Teoria e Política Económica: os grandes confrontos de ontem, hoje e amanhã, também – uma homenagem ao Joaquim Feio — Capítulo 3 — Texto 6. Como é que os economistas se enganaram tanto? (2/3) Por Paul Krugman

Reflexos de uma trajetória intelectual conjunta ao longo de décadas – uma homenagem ao Joaquim Feio

 

Capítulo 3 – Das harmonias universais decretadas pela Escola de Chicago à violência das crises atuais – Reflexões sobre os Nobel ou nobelizáveis da Escola de Chicago

Nota de editor: devido a extensão e nível de abstração do presente texto, o mesmo é publicado em 3 partes. Hoje a segunda.

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 min de leitura

Texto 6 – Como é que os economistas se enganaram tanto? (2/3)

 Por Paul Krugman

Publicado por  Magazine em 2 de setembro de 2009 (original aqui)

 

(continuação)

 

III. FINANÇAS PANGLOSSIANAS

Na década de 1930, os mercados financeiros, por razões óbvias, não eram muito levados em consideração. Keynes comparou-os com “aqueles concursos de jornais em que os concorrentes têm de escolher as seis caras mais bonitas de entre cem fotografias, sendo o prémio atribuído ao concorrente cuja escolha corresponde mais ou menos às preferências médias dos concorrentes como um todo; de modo que cada concorrente tem de escolher, não as caras que ele próprio acha mais bonitas, mas aquelas que ele pensa que mais agradam aos outros concorrentes”.

E Keynes considerou uma péssima ideia deixar que tais mercados, nos quais os especuladores passam o seu tempo a perseguirem-se uns aos outros, ditassem decisões empresariais importantes: “Quando o desenvolvimento do capital de um país se torna um subproduto das atividades de um casino, é provável que o trabalho seja mal feito”.

Por volta de 1970, mais ou menos, o estudo dos mercados financeiros parecia ter sido assumido pelo Dr. Pangloss de Voltaire, que insistiu que vivemos no melhor de todos os mundos possíveis. A discussão sobre a irracionalidade dos investidores, das bolhas, da especulação destrutiva tinha praticamente desaparecido do discurso académico. O campo foi dominado pela “hipótese da eficiência do mercado”, promulgada por Eugene Fama, da Universidade de Chicago, que afirma que os mercados financeiros fixam os preços dos ativos precisamente pelo seu valor intrínseco, tendo em conta toda a informação disponível ao público. (O preço das ações de uma empresa, por exemplo, reflecte sempre com precisão o valor da empresa, dada a informação disponível sobre os lucros da empresa, as suas perspetivas comerciais e assim sucessivamente). E nos anos 80, os economistas financeiros, nomeadamente Michael Jensen, da Harvard Business School, argumentavam que, uma vez que os mercados financeiros obtêm sempre os preços certos, o melhor que os chefes de empresa podem fazer, não só para si próprios mas para o bem da economia, é maximizar o preço das suas ações. Por outras palavras, os economistas financeiros acreditavam que deveríamos colocar o desenvolvimento do capital da nação nas mãos do que Keynes tinha chamado um “casino”.

Jason Lutes

 

É difícil argumentar que esta transformação na profissão foi impulsionada pelos acontecimentos. É verdade que a memória de 1929 estava gradualmente a recuar, mas continuava a haver mercados agressivamente em alta (ditos mercados de touros), com histórias generalizadas de excesso de especulação, seguidos de mercados em baixa (ditos mercados de ursos). Em 1973-4, por exemplo, as ações perderam 48 por cento do seu valor. E a queda das ações em 1987, em que o Dow mergulhou quase 23% num dia sem razão clara, deveria ter levantado pelo menos algumas dúvidas sobre a racionalidade do mercado.

Estes acontecimentos, porém, que Keynes teria considerado como prova da falta de fiabilidade dos mercados, pouco fizeram para mitigar a força de uma bela ideia. O modelo teórico que os economistas financeiros desenvolveram ao assumir que cada investidor equilibra racionalmente o risco contra a recompensa – o chamado modelo de avaliação dos ativos financeiros, dito modelo CAPM (Capital Asset Pricing Model) – é maravilhosamente elegante. E, se aceitar as suas premissas, é também extremamente útil. O CAPM não só lhe diz como escolher a sua carteira – ainda mais importante do ponto de vista da indústria financeira, diz-lhe como se posicionar em derivados financeiros, em créditos sobre créditos. A elegância e a aparente utilidade da nova teoria levou a que os seus criadores ganhassem Prémios Nobel e muitos dos defensores da teoria também receberam recompensas mais mundanas: armados com os seus novos modelos e formidáveis capacidades matemáticas – os usos mais misteriosos do CAPM requerem cálculos ao nível da física – os professores das escolas de negócios de formação científica moderada podiam e tornaram-se cientistas de foguetões de Wall Street, ganhando salários de Wall Street.

Para ser justo, os teóricos das finanças não aceitaram a hipótese da eficiência do mercado apenas porque era elegante, conveniente e lucrativa. Também produziram uma grande quantidade de provas estatísticas, que no início pareciam apoiar fortemente a sua teoria. Mas esta evidência era de uma forma estranhamente limitada. Os economistas financeiros raramente colocaram a questão aparentemente óbvia (embora não facilmente respondida) de saber se os preços dos ativos faziam sentido, dados os fundamentos do mundo real, tal como os ganhos. Em vez disso, perguntavam apenas se os preços dos ativos faziam sentido, tendo em conta os preços de outros ativos. Larry Summers, agora o principal conselheiro económico da administração Obama, em tempos ridicularizou os professores de finanças com uma parábola sobre “economistas de ketchup” que “mostraram que garrafas de dois litros de ketchup invariavelmente vendem exatamente o dobro das garrafas de um litro de ketchup”, e concluíram a partir daí que o mercado de ketchup é perfeitamente eficiente.

Mas nem esta zombaria nem as críticas mais polidas de economistas como Robert Shiller, de Yale, tiveram muito efeito. Os teóricos das finanças continuaram a acreditar que os seus modelos estavam essencialmente certos, e o mesmo aconteceu com muitas pessoas que tomavam decisões no mundo real. Entre eles estava Alan Greenspan, que era então o presidente do FED e um apoiante de longa data da desregulamentação financeira, cuja rejeição dos apelos para controlar os empréstimos subprime ou abordar a sempre inflacionada bolha da habitação assentava em grande parte na crença de que a economia financeira moderna tinha tudo sob controlo. Houve um momento revelador em 2005, numa conferência realizada para honrar o mandato de Greenspan no FED. Um corajoso participante, Raghuram Rajan (da Universidade de Chicago, surpreendentemente), apresentou um documento avisando que o sistema financeiro estava a assumir níveis de risco potencialmente perigosos. Foi ridicularizado por quase todos os presentes – incluindo, a propósito, Larry Summers, que rejeitou os seus avisos como “não tendo sentido”.

Em Outubro do ano passado, contudo, Greenspan admitia que estava num estado de “incredulidade chocada”, porque “todo o edifício intelectual” tinha “desmoronado”. Uma vez que este colapso do edifício intelectual foi também um colapso dos mercados do mundo real, o resultado foi uma severa recessão – a pior, por muitas medidas, desde a Grande Depressão. O que devem fazer os decisores políticos? Infelizmente, a macroeconomia, que deveria ter dado uma orientação clara sobre como enfrentar a economia em queda, estava ela no seu próprio estado de grande desordem.

 

IV. O PROBLEMA COM A MACRO

“Envolvemo-nos numa confusão colossal, tendo cometido um erro no controlo de uma máquina delicada, cujo funcionamento não compreendemos. O resultado é que as nossas possibilidades de criar riqueza podem correr o risco de serem desperdiçadas durante algum tempo – talvez por muito tempo”. Foi o que John Maynard Keynes escreveu num ensaio intitulado “The Great Slump of 1930”, no qual tentou explicar a catástrofe que então se abateu sobre o mundo. E as possibilidades do mundo em criar riqueza foram de facto desperdiçadas durante muito tempo; foi preciso a Segunda Guerra Mundial para levar a Grande Depressão a um fim definitivo.

Porque é que o diagnóstico de Keynes sobre a Grande Depressão como uma “confusão colossal” foi tão convincente no início? E porque é que a economia, por volta de 1975, se dividiu em campos opostos sobre o valor das opiniões de Keynes?

Gosto de explicar a essência da economia keynesiana com uma história verdadeira que também serve como uma parábola, uma versão em pequena escala das confusões que podem afligir economias inteiras. Considere o trabalho da Capitol Hill Baby-Sitting Co-op.

Esta cooperativa, cujos problemas foram relatados num artigo de 1977 no The Journal of Money, Credit and Banking, era uma associação de cerca de 150 casais jovens que concordaram em ajudar-se mutuamente, tomando conta dos filhos uns dos outros, quando os pais queriam sair à noite. Para se assegurar que cada casal fizesse a sua parte de baby-sitting, a cooperativa introduziu uma forma de certificados: cupões feitos de pesados pedaços de papel, cada um dando ao portador direito a uma meia hora de presença. Inicialmente, os membros recebiam 20 cupões ao aderirem e eram obrigados a devolver a mesma quantia ao saírem do grupo.

Jason Lutes

 

Infelizmente, verificou-se que os membros da cooperativa, em média, queriam manter uma reserva de mais de 20 cupões, talvez, para o caso de quererem sair várias vezes seguidas. Como resultado, relativamente poucas pessoas queriam gastar os seus certificados e sair, enquanto muitas queriam fazer de baby-sitter para que pudessem aumentar a sua reserva. Mas como as oportunidades de tomar conta de bebés só surgem quando alguém sai à noite, isto significava que era difícil encontrar trabalhos de baby-sitting, o que tornava os membros da cooperativa ainda mais relutantes em sair, tornando os trabalhos de baby-sitting ainda mais escassos…

Em suma, a cooperativa caiu numa recessão.

O.K., o que pensa desta história? Não a menospreze como sendo tola e trivial: os economistas têm usado exemplos em pequena escala para lançar luz sobre grandes questões desde que Adam Smith viu as raízes do progresso económico numa fábrica de alfinetes, e têm razão em fazê-lo. A questão é se este exemplo particular, em que uma recessão é um problema de procura inadequada – não há procura suficiente de baby-sitting para proporcionar empregos a todos os que os querem – chega à essência do que acontece numa recessão.

Há quarenta anos atrás a maioria dos economistas teria concordado com esta interpretação. Mas desde então a macroeconomia tem-se dividido em duas grandes fações: economistas “de água salgada” (principalmente nas universidades costeiras dos EUA), que têm uma visão mais ou menos keynesiana do que são as recessões; e economistas “de água doce” (principalmente nas escolas do interior), que consideram essa visão um disparate.

Os economistas de água doce são, essencialmente, puristas neoclássicos. Acreditam que toda a análise económica válida parte da premissa de que as pessoas são racionais e os mercados funcionam, uma premissa violada pela história da cooperativa de baby-sitting. Na opinião deles, não é possível uma falta geral de procura suficiente, porque os preços evoluem sempre para fazer corresponder a oferta à procura. Se as pessoas quiserem mais cupões de baby-sitting, o valor desses cupões aumentará, de modo a valerem, digamos, 40 minutos de baby-sitting em vez de meia hora – ou, equivalentemente, o custo de uma hora de baby-sitting cairia de 2 cupões para 1,5. E isso resolveria o problema: o poder de compra dos cupões em circulação teria aumentado, de modo que as pessoas não sentiriam necessidade de acumular mais, e não haveria recessão.

Mas não parecem as recessões períodos em que simplesmente não há procura suficiente para empregar todos os que estão dispostos a trabalhar? As aparências podem ser enganadoras, dizem os teóricos da água doce. A economia sólida, na sua opinião, diz que as falhas globais da procura não podem acontecer – e isso significa que não acontecem. A economia keynesiana tem sido “comprovadamente falsa”, diz Cochrane, da Universidade de Chicago.

No entanto, as recessões acontecem. Porquê? Nos anos 70, o principal macroeconomista de água doce, o prémio Nobel Robert Lucas, argumentou que as recessões eram causadas por confusão temporária: os trabalhadores e as empresas tinham dificuldade em distinguir as mudanças globais no nível de preços devido à inflação ou à deflação das mudanças na sua própria situação empresarial específica. E Lucas advertiu que qualquer tentativa de combater o ciclo económico seria contraproducente: as políticas ativistas, argumentou ele, apenas contribuiriam para aumentar a confusão.

Na década de 1980, porém, mesmo esta aceitação muito limitada da ideia de que as recessões são coisas más tinha sido rejeitada por muitos economistas de água doce. Em vez disso, os novos líderes do movimento, especialmente Edward Prescott, que estava então na Universidade do Minnesota (pode-se ver de onde vem o pseudónimo de água doce), argumentaram que as flutuações de preços e as mudanças na procura na realidade nada tinham a ver com o ciclo económico. Pelo contrário, o ciclo económico reflete flutuações no ritmo do progresso tecnológico, que são amplificadas pela resposta racional dos trabalhadores, que voluntariamente trabalham mais quando o ambiente é favorável e menos quando é desfavorável. O desemprego é uma decisão deliberada dos trabalhadores de tirar um tempo de folga.

Colocada assim, esta teoria soa a tolice – será que a Grande Depressão foi realmente umas Férias Grandes? E, para ser honesto, penso que é realmente uma tolice. Mas a premissa básica da teoria do “ciclo económico real” de Prescott foi incorporada em modelos matemáticos engenhosamente construídos, que foram mapeados em dados reais, utilizando técnicas estatísticas sofisticadas, e a teoria passou a dominar o ensino da macroeconomia em muitos departamentos universitários. Em 2004, refletindo a influência da teoria, Prescott partilhou um Nobel com Finn Kydland da Carnegie Mellon University.

Enquanto isso, os economistas de água salgada vacilaram. Onde os economistas de água doce eram puristas, os economistas de água salgada eram pragmáticos. Enquanto economistas como N. Gregory Mankiw, em Harvard, Olivier Blanchard, no MIT, e David Romer, na Universidade da Califórnia, Berkeley, reconheceram que era difícil conciliar uma visão keynesiana da procura de recessões com a teoria neoclássica, encontraram a evidência de que as recessões são, de facto, demasiado convincentes para serem rejeitadas. Assim, estavam dispostos a desviar-se do pressuposto de mercados perfeitos ou racionalidade perfeita, ou ambos, acrescentando imperfeições suficientes para acomodar uma visão mais ou menos keynesiana das recessões. E na perspetiva dos economistas da água salgada, a política ativa de combate às recessões continuava a ser desejável.

Jason Lutes

 

Mas os auto-descritos economistas do Novo Keynesianismo não eram imunes aos encantos de indivíduos racionais e mercados perfeitos. Eles tentaram manter os seus desvios da ortodoxia neoclássica tão limitados quanto possível. Isto significava que não havia espaço nos modelos predominantes para coisas tais como bolhas e colapso do sistema bancário. O facto de tais coisas continuarem a acontecer no mundo real – houve uma terrível crise financeira e macroeconómica em grande parte da Ásia em 1997-8 e uma quebra no nível de depressão na Argentina em 2002 – não se refletiu na corrente dominante do pensamento Novo Keynesianismo.

Mesmo assim, poderia ter-se pensado que as diferentes visões de mundo dos economistas de água doce e água salgada os teriam colocado constantemente em desacordo em relação à política económica. Contudo, de forma algo surpreendente, entre 1985 e 2007, as disputas entre economistas de água doce e de água salgada foram principalmente sobre teoria e não sobre ação. A razão, creio eu, é que os Novos Keynesianos, ao contrário dos Keynesianos originais, não pensavam que a política fiscal – mudanças nas despesas ou impostos governamentais – era necessária para combater as recessões. Eles acreditavam que a política monetária, administrada pelos tecnocratas do FED, poderia proporcionar quaisquer remédios que a economia precisasse. Numa celebração dos 90 anos de Milton Friedman, Ben Bernanke, anteriormente um professor mais ou menos Novo Keynesiano em Princeton, e até então membro do conselho de administração do FED, declarou sobre a Grande Depressão: “Tem razão. Fizemo-lo. Lamentamos muito. Mas graças a si, não voltará a acontecer”. A mensagem clara era que tudo o que precisava para evitar depressões era de um FED mais inteligente.

E enquanto a política macroeconómica foi deixada nas mãos do maestro Greenspan, sem programas de estímulo do tipo keynesiano, os economistas de água doce pouco se queixaram. (Eles não acreditavam que a política monetária fizesse qualquer bem, mas também não acreditavam que fizesse qualquer mal).

Seria preciso uma crise para revelar o pouco terreno que havia em comum e o carácter panglossiano dos economistas neo-Keynesianos.

 

(continua)

 


O autor: Paul Krugman [1953-] é um economista estado-unidense, distinto professor de economia no centro de pós-graduação da City University de Nova Iorque e colunista do The New York Times. Em 2008 foi o vencedor do Prémio Nobel das Ciências Económicas pelas suas contribuições para a nova teoria do Comércio e para a nova geografia económica. O Comité do Prémio citou o trabalho de Krugman que explica os padrões do comércio internacional e a distribuição geográfica da actividade económica, examinando os efeitos das economias de escala e das preferências dos consumidores por diversos bens e serviços.

Krugman foi O anteriormente professor de economia no MIT e, mais tarde, na Universidade de Princeton, onde detém o título de professor Emérito. Também detém o título de Professor Centenário na London School of Economics. Krugman foi presidente da Associação económica Oriental em 2010, e está entre os economistas mais influentes do mundo. Ele é conhecido na academia pelo seu trabalho em Economia Internacional (incluindo teoria do Comércio e finanças internacionais), geografia económica, armadilhas de liquidez e crises cambiais.

Krugman é autor ou editor de 27 livros, incluindo trabalhos académicos, livros didáticos e livros para um público mais geral, e publicou mais de 200 artigos académicos em revistas profissionais e volumes editados. Escreveu também várias centenas de colunas sobre questões económicas e políticas para o New York Times, Fortune e Slate. De acordo com o projecto Open Syllabus, Krugman é o segundo autor mais citado em programas universitários para cursos de economia. Como comentarista, Krugman escreveu sobre uma ampla gama de questões económicas, incluindo distribuição de renda, tributação, macroeconomia e economia internacional. Krugman considera-se um liberal moderno, referindo-se aos seus livros, ao seu blog sobre o New York Times e ao seu livro de 2007 a consciência de um Liberal.

 

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