não por axiomas, que são bons para construir ferramentas e não par construir uma ciência, seja ela “dura” ou “suave”.

Não espero certamente que Blanchard escreva um Anti-Brancaccio ou que repudie o seu manual. No entanto, ele argumenta hoje que: “da crise financeira global, a economia dominante tinha uma visão adocicada das flutuações económicas. A crise deixou claro que esta visão estava errada e que há necessidade de uma reavaliação profunda”; e que: “passando da política à investigação, a mensagem [da Grande Recessão] deve ser a de deixar florescer uma centena de flores. Agora que estamos mais conscientes das não linearidades e dos perigos que elas implicam, precisamos de explorar mais, teórica e empiricamente, todos os tipos de modelos” (Blanchard, 2014). Estas afirmações não estão longe de reconhecer que a ideia de que as pequenas perturbações podem produzir grandes efeitos não pode ser contemplada no mundo linear da economia axiomática neoclássica, ou seja, que a economia é instável no sentido apresentado por  Minsky. Afinal, em matéria de dívida e taxas de juro, o trabalho de Blanchard e Summers publicado nesta edição (Blanchard e Summers, 2019) assemelha-se muito às definições à Minsky de posições financeiras cobertas-especulativas-de Ponzi.

Contudo, não podemos aceitar a ideia de Blanchard de que, quando as coisas estão a correr bem, ainda podemos utilizar os modelos DSGEs. Outra classe de modelos económicos, concebidos para medir o risco sistémico e, portanto, a interação, deveria ser utilizada para nos sinalizar que estamos demasiado próximos de crises e para considerar políticas para reduzir o risco. Tentar criar um modelo que integre tempos normais e tempos de crise – e, portanto, seja bom em todas as épocas – parece estar para além do alcance conceptual e técnico da profissão, pelo menos nesta fase. No entanto, Brancaccio mostra-nos que ao adotar o paradigma da reprodutibilidade podemos aspirar a um modelo que explique tanto o nascer como o pôr-do-sol. O facto de precisarmos de mudar os modelos que antecedem a Grande Recessão está agora estabelecido. Mas devemos mudar de paradigma ou continuar com a estratégia de acrescentar epiciclos sobre epiciclos, como fizeram os astrónomos Ptolemaicos com as irregularidades astrais?

A propósito de mudanças de paradigma, a não-linearidade deriva da heterogeneidade e interação. Diz-se que um sistema é linear se puder ser decomposto em várias partes independentes, ou seja, autónomas. Quando, em vez disso, os vários componentes interagem diretamente entre si sem um coordenador central que torne possível reduzir o sistema à atividade das unidades individuais, então falamos de não-linearidade. Num sistema não-linear, nenhum dos seus componentes pode ser analisado separadamente do outro, precisamente devido à interação. O comportamento emergente de um sistema é devido à não-linearidade. As propriedades de um sistema linear são de facto aditivas: o efeito de um conjunto de elementos é a soma dos efeitos considerados separadamente, e não aparecem novas propriedades no todo que não estejam já presentes nos elementos individuais. Mas se existirem termos combinados, que dependem uns dos outros, então o todo é diferente da soma das partes e aparecem novos efeitos. Em economia, são criados modelos matemáticos para descrever o sistema como se este fosse linear, e o rigor matemático baseado em axiomas e a linearidade é preferível à validade empírica. O individualismo metodológico e a suposição de linearidade são considerados válidos. Mas um modelo matemático linear é uma função polinomial, cujos coeficientes são independentes uns dos outros ou tão fracamente dependentes que as interações podem ser negligenciadas. Típicos de sistemas complexos são os conceitos de auto-organização e comportamento emergente. Auto-organização significa que os elementos individuais atuam sem qualquer coordenador central, de uma forma autónoma e ascendente: uma das consequências da auto-organização em sistemas complexos é que já não se pode falar de leis universais, mas sim de leis específicas. O comportamento emergente significa que não pode ser inferido a partir da simples soma dos elementos que compõem o sistema (Gallegati, 2018).

Blanchard adere ao ditado de Keynes: “quando os factos mudam, eu mudo a minha opinião. E tu?”. No entanto, eu não penso que ele adira tanto a isso que chegue ao ponto de me fazer crer que Blanchard mais cedo ou mais tarde se tornará um ‘Anti-Blanchard’. Se a Grande Recessão foi antes de tudo uma crise económica, não se deve subestimar que foi também uma crise de teoria (Roncaglia, 2010), de tal forma que a teoria  económica ainda navega em más águas. Apesar de ainda existir uma abordagem dominante, a sua solidez teórica e capacidade de explicar provas empíricas são cada vez mais frágeis e questionadas. Na minha opinião, o livro Anti-Blanchard convida-nos sobretudo a refletir sobre o facto de que no seu cerne, a teoria económica dominante é axiomática e que, por isso, tem estado preocupada sobretudo com a coerência interna, ou seja, que as premissas sejam coerentes com as conclusões. Mas o resultado a que chegou não corresponde ao que se esperava: o mercado livre garante a existência de um caminho de equilíbrio, mas não a sua singularidade nem a sua estabilidade. A existência é então consequência de um axioma: o conhecimento do verdadeiro modelo da economia. Infelizmente, a teoria do caos informa-nos que sem o conhecimento completo do que existe, todo e qualquer caminho é possível.

Em meados do século XVIII, algumas das economias ocidentais foram transformadas pelo progresso tecnológico provocado pela Revolução Industrial. Isto vem um século depois de Newton e da subsequente convulsão na física: desde a pequena maçã aos enormes planetas, todos os objetos parecem obedecer à lei simples da gravitação. Para uma nova figura de cientista social, o economista, é portanto natural que se tome de empréstimo a linguagem – a forma – da ciência de maior sucesso, nomeadamente a física. É desde então que a física mecânica do século XVII tem governado a economia. Dos possíveis caminhos alternativos seguidos por todas as outras disciplinas, da biologia à sociologia à física, a economia opta por adotar apenas a ferramenta matemática não acompanhada pela verificabilidade das hipóteses, o que dá origem à deriva axiomática e à não-falseabilidade das hipóteses. Assim, se no capítulo final da sua Teoria Geral Keynes pode afirmar que os políticos são escravos de teorias económicas ultrapassadas, podemos dizer que, por sua vez, os economistas ainda são escravos da física de Newton.

Estamos por volta de 1870, na véspera do declínio da mecânica clássica e do reducionismo. A física dos microelementos em interacção ainda está para vir, e a economia permanece presa na visão “equilibrista” de Walras. A matematização entra em cena com força, suplantando a economia política, a economia política dos clássicos, e transformando-a em economia, em pseudociência. A partir daí, a adição de axiomatização e não-falseabilidade levou à degeneração do paradigma de investigação da teoria económica padrão (Lakatos, 1970) que Brancaccio põe em evidência. Ou seja, assume-se na corrente dominante que os agentes têm um conhecimento completo do verdadeiro modelo da economia e são, portanto, capazes de avaliar as consequências dos choques. Não surpreendentemente, Gregory Mankiw, considerado um dos fundadores do Novo DSGE Keynesiano, argumentou que “tais modelos tiveram pouco impacto na prática macroeconómica” e que “a observação dos factos sem teoria tornou-se a principal atividade dos economistas” (Mankiw, em Bergmann, 2009).

As causas da situação atual remontam portanto ao método clássico, newtoniano, que é inadequado para estudar os constituintes da matéria, embora ainda seja bom para analisar a cinemática dos corpos macroscópicos (curiosamente, os economistas utilizam uma metodologia macro para estudar o nível micro e tratar o primeiro como se fosse uma soma do segundo). O avanço da física ocorre quando surge o problema de estudar o mundo micro: um novo problema coloca a necessidade de ‘inventar’ um novo método. Isto é o que os físicos têm feito. Em vez disso, os economistas não mudaram nem o problema nem o método: o núcleo principal ainda utiliza a velha parafernália que estaria bem se o macro não fosse mais do que a soma dos microelementos.

Como economia política, a economia visava melhorar a sociedade. O resultado, com a vitória da economia, foi o oposto. A economia tornou-se um sistema que está sujeito às leis da natureza e, portanto, não pode ser alterado ou melhorado, exceto removendo tudo o que a afasta dos mercados perfeitos. É como se o pensamento económico dominante tivesse ficado preso na física do século XVII e ainda não se pudesse libertar deste abraço mortal. A história da ciência no futuro, olhando para os nossos dias, irá comparar a situação da teoria económica atual com a astronomia da época de Galileu, quando a ortodoxia ptolemaica sobreviveu apenas através da tortura. Gramsci recorda que a crise surge quando o velho está a morrer  e o novo ainda não pode nascer: neste interregno, ocorrem os mais variados fenómenos mórbidos. No campo económico, não faltam exemplos hoje em dia: da austeridade expansiva à deflação salarial como estímulo ao emprego.

No debate de Milão, Olivier Blanchard apresentou um resumo das lições que acredita ter aprendido com a história económica da última década, desde a grande recessão internacional até ao presente. O núcleo da sua palestra é um artigo que escreveu juntamente com Larry Summers, que é republicado em italiano nesta edição (Blanchard e Summers, 2019). Olivier Blanchard e Larry Summers insistem na possibilidade de no futuro, após novas crises ou estagnação prolongada, poder ocorrer uma “evolução” ou mesmo uma “revolução” nas direções da política económica. Os autores evocam a possibilidade de um excesso sistemático de poupança sobre o investimento poder conduzir a uma taxa de juros próxima de zero e, em qualquer caso, inferior à taxa de crescimento da economia. Na sua opinião, a nova fase histórica impõe grandes mudanças na conceção das políticas económicas: a redução das possibilidades de ação da política monetária para estabilizar o ciclo económico, a necessidade de recorrer a políticas de contenção financeira para evitar novos fenómenos de instabilidade, e a oportunidade de explorar o alargamento das margens de manobra da política orçamental pública para apoiar o crescimento do emprego e do produto real e potencial, uma vez que este último também pode ser influenciado pela dinâmica da procura agregada. Para Blanchard e Summers, estas são transformações profundas, mas podem ser enquadradas numa interpretação ainda tradicional, embora largamente alterada, do sistema económico.

No seu artigo, Emiliano Brancaccio mostra como uma abordagem comparativa dos modelos teóricos realça os pontos de contacto e as divergências entre a abordagem de Blanchard e os paradigmas alternativos da teoria económica (Brancaccio, 2019). Uma diferença básica entre as duas visões consiste na ligação diferente que se estabelece no regime capitalista entre a dinâmica da produção e do emprego, por um lado, e as tendências dos preços e da distribuição, por outro. Para a abordagem dominante, esta ligação seria regida por critérios de eficiência neoclássica que são politicamente neutros. Para a teoria alternativa, por outro lado, essa ligação é determinada pelas condições de reprodução do capital e está aberta ao conflito social, entendido nas suas várias formas. Esta linha de demarcação entre os dois paradigmas diferentes, segundo Brancaccio, levanta um problema de posicionamento lógico para todas as abordagens da teoria económica, passada e presente, incluindo, por exemplo, os modelos baseados em agentes. Deste ponto de vista, é interessante que, com apenas algumas modificações, alguns modelos de Blanchard podem ser transportados de um lado dessa linha divisória para o outro. A partir disto, provocadoramente, Brancaccio vai ao ponto de discernir traços inconscientes de “marxismo” na visão do antigo chefe do FMI. Além disso, no relançamento de uma abordagem comparativa ao estudo dos diferentes modelos teóricos localizados de um lado e do outro dessa linha lógica, Brancaccio vê uma oportunidade de iniciar uma renovada competição lakatosiana entre paradigmas, submetendo-os a testes lógicos e empíricos comuns e permitindo também uma comparação direta entre as diferentes prescrições de política económica. A este respeito, ao contrário de Blanchard, Brancaccio acredita que uma “revolução” que, em termos mais ou menos explícitos é inspirada por Keynes, deve basear-se numa mudança mais radical, que no campo político conduziria, pelo menos, entre outras coisas, à proibição da deflação salarial e de preços da caixa de ferramentas de reequilíbrio macroeconómico. Finalmente, Brancaccio levanta uma questão mais geral, sobre se uma “revolução” ao estilo keynesiano pode ou não ter lugar hoje em dia sem a provocação política de uma ameaça socialista. Interpretando o keynesianismo como o resultado dialético da histórica disputa do século XX entre capitalismo e socialismo soviético, chega a uma resposta negativa, talvez pessimista mas exigindo uma cuidadosa reflexão.

Para além dos artigos de Blanchard e Brancaccio, esta edição acrescenta também contribuições posteriores de Roberto Ciccone e Antonella Stirati, Alessia Amighini e Francesco Giavazzi, Heinz Kurz e Neri Salvadori, Giovanni Dosi e Andrea Roventini, Annalisa Rosselli, e Roberto Torrini.

Roberto Ciccone e Antonella Stirati acolhem com interesse a “revolução” na política económica evocada por Blanchard, mas especificam que a eficácia das orientações políticas depende da coerência lógica das teorias que as apoiam e da sua relevância empírica, características sobre as quais a abordagem dominante ainda apoiada por Blanchard tem sérias limitações. Por conseguinte, apelam a uma mudança paradigmática mais geral, que, tal como Brancaccio, eles vêem no renascimento da abordagem alternativa dos economistas clássicos, de Marx e de Sraffa (Ciccone e Stirati, 2019). Ao longo do mesmo sulco teórico está a contribuição de Heinz Kurz e Neri Salvadori, que apresentaram críticas a duas crenças típicas sobre as quais até os expoentes mais relevantes da corrente dominante contemporânea parecem construir os seus modelos: a presunção de que a procura e a oferta de uma dada mercadoria “se comportam  bem”, ou seja, têm uma forma e uma posição tais que garantem a existência, estabilidade e singularidade do equilíbrio; e a presunção de que o progresso técnico pode ser absorvido pelo sistema económico sem flutuações cíclicas prolongadas (Kurz e Salvadori, 2019).

Alessia Amighini e Francesco Giavazzi exploram um aspeto específico do diálogo entre Blanchard e Brancaccio, relativamente à forma como os diferentes valores assumidos pela diferença entre a taxa de juro e a taxa de crescimento podem afetar a evolução da dívida e os respetivos custos orçamentais e sociais. A este respeito, concentram-se nos países em que a taxa de juro excede a taxa de crescimento e questionam se existem condições para que uma política orçamental restritiva contribua para a contenção da dívida e desigualdades relacionadas (Amighini e Giavazzi, 2019).

Giovanni Dosi e Andrea Roventini apontam para um novo caminho para o desenvolvimento de uma macroeconomia moderna, baseada em modelos baseados em agentes que interpretam a economia como um sistema complexo em evolução no qual não existe isomorfismo entre os níveis micro e macro de análise. Esta nova vertente de investigação, segundo os autores, pode contribuir para a resolução de muitas das questões macroeconómicas levantadas por Blanchard e ao mesmo tempo posiciona-se no lado “crítico” da linha de demarcação teórica traçada por Brancaccio, uma vez que exclui ligações entre produção e distribuição baseadas na escassez neoclássica (Dosi e Roventini, 2019); Seriam desejáveis futuras investigações nesta direção específica, que poderiam revelar mais afinidades com as abordagens dos economistas clássicos, de Marx e de Sraffa, dos quais Anti-Blanchard se inspira.

Annalisa Rosselli sublinha que o progresso da investigação científica em economia exige uma abertura total ao pluralismo de paradigmas na academia e que isto, para ser assim, exigiria uma igualdade de condições no acesso a recursos e oportunidades de carreira. Uma vez que tal igualdade de condições ainda está longe de ser alcançada, uma comparação como a que existe entre Blanchard e Brancaccio merece ser saudada, pois testemunha a necessidade agora sentida por muitos de abrir a universidade e os seus procedimentos de avaliação e seleção à pluralidade de paradigmas de investigação (Rosselli, 2019).

 Roberto Torrini interpreta o diálogo entre Blanchard e Brancaccio como um testemunho do maior espaço que agora parece ser encontrado, na academia e nas instituições, para o desenvolvimento de um debate mais problemático e menos esquemático do que no passado. Um debate que pode promover o avanço do conhecimento e, em algumas circunstâncias, pode também destacar a possibilidade de convergência entre as conclusões políticas dos economistas que seguem abordagens teóricas bastante diferentes. Na sua opinião, o caso da economia italiana representa um interessante banco de ensaio para o diálogo entre linhas de investigação concorrentes (Torrini, 2019).

A iniciativa da Fundação Feltrinelli, e a presente edição de Moneta e Credito que recolhe os seus trabalhos e subsequentes discussões, têm o mérito de ter realçado o potencial de comunicação renovada entre paradigmas concorrentes da teoria e da política económica. A difusão de tais iniciativas na academia desperta hoje o interesse de um vasto leque de estudiosos, pertencentes a várias escolas de pensamento. Afinal, esta tendência é também um aviso para aqueles que, em Itália e noutros lugares, ainda insistem na aplicação de critérios obscurantistas de avaliação da investigação, os quais, inclinados apenas para a abordagem dominante e fechados ao confronto, têm impedido durante demasiado tempo o progresso do conhecimento no campo da economia.

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Mauro Gallegati [1958 -] é um economista italiano, professor na Universidade Politecnica delle Marche, Ancona, Itália. Considerado neo-keynesiano é um estudioso da economia baseada em agentes.

Depois de ter obtido o seu doutoramento em economia em 1989 na Universidade Politécnica de Marche com uma tese sobre fragilidade financeira sob a supervisão de Hyman Minsky, Gallegati ocupou cargos de visitante, tanto como bolsista como como professor na Universidade de Washington em St.Louis, Universidade de Cambridge, Universidade de Stanford, Instituto de tecnologia de Massachusetts, Universidade de Columbia, Instituto Santa Fé, Brookings Institution, Universidade de tecnologia, Sydney, Universidade de Quioto e ETH Zurich. Atualmente, leciona macroeconomia Avançada na Universidade Politécnica delle Marche, na Faculdade de economia, com Giorgio Fuà. Foi presidente da sociedade ESHIA (ciência económica com agentes heterogéneos em interacção). A sua actividade de investigação centra-se principalmente na economia da complexidade. Neste campo de investigação, publicou trabalhos científicos com Bruce Greenwald, Joseph Stiglitz e Domenico Delli Gatti. Com Joseph Stiglitz, Gallegati desenvolveu uma teoria da informação assimétrica com agentes heterogéneos e suas aplicações. Gallegati é membro do Institute for New Economic Thinking. É autor de Vie di fuga (ed. Ogni Uomo è Tutti Gli Uomini, 2013), de Oltre la siepe (Chiarelettere, 2014).

 

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