CARTA DE BRAGA – “do dia da criança” por António Oliveira

 

Celebra-se, hoje dia 1 de Junho, o Dia Mundial da Criança. Parece não ser tão necessária como agora tal celebração, até por um jornal nacional ter divulgado há uns dias, ‘A Associação de Apoio à Vítima (APAV) registou mais de dez mil crimes contra as crianças no período entre 2022 e 2023, com um 62,6% de casos de violência doméstica e 30,3% de crimes sexuais, os comportamentos mais comuns nas queixas apresentadas’.

Mais divulga o DN ‘Os dados referem-se aos processos de apoio desenvolvidos presencialmente, por telefone, e-mail e online, mas a totalidade dos crimes cometidos ultrapassa os 10 mil. Chegaram ao conhecimento da APAV um total de 10.271 crimes e outras formas de violência contra crianças e jovens’.

Além das diversas formas de bullying e abuso sexual, ainda se deve ter em consideração que a pobreza é uma das maiores razões do aumento de crianças sem acesso a acesso a serviços de saúde que, quer se considere ou não, é também outra forma de violência contra elas, pois, num trabalho da Nova SBE para o jornal Publico, publicado já em Dezembro passado, as famílias com crianças até aos 15 anos estão a recorrer menos a serviços de saúde por falta de dinheiro e, no ano passado, mais de 15% dos agregados familiares nem procurou auxílio.

Por outro lado, ao mesmo tempo, e de acordo com um relatório da UNICEF, Portugal é o país europeu com maior taxa de crianças institucionalizadas, num relatório em que se critica a dependência excessiva de acolhimento residencial em detrimento do acolhimento familiar.

No conjunto dos países da Europa e Ásia Central, vivem em instituições cerca de 456 mil crianças, com uma taxa de institucionalização que é o dobro da média mundial, atingindo 232 por 100 mil crianças, em comparação com a média global de 105 por 100 mil crianças. O nosso país, segue a tendência da Europa Central, com uma taxa de 294 por 100.000 crianças, ou seja, quase o triplo da média mundial.

Uma cronista de uma grande empresa de comunicação, salienta também, ‘Nunca antes na História, houve tão poucas crianças, algo que afecta questões tão profundas como a transmissão da cultura, a solidariedade intergerações e a organização da convivência. Impuseram-nos os valores do solteiro, do indivíduo que parece ter aparecido por geração espontânea e detesta qualquer ligação biológica, esquecendo que ninguém sobrevive sem ser cuidado’.

Mas é a pessoa que melhor se adapta ao liberalismo, se promove com um entusiasmo desmedido, enquanto as crianças, as deixamos ser o que são e, se não as educarmos, veremos como se habituam facilmente às estruturas do consumir, consumir e, talvez produzir.

Mas, quase todas as semanas, se apontam dias mundiais disto ou daquilo, oportunidades para meia dúzia de senhores dizerem uma coisas bonitas e as caixas registadoras arranjarem meios para remendarem os fundilhos das calças dos patrões maiores, desgastados por tanto trabalho. Os outros, os visados e os compradores, ficam à espera de alguém descer até eles, na íntima convicção que tudo continuará na mesma, só e com mais um embrulho de laço colorido bem apertado, para deixar descuidado em qualquer lado.

Talvez seja bom ir até ao centro, seja qual for o lugar onde se vive, lugar onde se concentram os ‘aceleras’ dos ruídos, ver passar os outros que nunca usam os piscas, os cuidadores a olhar para o trânsito ou para outras coisas, ansiosos por se verem livres daquilo tudo, até das crianças, já devidamente armadas com telelés.

E, relembrando Augusto Gil´, ‘Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor? Porque padecem assim?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Leave a Reply