A última lição de ciência política, seja onde for, coincide com a primeira de psicologia ‘quem é a pessoa, ou, quem sou eu?’. É só uma afirmação de Norbert Bilbeny, catedrático em Filosofia; e acrescenta Bilbeny que, alguns, e não só os políticos, não se atreveriam a dar uma resposta a esta questão, por ela incluir em si própria, mais três perguntas de resposta também muito complicada, para ser dada de imediato, ‘Que imagem tens de ti mesmo?’, ou esta outra também referente à imagem, ‘Qual a imagem com que os outros vão ficar de ti?’ e, com toda a certeza dependente d as duas primeiras, ‘Que estás a fazer pelos outros?’
Parecendo que não, está nestas questões, todo um tratado de ciência política e, ao mesmo tempo, matéria para um psicólogo poder fazer uma tese de doutoramento, se encontrasse um só político, disposto a ‘despir-se’ ética, social e politicamente, sem quaisquer restrições, principalmente entre todos aqueles que enchem as páginas dos jornais, desde a usuais selfies, às passadeiras vermelhas, às maneiras de comer, beber ou dizer banalidades, que os ecrãs retransmitem como se fosse a chegada do humano a Saturno.
Tenho a convicção de que a maioria dos cidadãos deste país e de todos aqueles que nos vão enchendo os ecrãs, não se sente verdadeiramente representado por algum deles, independentemente da ornamentação capilar que ostente, ou até tenha ausente. Para além deste pormenor que, para alguns até exige horas ao espelho, creio haver um afastamento progressivo e gradual da representação política, que nem o rebate dos sinos consegue, afastar por cada cidadão se sentir estar cada vez mais isolado, a ver apenas as suas coisas.
Talvez esta sentença, (com mais de duzentos anos), do historiador e político francês, Alexis de Tocqueville, (1805-1859), conhecido pelos estudos da revolução francesa, das democracias de então e da nova que nascia na América do Norte, possa explicar a questão, ‘Quando o passado já não ilumina o futuro, o espírito caminha na obscuridade’ que outros apresentam de uma maneira mais radical, ‘Quando o passado não ilumina o futuro, o espírito vive nas trevas’.
Não me admira esta situação, especialmente no que se refere ao nosso país, até por dar atenção a uma crónica no DN, do professor, poeta e crítico literário António Carlos Cortez, ‘Ao irmos às escolas falar sobre os 500 anos de Camões, ou sobre a importância de uma data como a do 25 de Abril, vemos bem as consequências das sucessivas reformas inovadoras: os alunos (e mesmo muitos professores, sobretudo se têm menos de 40 anos) ignoram quem foi Camões, deparam-se com dificuldades extremas de redacção e de interpretação de textos literários (de Camões ou de quaisquer outros, do 7º ao 12º ano)’.
E Carlos Cortez depois de criticar a incapacidade de muitos alunos em pegar numa caneta, a caligrafia ilegível, o ilógico da sintaxe, e até a fonética quando lêem em voz alta, salienta ainda ‘A diluição das humanidades é proporcional ao recrudescimento da violência escolar e dos péssimos resultados que Portugal hoje apresenta em organismos internacionais’.
Não posso terminar esta Carta sem contar uma estória a propósito destes temas, passada com o primeiro ministro Winston Churchill, durante a II Guerra Mundial, quando as bombas alemãs caíam sobre Londres. Num despacho com o ‘chancellor of the Exchequer’, lugar que Churchill tinha ocupado entre 1924 e 1929, este lhe propõe que, para sufragar o esforço da guerra, planeava encerrar bibliotecas, museus, teatros, salas de concertos e outras coisas culturais, por motivos de força maior; Churchill olhou fixamente para o encarregado da fazenda pública e pergunta apenas, ‘Então por que combatemos?’
Na verdade, ser livre é poder pensar no que se diz, antes mesmo de dizer o que se pensa, ser donos das nossas palavras, entender o que lhes cabe dentro, para dizer e reafirmar paz, vida, liberdade, ‘Este sou eu’, deixar testemunho e legado da experiência, da memória que se guardou dos livros e da voz dos pais, quando eles começavam ‘Era uma vez…’ e nos educaram pela palavra e pelo exemplo.
António M. Oliveira
Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor
Texto este de António Oliveira é de leitura obrigatória.