Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
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Estamos no campo de domínio dos plutocratas –os que lenta, mas perseverantemente, se têm encarregado de ir minando os sistemas democráticos– mas que agora se vêm também acompanhados, ou emulados, por outras figuras e outros movimentos da direita mais extrema, tentando trazer acima práticas e regimes antigos, apoiados por poderes empresariais, económicos e financeiros, contando todos com a memória curta dos povos, devidamente ‘tratada’ com desinvestimento no ensino das humanidades e investimento na ‘sociedade do espectáculo’, comandado pelos ‘big brothers de bolso’.
António Oliveira, “das eleições ao sursumcordam”, A Viagem dos Argonautas em 20 de Abril de 2024 (aqui)
Texto 9. O que significa a eleição de Milei ?
Publicado por
em 30 de novembro de 2023 (original aqui)
Como chegou Javier Milei ao poder na Argentina? Christophe Giudicelli avança algumas pistas, complementares da leitura proposta nas nossas colunas há alguns dias, por Pedro Perucca e também por Mariano Schuster e Pablo Stefanoni.
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Domingo, 19 de novembro, a Argentina elegeu Javier Milei como presidente da República, com uma votação de 55,7%, o que faz dele o presidente com maior votação desde o retorno à democracia, há exatamente quarenta anos atrás. Ao eleger este candidato de extrema-direita com programa ultracapitalista, os argentinos escolheram de facto um grande salto no vazio. Uma frase já feita e muitas vezes repetida.
Para o vazio, é certo, Milei é o que se pode imaginar de mais oco. Por outro lado, saltar no vazio não é saltar no desconhecido. Seria um erro pensar que esta eleição é sobre distopia. Isto só é verdade se nos detivermos na espuma dos factos: a motosserra do candidato, os seus exageros verbais ou as fantasias dos seus companheiros de viagem política. De facto, encontramos no regime que se põe em prática praticamente tudo o que as atuais extrema-direitas carregam de nauseabundo. A única particularidade: a retórica muda ligeiramente, matizada de uma pregação libertária que reclama abertamente o fim do Estado, a abolição de todas as formas de conquistas sociais e a mercantilização de absolutamente tudo.
Tendo em conta a configuração política atual, não se diz que o programa radical de Milei possa conduzir a algo mais do que medidas disciplinares próprias dos governos neoliberais autoritários. O presidente mais eleito é também o mais frágil do ponto de vista parlamentar, e tem de conviver com a direita, provavelmente tão reacionária como ele, mas sem dúvida menos disposta a tentar aventuras inéditas. Aqui iremos tentar compreender o que permitiu que uma aliança de paleo-libertários e neofascistas praticamente desconhecidos na política há três anos chegasse ao poder na Argentina, ao contrário do que aconteceu no Brasil e nos Estados Unidos, onde Bolsonaro e Trump foram derrotados, deixando para trás um fraco resultado.
Metapolítica e mediapolítica
As explicações são múltiplas. Em primeiro lugar, remetem para a ascensão de uma outra forma de ocupar o espaço político, num momento de crise económica e de profundo desencanto em relação aos partidos de governo, o peronismo na sua versão mais recente de centro-esquerda (o kirchnerismo) e a aliança de direita e de centro-direita representada por Juntos por el Cambio (Juntos pela mudança), que tinha constituído a maioria do ex-presidente Mauricio Macri (2015-2019).
Após a política de terra queimada do macrismo, que, além de endividar o país por décadas [1], já tinha provocado uma inflação de quase 50%, o retorno ao poder do peronismo suscitou grandes esperanças. Ao neoliberalismo desenfreado deveria suceder uma melhor redistribuição da riqueza, um braço de ferro devia ser iniciado com o FMI para rediscutir as condições de reembolso do colossal empréstimo concedido a Macri por Christine Lagarde, e uma tributação mais ambiciosa do capital devia assegurar uma melhor justiça social. A política timorata de Fernández, as lutas internas dos seus fiéis com o kirchnerismo e, finalmente, a crise económica e monetária causada em grande parte por uma seca histórica que reduziu drasticamente a produção de soja e milho, amputaram as receitas fiscais e desestabilizaram o orçamento de Estado, levando a uma inflação totalmente fora de controlo.
Nestas condições, uma parte importante da base eleitoral do peronismo, empobrecida e sem perspetiva, mudou, juntando-se aos grandes batalhões do antiperonismo atávico de uma parte da sociedade argentina, que nunca votaria num candidato peronista. A campanha de Juntos por el Cambio, liderada pela ex-ministra do interior de Macri, Patricia Bullrich, não lhe permitiu distinguir-se das gesticulações mais francas da extrema-direita. O eleitor prefere sempre o original à cópia… A segunda volta pôs, portanto, em disputa Sergio Massa, o Ministro da Economia do atual Governo, completamente desmonetizado, em todos os sentidos do termo, e Javier Milei, que o venceu por muito larga margem.
Este sucesso eleitoral deve-se, em primeiro lugar, à cabeça de gôndola desta aliança de extrema-direita. Javier Milei é, antes de mais, um histriónico dos estúdios de televisão, um patético mediático que se tornou conhecido há alguns anos pelas suas intervenções virulentas nas antenas a favor de um credo paleo-libertário, acompanhado de grande gesticulação e insultos aos seus interlocutores: esquerdistas de merda, incompetentes, falhados, delinquentes, mentirosos, assistidos, coletivistas. O papa, o imbecil que está em Roma, é comunista, é o enviado do Maligno à terra, o que é bastante lógico porque Bergoglio é peronista, sendo o peronismo sempre assimilado, na grelha de análise miléista, ao comunismo soviético. Seria muito curioso se a mensagem não tivesse alguma eficácia num país que guarda estruturalmente o velho fundo ideológico da guerra fria e das ditaduras financiadas pela CIA, que usurparam o poder de forma intermitente entre 1955 e 1983.
Um caso bastante típico de anticomunismo sem comunismo, clivado por uma linha de fratura peronista/antiperonismo. Ainda há alguns anos, o Presidente [agora] eleito era um personagem bastante vulgar, possuindo um vago diploma em economia obtido numa universidade privada de segunda zona, que intervinha ocasionalmente em debates televisivos. Mas à força de martelar nas antenas que ele tinha a ciência económica infundida, e de bater os seus interlocutores com uma torrente de referências convenientes, mas que estes não dominavam, acabou por incutir a ideia de ser um «economista» num número crescente de emissões.
Nada de muito novo, é bem habitual assim sob outros céus entronizar como «filósofos» os opinólogos de estúdio. Deve-se reconhecer, no entanto, que Milei era um bom produto apelativo, bastante bem embalado: corte de cabelo excêntrico, jaqueta de couro preta, arrotos, detalhes biográficos cuidadosamente encenados, supostamente em confronto com o perfil de um político profissional. Contém todos os ingredientes que podem atrair um olhar argentino, futebol, rock, calão. Uma pitada de detalhes mais crocantes: sexo tântrico, o medium desdentado que lhe permite comunicar com o seu cão morto. Os seus outros cães clonados a partir do anterior, que levam o nome dos seus autores fetiches, todos ultra-liberais ou libertários: Milton Friedman, Murray Rothbard e Robert Lucas.
O problema é que, num país onde a economia vai tão mal – a inflação deverá atingir 180% em 2023 -, o palhaço começou a ser ouvido. Afinal de contas, ele gritava com toda a classe política e criava um burburinho com os seus insultos e piadas, reciclando tudo o que constava do catecismo neo-reacionário: ceticismo climático, anti-vax, anti-feminismo, luta contra a “teoria do género”, escrita inclusiva e, de uma forma mais geral, a hidra progressista que teria imposto a crença herética de que toda a necessidade dá origem a um direito.
Fiel ao seu paleo-libertarismo de manual escolar [2], chegou a propor o mercado livre para a compra e venda de órgãos e de armas, a privatização das ruas e dos passeios. Mas a abolição do Estado não significa anarquia e muito menos uma sociedade sem classes: o poder do Estado deve ser utilizado para proibir o aborto e garantir a segurança das reformas planeadas… contra o Estado social, os especuladores, os beneficiários da assistência social, todos parasitas, culpados pela “decadência” do país.
Milei foi, pouco a pouco, conquistando um verdadeiro público entre os que ficaram para trás, os 40% de pessoas que constituem o sector informal e para quem o Estado é, na melhor das hipóteses, uma quimera que não lhes diz respeito e, na pior, um fundo mafioso destinado a enriquecer a casta à sua custa, um termo retirado dos espanhóis do Podemos mas desviado do seu significado original para atacar um inimigo polimorfo: Peronistas, radicais, políticos corruptos, sindicalistas corruptos, funcionários públicos inúteis. Em suma, o establishment do papá Le Pen, o Estado profundo trumpista, com uma boa pitada de poujadismo, com uma transformação libertária.
Depois de um certo sucesso nas livrarias, surfando no entusiasmo, em particular, dos jovens pré-adolescentes que votam pela primeira vez [3], o pregador mediático lançou-se na política, apoiado pela extrema-direita local e pela internacional reacionária, em particular Vox em Espanha, Bolsonaro no Brasil e Kast no Chile. Na ausência de verdadeiros quadros políticos, para além de alguns neoliberais tão à direita que se distanciaram do ex-presidente Mauricio Macri, Milei e o seu punhado de conselheiros (a sua irmã em particular) rodearam-se de uma improvável tropa de influencers, youtubers, cosplayers e tiktokers.
Uma série de emuladores a resmungar instruções ainda mais básicas do que o seu mentor, que literalmente saturaram as redes e invadiram os estúdios de televisão e rádio com propostas tão facilmente polémicas como substituir a educação sexual nas escolas por sessões de pornografia, dar aos homens a opção de renunciar à sua paternidade 15 dias depois de declararem a sua gravidez, vender crianças e órgãos, romper relações diplomáticas com o Vaticano, e autodeterminação para as Malvinas, para os Kelpers.
O ruído e os micro-escândalos garantiram ao seu paladino uma presença mediática sem paralelo. Uma estratégia de marketing que se encarregou da identidade visual do “leão” sobre um fundo amarelo e de uma versão cover (contra a opinião do grupo) de uma canção popular do hard rock argentino. Uma certa habilidade enfim a retomar slogans típicos das mobilizações sociais de esquerda e de os distorcer: desde que se vayan todos (que se vão embora todos) e se viene el estalido (a revolta está a chegar) de 2001, até ao Massa, basura, vos sos la dictadura (Massura, lixo, tu és a ditadura), uma distorção revisionista de uma palavra de ordem que denuncia os agentes e cúmplices da ditadura. Um trabalho metapolítico consciente que não deixa pedra sobre pedra na “luta cultural” que Milei sempre defendeu. Tudo servido por um exército de trolls que difundem todo o tipo de notícias falsas e invetivas violentas contra qualquer pessoa que se oponha ao líder.
Quando o sábio mostra a lua…
Milei era originalmente um produto puramente mediático. Formulações simples, frases diretas. Formatos curtos, fáceis de difundir em qualquer meio. Ele próprio fazia todo o tipo de provocações, muitas vezes sexuais [4], e os seus epígonos, como vimos, encarregavam-se de completar o quadro com uma corrida para encontrar a afirmação mais grotesca, enquanto os seus trolls asseguravam que toda esta sopa indigesta fosse disseminada urbi et orbide.
No entanto, por detrás deste circo estrondoso e colorido, dois grupos estruturados avançavam mais discretamente com os seus peões: a extrema-direita militar e a direita neoliberal.
A extrema-direita militar
Os primeiros a compreenderem as vantagens de uma aliança tática com o desordeiro libertário ultrarreacionário foram os militantes de extrema-direita próximos da antiga ditadura cívico-militar (1976-1983), que nunca teriam chegado ao poder se não tivessem entrado na lógica das suas tonitruantes imprecações.
A vice-presidente eleita, Victoria Villarruel, é a cabeça de ponte de um grupo nebuloso que trabalha há anos para reabilitar a junta, que defende a libertação de militares condenados por crimes contra a humanidade e que trava uma batalha sem tréguas contra todas as organizações de defesa dos Direitos do Homem. É a figura mais visível do negacionismo argentino, que consiste em negar a existência das 30.000 pessoas desaparecidas durante a ditadura, em denunciar a instrumentalização dos Direitos do Homem e em reavivar a “teoria dos dois demónios”, segundo a qual a violência das forças armadas não passava de uma resposta à das organizações guerrilheiras dos anos 70, nomeadamente os Montoneros e o ERP. Adepta do confusionismo cínico típico dos círculos de extrema-direita, fundou e dirige o Centro de Estudios Legales sobre el Terrorismo y sus Víctimas (CELTYV), um acrónimo que imita o CELS, Centro de Estudios Legales y Sociales, Centro este que, desde o regresso à democracia, reúne advogados especializados em Direitos do Homem e no apuramento da verdade em investigações judiciais contra a repressão ilegal no período da ditadura.
Esta Madona dos assassinos em uniforme, ela própria filha e sobrinha de oficiais estreitamente ligados ao terrorismo de Estado, está em todos os noticiários e nas redes, negando os 30.000 desaparecidos e apelando à “memória total”, ou seja, equiparando as vítimas da repressão do Estado aos militares mortos em confrontos com as organizações de esquerda armada, todos eles “terroristas”. Esta reivindicação do papel da ditadura conduz naturalmente a um projeto de libertação dos piores criminosos condenados a prisão perpétua por crimes contra a humanidade.
Algumas dessas pessoas, logicamente apoiaram a candidatura de Milei, como Jorge “Tigre” Acosta, um dos principais dirigentes do campo de concentração da ESMA, ou Mario “Churrasco” Sandoval, um polícia implicado em centenas de desaparecimentos, que mais tarde se refugiou em França e foi contratado como professor, entre outros por Jean-Michel Blanquer. A extrema-direita e os seus militantes estão, portanto, muito presentes entre os apoiantes da dupla Milei-Villarruel. Militares que levantam o espetro dos Ford Falcon verdes (a viatura utilizada pelos comandos clandestinos para raptar os adversários), neonazis convictos, católicos fundamentalistas anti-aborto, membros do Opus Dei e até um grupo de rock nostálgico da ditadura e da solução final, encontra-se de tudo em torno do novo poder.
O verniz democrático racha muito rapidamente, aliás, logo que se aborda determinados assuntos. O casamento gay é equiparado a uma infestação de piolhos, para a provável Ministra dos Negócios Estrangeiros, Diana Mondino; no que diz respeito à identidade de género, o novo presidente nada tem contra o facto de alguém se considerar um «puma»; quanto ao seu futuro secretário da educação, Martin Krauze, lamentou que «a Gestapo não tenha sido argentina, porque teria matado menos judeus»… numa discussão que nada tinha a ver com a Segunda Guerra Mundial, mas que mostrava claramente quais as referências que estruturavam o seu imaginário. As ameaças físicas contra ativistas de organizações de Direitos do Homem, sindicalistas e parlamentares da futura oposição estão a multiplicar-se a um ritmo alarmante. Os símbolos reproduzidos nas cartas anónimas e nas redes são claros: falcon verde e cruz suástica, regresso da Triple A [5]. Já não se pode excluir um regresso a uma violência paramilitar ou parapolicial favorecida pela chegada ao poder destes meios de extrema-direita.
A direita neoliberal
O segundo pilar do regime em curso de instalação é, sem dúvida, a direita neoliberal. Uma fração já se havia juntado a Milei, em particular um bando de ex-menemistas um pouco esquecidos e alguns macristas em ruptura. Mas este apoio tornou-se quase orgânico no dia seguinte à primeira volta: a franja mais radical da direita clássica, coladinha atrás do ex-presidente Macri pôs-se ao serviço de Milei. A rapidez desse alinhamento parece acreditar a tese de que as negociações orquestradas por Macri já estavam em andamento há muito tempo. Em todo o caso, foram enterradas as acusações contra o antigo presidente, considerado delinquente, mafioso, personagem repugnante, pilar da casta odiosa. Foram esquecidos os insultos proferidos no dia anterior contra a candidata de Macri, Patricia Bullrich, montonera bombista, assassina de crianças, terrorista [6]. Buenos Aires merece bem uma missa.
Milei precisava dos votos de Bullrich, ele precisa dos executivos e dos eleitos do PRO. Macri planeia jogar duro e controlar o poder … que perdeu nas urnas. O partido de Milei tem apenas 38 dos 257 deputados e 7 dos 72 senadores. Ele precisa de reunir uma parte dos 94 deputados e 21 senadores de Juntos por el Cambio para evitar um bloqueio institucional completo. Ele não tem nenhum bastião sério em nenhuma das 24 províncias do país. O apoio das redes macristas será importante para acompanhar a política brutal que se anuncia. A imprensa de direita (O grupo Clarín, La Nación em particular) pode ser um valioso instrumento de propaganda.
Milei não se engana: os seus primeiros anúncios de privatização dizem respeito à agência de imprensa pública Télam e ao grupo de rádio e televisão pública. Seria imprudente deixar um espaço não enfeudado aos interesses económicos e políticos do novo regime. Na ausência de uma maioria parlamentar, será grande a tentação de governar por decreto, o que é permitido pela constituição argentina, muito presidencialista. E os primeiros anúncios vão nesse sentido: choque fiscal, sem meias medidas, tudo sobre um fundo de emergência apocalíptico: é isso ou o caos. Pagamos a dívida, os indicadores macroeconómicos voltam a subir e alcançamos o nirvana da ortodoxia liberal.
Não importa se, entretanto, a maioria da população fica de fora. Quando estiverem por terra, os argentinos vão ficar contentes por lhes atirarmos… Make Argentina Great Again, poderia dizer o novo presidente, que sonha em voz alta por voltar à era de ouro da república oligárquica do final do século XIX, onde nem o sufrágio universal nem o direito do trabalho entravavam o bom andamento do capital.
Macri e os interesses que representa têm, por sua vez, todo o interesse em apoiar esta terapia de choque: constituem uma surpresa divina para eles. Inscrevem-se na linha do desmantelamento do Estado social empreendido pelo ministro da economia da ditadura Martínez de Hoz (1976-1983), perseguido por Menem (1989-1998) e retomado em força pelo próprio Macri (2015-2019) com o lamentável fracasso que todos bem conhecemos. Desregulamentação monetária, supressão dos impostos, abolição dos impostos à exportação e, evidentemente, redução drástica da despesa pública. Tudo embrulhado em papel mágico, o da dolarização da economia, promessa de campanha destinada a resolver todos os problemas.
É muito provável que as medidas mais radicais do candidato com a sua motosserra – a supressão do banco central, a supressão do peso em benefício do dólar – sejam adiadas para as calendas gregas. É, sem dúvida, a aposta de Macri e dos meios de negócios, que estão muito felizes por se esconderem atrás de um louco que esperam pilotar sem sujar diretamente as mãos. Aliás, o Ministério da Economia acaba de ser entregue a um fiel de Macri.
O mesmo acontece com as mudanças radicais em matéria de política externa anunciadas durante a campanha: rutura das relações comerciais com os países «comunistas», a saber… a China e o Brasil (que se contam entre os primeiros parceiros económicos da Argentina), abandono do Mercosul e da entrada anunciada no grupo dos BRICS. Estas duas últimas medidas são prováveis. Cortar relações com a China ou o Brasil é simplesmente impossível. Lula acaba de pedir desculpas ao neo-presidente antes de relançar qualquer troca. Estas não devem tardar: até o Papa acaba de perder a sua natureza demoníaca e imbecil para se tornar «sua santidade».
O alinhamento de Milei com uma internacional reacionária e conspiradora poderia, no entanto, ter consequências sobre muitos temas, como o multilateralismo, a questão dos Direitos do Homem a luta contra a desregulamentação climática. Politicamente, a aposta de Macri é, muito provavelmente, assumir progressivamente o controlo de um verdadeiro partido de direita na sua mão, sem a aliança desconfortável que ligava o PRO a outras formações mais centristas, como a velha União Cívica Radical que, mesmo que de direita não pode seguir Macri nos passos de um presidente negacionista para quem os piores presidentes da história foram Hipólito Irigoyen, o primeiro presidente radical e Raúl Alfonsín, eleito presidente há exatamente quarenta anos, e este saiu da ditadura. Há muito tempo que Macri e os seus vomitam o “golpe dos Direitos do Homem” e contestam publicamente o número dos 30 mil desaparecidos.
O caos que aí vem
Agora que se celebrará no dia 10 de dezembro os quarenta anos do retorno à democracia na Argentina, o futuro é sombrio, para não dizer negro. A carruagem que acaba de se instalar no poder tem sede de sangue e tem consciência de que é preciso ir depressa, pois vai encontrar-se confrontada com uma resistência importante por parte dos sectores afetados pelas medidas que deveriam ser anunciadas a 11 de Dezembro, que são muitos e poderosos.
Sabe-se desde já que os Ministérios da Saúde, do Trabalho, dos Assuntos Sociais, da Cultura e da Educação vão ser despromovidos para secretariados de Estado [7] ligados a um Ministério do Capital Humano, e que o seu orçamento vai ser extremamente reduzido, o que causará consequências em cascata em todo o país. O Conicet, o equivalente ao CNRS na Argentina, o melhor instituto de pesquisa do continente, também está na linha de mira. Depois de ter anunciado a sua supressão pura e simples, Milei pareceu querer conservar apenas os sectores mais «produtivos». As ciências humanas e sociais, as ciências ambientais, entre outras, têm de se preocupar com o que vai acontecer.
Os mínimos sociais e todas as medidas de acompanhamento das populações mais pobres, assimiladas a assistência, serão suprimidos ou reduzidos ao mínimo. Os organismos de luta contra as desigualdades e as discriminações, o Instituto Nacional Indígena e, evidentemente, todos os organismos de defesa dos Direitos do Homem, equiparados a organismos de propaganda, são claramente visados. Villarruel, a quem foi confiado o cuidado de nomear um ou uma titular para os ministérios da defesa e da segurança, manifestou o desejo de transformar o ex-Campo de concentração da ESMA – museu de local e de memória sob a tutela do Secretariado Nacional dos Direitos do Homem desde 2015, recentemente classificado como Património Mundial da UNESCO – num jardim, sem nenhuma menção das 5 mil pessoas desaparecidas. As províncias vão ver a participação do Estado federal suprimida ou reduzida ao mínimo.
Todas estas medidas só podem suscitar reações políticas e mobilizações sociais de grande amplitude. Milei e Macri já advertiram: não hesitarão em desencadear a repressão para impor as suas contra-reformas. Macri até assimilou os possíveis manifestantes às orcas de Tolkien, essas criaturas desumanas, violentas e estúpidas que só podem ser contidas pela força das armas ou eliminadas. Deste ponto de vista, faz todo o sentido a libertação dos militares e dos polícias presos por crimes contra a humanidade. Isentará de escrúpulos as forças que participarem no esmagamento de qualquer veleidade de resistência, garantindo-lhes uma perfeita impunidade. Nada diz que estas medidas brutalistas possam ser tomadas, ainda não se sabe qual será a amplitude do desastre social que se avizinha. O que é certo é que a Argentina entra num período de forte confronto.
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Notas
[1] Macri contraiu uma dívida colossal de 45 mil milhões de dólares junto do FMI, que coloca várias gerações de argentinos sob a dependência deste organismo cuja capacidade de ingerência nas políticas sociais dos países que ele controla pela dívida é conhecida.
[2] Sobre este tema, leiam-se as análises de Pablo Stefanoni, por exemplo aqui : https://lundi.am/Qui-est-Javier-Milei-le-nouveau-president-argentin-libertarien
[3] O voto é possível a partir dos 16 anos na Argentina. É obrigatório aos 18 ans, opcional entre 16 e 18 anos.
[4] “O Estado é um pedófilo numa creche cheia de crianças acorrentadas e cobertas de vaselina», a co-participação (o mecanismo de solidariedade entre as províncias) é uma mulher violada etc. É uma obsessão em Milei: “A corporação política é mais perigosa para o capital do que um exército de pedófilos com síndrome de abstinência numa creche”.
[5] Aliança Anticomunista Argentina, grupo paramilitar responsável pelo assassinato de cerca de 1500 pessoas entre 1973 e 1976.
[6] Antes de ser a representante da direita dura, Patricia Bullrich foi militante da organização de guerrilha peronista revolucionária Montoneros.
[7] Milei suprime 10 dos 18 ministérios atuais. Os oito ministérios restantes são: segurança, defesa, interior, infraestruturas, Negócios Estrangeiros, economia, justiça e capital humano, sendo os dois últimos fábricas de gás que agrupam um grande número de secretariados.
O autor: Christophe Giudicelli é Diretor do Centro Franco-Argentina de Estudos Superiores da Universidade de Buenos Aires e Professor da Sorbonne em Paris (Civilização e História da América Colonial). Também é diretor associado de estudos da CREDA/Université Paris 3-Sorbonne Nouvelle e dirige a revista New World New Worlds (EHESS-CNRS). Graduou-se pela Ecole Normale Supérieure de Paris, doutor pela Universidade de Paris 3-Sorbonne Nouvelle, HDR pela Universidade de Rennes 2. Foi membro científico do Centro de Estudos Mexicanos e Centro-Americanos do México (CEMCA) e da Casa de Velázquez-École des Hautes Études Hispaniques de Madrid, bem como professor visitante em várias universidades.
Os seus temas de pesquisa são a história das fronteiras coloniais da América espanhola (Nueva Vizcaya e Tucumán), etnohistória, classificações coloniais, os processos de herança do passado indígena. É autor de vários livros e inúmeros artigos e pesquisa.



