CARTA DE BRAGA – “de cartas, pássaros e liberdade” por António Oliveira

5 de Junho, recordaram-me há alguns dias, é o Dia Mundial do Ambiente e, até por isso, aqui ficam algumas reflexões sobre as minhas rotinas, daquelas que não o incomodam (o ambiente), e do impacte que os incómodos do Ambiente também têm em mim.

Sempre que chego a casa, vou à caixa do correio (até tem a fechadura estragada!) num hábito de muitos anos, para evitar também que as cartas fiquem encharcadas quando chove; mas só trago comigo os avisos dos impostos, os dos bancos a avisar dos pagamentos para não aumentar as dívidas, as do pároco da freguesia, que nem conheço, a avisar do horário e caminho do Compasso (uma vez ao ano), mais as inevitáveis epístolas dos centros comerciais e imobiliárias.

As cartas dos amigos, da família e de outra gente com quem confraternizei algum dia, desapareceram das rotinas dos carteiros, agora também montados em motorizadas que só acicatam os ódios de estimação dos cães aqui da rua, da mesma maneira que vou vendo desaparecer a passarada que, quando para aqui vim, fazia o encanto desta zona.

E quando não chove, nem está frio, fico um bom bocado à porta de casa, a lamentar já não ver os bandos de pardais a saltitar na rua em frente, as curiosas e magníficas figuras que os bandos de estorninhos iam deixando nos céus, mas ainda a ver os melros, que, aparentemente parecem estar agora, a povoar os espaços que os pardais abandonaram quando desapareceram, e também na esperança de rever o gaio que apareceu há uns meses no arvoredo da zona e, pelo cantar único e inimitável, parece que ainda se vai mantendo por aqui.

Não posso esquecer que sempre olhei os pássaros como sendo mais livres que os homens, pois abalam se sentem chegada a hora de partir, nem sequer dizem adeus, e voltam apenas (se voltam!) quando for vontade dos deuses; e estes tempos complicam demasiado o regresso, pois sentem melhor que os humanos, haver já muito menos condições para voltar.

Por isso, é difícil ver hoje as andorinhas, encontrar-lhes o ninho no beiral de um telhado, ouvir o piar da coruja –mesmo vivendo à beira de uma zona bem arborizada porque o que era o caminho de ida e volta parece ser só de ida, até por lhes termos dado cabo dos seus recursos, e já nem conseguirem encontrar locais onde se possam alimentar.

Nós, os humanos, há tempos que pusemos de parte as despedidas, por as termos substituído por tecnologias de levar na mão e outras, mas só muito mais tarde, quando o falar se torna mais raro ou difícil, percebemos que devem ter encontrado outra rua, outra gente, e deixámos mesmo de saber, se nos voltaremos a ver ou não.

E quando lemos, ouvimos ou vemos os casos que vão enchendo as primeiras páginas dos órgãos de comunicação que ainda se podem olhar aqueles de onde as notícias não fugiram, trocadas por faits divers de interesse duvidoso também é difícil olhar para os dias de amanhã, sem cerrar os punhos nos bolsos a esconder a preocupação.

Até por estarem aí, à distância de uma fisgada, as eleições europeias, situação que me leva a assumir também, estas palavras do diplomata e escritor Luís de Castro Mendes, numa das suas crónicas no DN, falando dos netos e das crianças que encontra na rua, ‘Depende de nós que eles vivam num regime de liberdade política e de Estado Social, com abertura para todas as opções de vida e de relacionamento pessoal, sempre que não ofendam a liberdade dos outros, ou que voltem ao nacionalismo de sacristia, que nós bem conhecemos, em que se perseguiam todas as opiniões divergentes e modos de vida diferentes, regime que se prepara para regressar com outras roupas e outra maquilhagem, mas com os mesmos princípios fundamentais: Deus, Pátria e Família’.

E termina com uma simplicidade espantosa, ‘A História depende do que fizermos dela: servidão ou liberdade’, a mesma simplicidade que leva os pássaros a ‘voar’ quando sentem chegada a hora, e a voltar, voando, se for vontade dos deuses.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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