CARTA DE BRAGA – “o século XX caducou” por António Oliveira

Começava assim a crónica de um veterano jornalista, referindo as eleições europeias. Apontava o facto de elas se terem realizado só umas horas depois das comemorações do ‘desembarque na Normandia’, aparentemente a vacina definitiva para os extremismos e os nacionalismos, que mancharam a História do século passado.

E salientava como se olhava para trás e para aquele dia, com a evocação enternecedora de lembrar as vidas dos jovens ali sacrificadas, para derrotar o fascismo. Mas acrescenta dorido ‘Agora os jovens votam para o ressuscitar. Não é uma questão de bons e maus, mas apenas por o século XX lhes estar tão longe como as guerras liberais. Hoje os já jovens não estão para vacinas destas’.

Na realidade, o reaparecimento da extrema direita e dos nacionalismos, corroem a União Europeia, uma criação pós-segunda guerra mundial, exactamente para acabar com eles e, acrescenta o veterano jornalista, ‘Não se trava a extrema direita com silêncio e correcção política., mas sim ao contrário’.

Nem sequer devemos considerar que eles nos estejam a bater à porta, na verdade eles já estão cá dentro e a tentar ocupar todos os recantos e cadeirões das divisões que os tiverem, assistimos e podemos comprovar como as sentenças e os discursos radicais estão a aumentar, com base no ódio, no racismo, na homofobia, potenciados pela ‘indústria do esquecimento’, a cargo dos senhores dos media, devidamente coadjuvados pelos outros senhores que mandam nos programas escolares, do primário ao superior.

Tudo parece apontar para que esta situação não seja nada mais do que o abandono que que as pessoas sentem por parte das elites políticas, notória nos mais diversos campos, dos salários miseráveis, à habitação, obrigando à fuga do lugar onde viveram dezenas de anos, vendo quarteirões inteiros a ser vendidos a fundos financeiros, e a transformar as cidades em passeios para tróleis.

Mais uma vez a História parece dar razão ao velho Marx (não foi jogador de futebol nem de ténis!), que a considerava apenas como o resultado da relação de classes. Deveria ser muito interessante poder ler como ele poderia analisar a situação destes tempos.

Acrescente-se ainda que, nos anos vinte do século passado –o tal, século XX agora tão longínquo– quando o nazismo e o fascismo avançavam duramente pela Europa, milhares e milhares de pessoas optaram por fugir, elegendo os States como último refúgio contra a barbárie; até 1954, mais de 12 milhões de emigrantes entraram pela Ellis Island, a pequena ilha na foz do rio Hudson, em Nova Iorque, um símbolo da emigração americana e Património Mundial.

Diz um outro cronista que hoje, o mundo inteiro se converteu num lugar sem saída, mas ainda escreve ‘Podíamos tentar atingir a vasta Patagónia chilena, no meio do nada, confortados por um silêncio celestial, longe do ruído e da fúria, mas para quê? Da maneira como estão as coisas, não tardaríamos a tropeçar num idiota com poncho, pronto a falar da pátria, da bandeira e da porra da mãe, em verso’.

Viva a Patagónia livre!

Ainda!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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