
Por muito paradoxal que isso pareça, a guerra há de acabar um dia. Suspender-se-ão as longas e complicadas negociações de paz, assinar-se-á finalmente o tratado, as tropas desmobilizar-se-ão. Cada qual dos sobreviventes voltará às suas ocupações, levantar-se-ão os bloqueios, hão-de abrir-se as fronteiras e, passado algum tempo, os inimigos encontrar-se-ão novamente face a face nos pontos mais diversos do planeta. Simplesmente, em vez de se carregarem à baioneta, cruzar-se-ão de mãos nos bolsos, cada um procurando a sua vida, este que foi artilheiro e derrubou catedrais vendendo panos de linho àquele que o odiou ferozmente e tentou exterminá-lo a tiro, à navalha, à dentada.
Dentro de dois, de três, de quatro anos – eu sei lá – mesclar-se-ão as nacionalidades que hoje se combatem, reatar-se-ão os laços que as prendiam há duas dúzias de meses e todo o ódio que as divide agora, todos os rancores que, de parte a parte, parecem separá-las irredutivelmente, hão de ir caindo a pouco e pouco. Em certas horas de comunidade sorrirão com um sorriso triste relembrando os horrores e desculpar-se-ão dizendo: – Foi a guerra!
Muitos dos que hoje combatem terão pudor de confessar que lá andaram. Voltarão em tropel as recordações, os remorsos de certos feitos e, como às vezes pedimos escusa de uma violência explicando que estávamos embriagados ou exaltados, procurarão atenuar com gentilezas extremas, com uma maior dose de consideração e de respeito, a memória que tenha ficado de certas pavorosas visões.
Há de chegar o momento no qual a opinião unânime dirá que foi uma loucura sem razão toda esta carnificina tremenda, que as nações nela se precipitaram nela levadas por interesses que não eram absolutamente os próprios e todos se darão as mãos fraternizando no comércio, na indústria, na ciência… E então será chegado o momento de ir pensando na próxima guerra, naquela que nos revelará maiores engenhos, maiores crueldades, maior barbárie.
10 de Novembro de 1915
